Imunizante do Butantan é triunfo da ciência nacional e será arma importante contra a dengue
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acaba de aprovar o registro da Butantan-DV, o primeiro imunizante do mundo em dose única contra a dengue. Trata-se de uma excelente notícia, uma vez que, nos últimos anos, a enfermidade perdeu o caráter sazonal e passou a ser uma ameaça permanente à população.
Fruto de um trabalho desenvolvido desde 2009 pelo Instituto Butantan, a vacina contra a dengue 100% brasileira será incorporada ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) a partir do ano que vem e será disponibilizada exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Como já vinha produzindo a vacina antes mesmo da aprovação, o Butantan conta com um estoque de mais de 1 milhão de doses do imunizante que já podem ser entregues ao PNI. Além disso, o instituto fechou parceria internacional com a empresa chinesa WuXi para ampliar a produção, o que deve permitir que mais 30 milhões de doses estejam disponíveis no segundo semestre de 2026.
A Butantan-DV é indicada para pessoas de 12 a 59 anos, faixa etária que pode ser ampliada no futuro, a depender de novos estudos. Estudo clínico com mais de 16 mil pessoas demonstrou que o imunizante tem eficácia de 74% no público entre 12 e 59 anos. De um modo geral, as reações adversas ao medicamento foram leves ou moderadas, como dor de cabeça.
A incorporação de mais um imunizante contra a dengue ao calendário de vacinação, que já contava com a japonesa Qdenga (administrada em duas doses), merece ser celebrada por mais de um motivo.
Primeiramente, como se sabe, tanto os casos de contágio quanto os de morte em consequência da dengue cresceram vertiginosamente nos últimos anos. Episódios de chuvas intensas e calor extremo, cada vez mais frequentes, favorecem a proliferação do mosquito Aedes aegypti, o agente transmissor da dengue.
Em 2024, o País bateu recordes tanto de casos (mais de 6 milhões) quanto de óbitos por dengue (cerca de 6 mil). Apesar da queda de 75% no número de casos confirmados em 2025 (de acordo com os dados do Ministério da Saúde disponíveis até agora) e de 72% no número de mortes por dengue, os patamares seguem elevadíssimos.
Basta lembrar que, quando o Butantan deu início ao trabalho que agora resultou na vacina contra a dengue, vivia-se uma crise sanitária, com mais de 1 milhão de casos registrados, número recorde até então. Ou seja, apesar da queda verificada neste ano, o contágio segue acelerado.
Mas além de um instrumento valioso no combate a uma enfermidade que pode ser letal, a vacina brasileira contra a dengue é um triunfo da ciência nacional, e prova de que, quando o País investe dinheiro, tempo e seus melhores cérebros para desenvolver soluções para problemas complexos, os resultados aparecem.
Como a pandemia de covid-19 demonstrou, a dependência exclusiva de cadeias de fornecimento globais, especialmente em situações de emergência, retarda a capacidade de reação do poder público. Agora, com a Butantan-DV, o Brasil tem condições não apenas de solucionar um grave problema de saúde interno, como posiciona-se para, futuramente, oferecer essa mesma solução ao mundo.
Do ESTADÃO
EDITORIAL