Produzida pelo Instituto Butantan, a vacina será destinada inicialmente a pessoas de 12 a 59 anos e já nasce com alta eficácia.
O Brasil acaba de inaugurar um marco científico e sanitário: a nova vacina Butantan-DV , primeira de dose única contra a dengue no mundo, recebeu aprovação técnica da Anvisa e está prestes a ter seu registro formalizado. Produzida pelo Instituto Butantan , a vacina será destinada inicialmente a pessoas de 12 a 59 anos e já nasce com alta eficácia, produção avançada e a promessa de mudar a resposta nacional a uma das doenças mais persistentes do país.
Enquanto a Anvisa e o Butantan assinam, nesta quarta, 26, o Termo de Compromisso que antecede o registro definitivo, o que realmente importa já está sacramentado: o imunizante cumpriu todas as exigências de segurança, eficácia e qualidade. Com isso, o Ministério da Saúde pode iniciar as etapas preparatórias para incorporar a dose ao Programa Nacional de Imunizações (PNI). A data oficial de início da vacinação, no entanto, ainda será definida.
A urgência é evidente em todo o país — e o Pará é um retrato claro dessa realidade. Mesmo com quedas recentes, a dengue segue sendo uma ameaça recorrente. Em janeiro de 2025, o estado registrou 501 casos confirmados , uma redução de quase 60% em relação a janeiro de 2024, quando houve 1.234 casos.
No acumulado do ano, as notificações classificadas como “casos prováveis” chegam a cerca de 17 mil , uma queda de 14% em comparação com o período equivalente de 2024. O número é expressivo, mas ajuda a reforçar um ponto: o Pará segue como área endêmica e, portanto, altamente beneficiada por uma vacina de dose única.
Em anos anteriores, o estado já havia registrado oscilações importantes — como em 2023, quando somou 4.485 casos confirmados, uma leve queda em relação a 2022. Municípios como Belém , Marabá, Itaituba, Rio Maria e Vitória do Xingu aparecem recorrentemente entre os de maior incidência, inflados por fatores como clima, urbanização acelerada e alta mobilidade populacional.
Vacina Butantan-DV: Um Novo Capítulo no Combate à Dengue
Neste cenário, a chegada de uma vacina de dose única tem impacto direto na cobertura vacinal. O Instituto Butantan, antecipando-se ao aval regulatório, iniciou a produção industrial ainda durante o processo de análise e já dispõe de mais de 1 milhão de doses prontas para envio ao PNI.
O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri , destaca que o imunizante apresenta eficácia geral de 74,7% 91,6% de proteção contra formas graves e 100% contra hospitalizações , com proteção sustentada por mais de cinco anos após uma única aplicação. “Além da eficácia, há o benefício de ser uma vacina produzida no país, o que facilita a distribuição e a escala”, afirma o infectologista.
Os resultados vêm de um ensaio clínico de fase 3 que acompanhou mais de 16 mil voluntários de 14 estados entre 2016 e 2024. A vacina mostrou segurança em pessoas que já tiveram dengue e também naquelas nunca expostas ao vírus. Entre os eventos adversos relatados, predominam reações leves e moderadas, como dor no local da aplicação, vermelhidão, fadiga e dor de cabeça.
Vantagens da Dose Única e Próximos Passos
A simplicidade da dose única é vista como uma vantagem operacional decisiva. Em emergências sanitárias, esquemas mais curtos aumentam a adesão da população, tornam as campanhas mais rápidas e reduzem a taxa de abandono entre a primeira e a segunda dose — problema recorrente nas campanhas de multidoses. Segundo Kfouri , os resultados da Butantan-DV são comparáveis aos da vacina da Takeda, já usada no Brasil, com o diferencial logístico de exigir apenas uma aplicação.
Anvisa já autorizou estudos para expandir a vacinação a idosos de 60 a 79 anos e analisa a possibilidade de inclusão de crianças de 2 a 11 anos, grupo para o qual dados preliminares apontam segurança. Cabe agora ao Ministério da Saúde definir o calendário e o critério de distribuição das doses — decisão que pode priorizar regiões com maior incidência, como a Amazônia Legal.
Mesmo antes da nova etapa, o Butantan já trabalha em escala ampliada: uma parceria internacional com a empresa chinesa WuXi deve elevar a capacidade de produção para cerca de 30 milhões de doses no segundo semestre de 2026.
No país da chuva, do calor intenso e do mosquito insistente, a dengue sempre encontrou terreno fértil. A diferença agora é que o Brasil — e o Pará , em particular — ganha uma arma moderna, nacional, de aplicação única e potencial transformador. Uma resposta robusta para um velho inimigo.
Luiza Mello