MANAUS (AM) – A Butantan-DV , vacina contra a dengue em dose única desenvolvida pelo Instituto Butantan , foi aprovada pela Anvisa nessa quarta-feira, 26, para uso em pessoas de 12 a 59 anos no Brasil.
A autorização abre caminho para a futura inclusão do imunizante no Programa Nacional de Imunizações (PNI) , decisão que agora depende do Ministério da Saúde. Segundo o cientista da Fiocruz Amazônia Jesem Orellana , a novidade pode transformar o enfrentamento da dengue em regiões como o Amazonas , onde desafios de acesso a comunidades isoladas tornam o esquema de múltiplas doses menos eficazes.
O Instituto Butantan já iniciou a produção do imunizante antes mesmo da aprovação regulatória e possui 1 milhão de doses prontas , além de um acordo internacional com a chinesa WuXi para expandir a capacidade e fornecer 30 milhões de doses até o segundo semestre de 2026 . Para o diretor do instituto, Esper Kallás, trata-se de um marco. “É um feito histórico para a ciência e a saúde do Brasil” , afirmou, ressaltando o potencial do imunizante para salvar vidas diante do avanço da doença no País.
Em um Estado marcado por longas distâncias, áreas rurais remotas e comunidades ribeirinhas e indígenas, o modelo de dose única tem peso especial. O epidemiologista Jesem Orellana considera o imunizante particularmente promissor nestes contextos. “A vacina contra a dengue do Butantan é uma alternativa altamente promissora em Estados como o Amazonas” , avaliou, explicando que a logística difícil frequentemente compromete esquemas com mais de uma dose.
Segundo ele, o imunizante atende a um dos principais gargalos da vacinação no Norte. “Ao dispensar a segunda dose e conferir alto grau de proteção, principalmente nas formas graves e com sinais de alarme, aparece como um forte aliado na Amazônia” , reforçou o pesquisador.
A aprovação da Anvisa não garante automaticamente a entrada do imunizante no SUS via PNI. O Butantan informou que a vacina “deverá ser incluída” no programa de imunização, e a decisão final cabe ao Ministério da Saúde. Orellana ressalta que o caráter universal e gratuito da oferta pelo SUS seria determinante. “Uma conquista histórica, pois a vacina será distribuída de forma universal e gratuita no maior sistema de saúde de acesso público do mundo” , disse o epidemiologista.
O termo de compromisso com a Anvisa prevê o envio de dados adicionais e o acompanhamento da proteção ao longo dos anos. O instituto também se prepara para ampliar a faixa etária recomendada: possui aprovação regulatória para testar o imunizante em pessoas de 60 a 79 anos e pretende incluir crianças de 2 a 11 anos , após análise de dados complementares. Estudos clínicos anteriores demonstraram segurança nesta faixa pediátrica.
A revisão sistemática “Epidemiology and costs of dengue in Brazil” , publicada em 2022 no ScienceDirect, documenta que epidemias geram picos de internações superiores a 70 mil por ano em anos epidêmicos (por exemplo, 95.008 internações em 2010), com taxas de hospitalização variando até 25,5% em surtos mais severos. O estudo também estima custos elevados – cerca de US$1,2 bilhões no surto 2012–2013 – apontando impacto direto sobre leitos, pronto-socorros e orçamento do SUS.
A análise global “The global economic burden of dengue: a systematic analysis” (The Lancet Infectious Diseases / IHME, 2016) estima custo anual global aproximado de US$8,9 bilhões , com cerca de 18% dos casos hospitalizados – números que ilustram o peso econômico e a mortalidade da dengue em escala mundial e sustentam a necessidade de intervenções como vacinação e fortalecimento da vigilância.