O Brasil alcança um marco histórico ao desenvolver a primeira vacina de dose única contra a dengue.
O anúncio, feito ontem, é um avanço científico que reflete a maturidade de nossas instituições de pesquisa e a urgência de responder a uma das doenças mais impactantes do país.
A tecnologia desenvolvida pelo Instituto Butantan não é apenas promissora: simboliza soberania sanitária. Ao simplificar a imunização e evitar o abandono entre doses, a vacina pode ampliar a proteção coletiva e reduzir o ciclo de epidemias que há anos preocupa as autoridades.
Em Santa Catarina, por exemplo, a relevância desse anúncio é inegável. A Dive (Diretoria de Vigilância Epidemiológica), órgão da Secretaria de Estado da Saúde, registrou, ao longo de 2025, 25.371 casos prováveis de dengue – 17.859 foram confirmados. Em setembro, foram 1.403 casos prováveis, contra 423 no mês de agosto, um aumento nas notificações de 230%. Os números são alarmantes.
A dengue, historicamente associada a regiões tropicais e densamente povoadas, tornou-se realidade também nas cidades catarinenses que, por décadas, acreditaram estar fora do mapa do Aedes aegipty, o mosquito transmissor. As mortes registradas no período mostram o peso dramático de uma doença que hoje já não é sazonal, mas permanente.
Por isso, não basta celebrar o feito científico. É preciso transformá-lo em política pública concreta. A chegada da vacina não elimina a responsabilidade cidadã: o combate ao mosquito continua e deve começar dentro de casa, no quintal, no pneu abandonado, no telhado que acumula água, no vaso de flor.
Também não substitui as ações de saneamento básico e fiscalização dos municípios, mas oferece esperança com base científica. A possibilidade de reduzir casos graves e mortes não por sorte, mas por causa da prevenção.
A negligência custa caro. A cada verão, o número de focos encontrados pela Dive cresce em Santa Catarina, sinalizando o quanto o mosquito se adapta e se espalha. A vacina de dose única é uma oportunidade de virar o jogo, especialmente se o acesso for amplo e equânime. Governos estaduais e municipais devem se preparar para distribuí-la com eficiência, priorizando grupos vulneráveis e áreas de maior incidência.