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Desastre programado

Publicado em 01 junho 2019

A cada ano, cresce o número de pesquisas sobre o impacto dos seres humanos na natureza. sem que as conclusões apresentadas acarretem mudanças substanciais no sentido de preservar a biodiversidade ainda existente. Em 6 de maio, uma nova e bem mais contundente empreitada nesse sentido foi lançada em Paris sob os auspídos da Organização das Nações Unidas: o estudo "Global Assessment". que não era publicado desde 2005.

O dado principal desse relatório é assustador: quase um milhão de espécies correm o risco de extinção em décadas, enquanto esforços atuais para conservar os recursos da Terra provavelmente fracassarão sem uma ação radical. afirmam os especialistas em biodiversidade da ONU que assinam o texto. Falando no lançamento do estudo, Audrey Azoulay, diretora-geral da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação. a Ciênda e a Cultura). disse que as descobertas apresentadas no documento colocam o mundo "em alerta", sublinhando: "Após a aprovação desse relatório histórico. ninguém poderá alegar que não sabia. Não podemos mais continuar a destruir a diversidade da vida. Esta é nossa responsabilidade para com as futuras gerações:· Destacando a importância universal da biodiversidade - a diversidade dentro das espécies. entre as espécies e os ecossistemas -. Audrey afirmou na ocasião que protegê-la "é tão vital quanto combater as mudanças climáticas".

O relatório retrata "um quadro sinistro". ressalta Sir Robert Watson. presidente da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêrnicos (IPBES. na sigla em inglês). que compilou a avaliação. "A saúde dos ecossistemas dos quais nós e todas as outras espécies dependem está se deteriorando mais rapidamente do que nunca". afirma. Ele enfatiza que as preocupações comerciais e financeiras também estão ameaçadas. "Estamos erodindo as fundações de nossas economias. meios de subsistênda. segurança alimentar. saúde e qualidade de vida em todo o mundo", sublinha.

SÍNTESE AMBICIOSA

Apresentado a 132 delegações de governos para aprovação na sede da Unesco, o relatório sintetizou o trabalho de mais de 450 especialistas de pelo menos 50 países. co- ordenado pela IPBES (órgão independente, conhecido como "IPCC da biodiversidade". criado pela parceria entre quatro agendas da ONU: Unesco, ONU Meio Ambiente. FAO e Pnud).

"Nunca tantos dados, de diferentes áreas. como das ciêndas naturais e sociais. foram reunidos para fazer uma avaliação detalhada da condição do ambiente em escala global e em uma perspectiva integrada de interação com a sociedade", afirmou um dos três copresidentes do estudo, o brasileiro Eduardo Sonnewend Brondízio. professor de antropologia da Universidade de Indiana (EUA) à agência Fapesp.

Outros sete brasileiros. de instituições nacionais, estão entre os autores do relatório. ''A biodiversidade e as contribuições da natureza para as pessoas são a nossa herança comum e arede de segurança mais importante que sustenta a vida da humanidade. Mas nossa rede de segurança está quase no ponto de ruptura", afirmou Sandra Díaz, da Argentina, também copresidente do estudo, no dia em que ele foi divulgado.

Os autores do texto assinalaram que os seres humanos estão nos dois extremos desse processo: eles surgem como a causa da ameaça e como diretamente prejudicados pelos riscos daí derivados. Uma vez que a humanidade exige cada vez mais comida, energia, moradia e outros recursos, os problemas que surgem também dificultam sua própria segurança alimentar e suas perspectivas de longo prazo. "A rede essendal e interconectada da vida na Terra está ficando menor e cada vez mais desgastada", diz o alemão Josef Settele. terceiro co presidente do estudo.

"Essa perda é um resultado direto da atividade humana e constitui urna ameaça direta ao bem-estar humano em todas as regiões do mundo:· Brondizio observou ainda a irnportância de padrões de "telecupagem" (o fenômeno em que recursos são extraídos e transformados em mercadorias em urna parte do mundo "para satisfazer as necessidades de povos distantes", consumidores de outras regiões da Terra) nesse processo destrutivo. Um exemplo nítido disso é a fabricação de celulares na China, depois exportados para boa parte do planeta. Esse padrão, segundo Brondizio, torna mais complicado evitar danos à natureza recorrendo aos meios usuais de governança e responsabilidade.

MUDANÇAS SEM PARALELO

Além de fornecer observações minuciosas sobre o estado da natureza, ecossistemas e corno a natureza sustenta toda a atividade humana, o "Global Assessrnent" discute o progresso de metas internacionais importantes, corno os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). as Metas de Aichi e o Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas. O relatório também examina dnco fatores prindpais da biodiversidade e alterações "sem precedentes" nos ecossistemas nos últimos 50 anos, identificandoos corno: mudanças no uso da terra e do mar; exploração direta de organismos; mudança climática, poluição e invasão de espédes exóticas.

1) UMA EM CADA QUATRO ESPÉCIES SOB RISCO DE EXTINÇÃO Em relação à fauna e à flora em risco. o estudo afirma que as atividades humanas "ameaçam mais espédes agora do que nunca" - urna descoberta baseada no fato de que cerca de 25% das espédes em grupos de plantas e animais são vulneráveis. Isso sugere que cerca de um milhão de espédes "já enfrentam a extinção, muitas em décadas, a menos que sejam tornadas medidas para reduzir a intensidade dos fatores de perda da biodiversidade". Sem essas medidas. haverá urna "aceleração adidonal" na taxa global de extinção de espédes, que já "pelo menos dezenas a centenas de vezes maior do que a média dos últimos 10 milhões de anos", afirmam os autores do relatório. Eles observam que até 2016, apesar de muitos esforços locais, incluindo povos indígenas e comunidades locais, 559 das 6.190 raças domesticadas de rnarniferos usados para alimentação e agricultura (cerca de 9% do total) foram extintas, e pelo menos outras 1.000 estão ameaçadas .

2) SEGURANÇA DE SAFRA AMEAÇADA NO LONGO PRAZO Além disso, muitos grupos silvestres que são necessários para a segurança alimentar no longo prazo "não têm proteção efetiva". salienta o relatório, enquanto o status de parentes silvestres de mamíferos domésticos e aves "está piorando". Ao mesmo tempo. reduções na diversidade de cultivos, parentes de grupos de animais silvestres e raças domesticadas significam que a agricultura provavelmente será menos resiliente contra futuras mudanças climáticas, pragas e patógenos. "Enquanto mais alimentos, energia e materiais estão sendo fornecidos às pessoas na maioria dos lugares, isso ocorre cada vez mais à custa da capacidade da natureza de fornecer tais contribuições no futuro". afirmam os autores do relatório, antes de acrescentar que "a biosfera, sobre o qual a humanida- de como um todo depende ( ... ) está declinando mais rapidamente do que em qualquer outro momento da história humana". Em um comunicado sobre o estudo, Scott McArt, professor de entomologia da Universidade Comell (EUA), chama atenção para um fenômeno relativamente recente e importante vinculado a essa área: a queda populacional de abelhas e outros insetos que transportam pólen. "Os insetos polinizadores são, infelizmente, um excelente exemplo dos problemas causados pelas atividades humanas". afirma McArt. "Na verdade, há uma frase recém-cunhada para declinios de insetos-o 'efeito parabrisa' - devido ao fato de que se você dirigisse seu carro ao anoitecer 30 anos atrás, precisaria limpar o para-brisa com frequência, mas não é mais o caso hoje", observa McArt.

3) POLUIÇÃO MARINHA MULTIPLICADA Sobre o tema da poluição. o texto do relatório aponta que, embora as tendências globais sejam mistas, a poluição do ar, da água e do solo continuou a aumentar em algumas áreas. ''A poluição por plástico marinho, em particular, aumentou dez vezes desde 1980". sublinham os autores, "afetando pelo menos 267 espécies". entre as quais estão 86% das tartarugas marinhas. 44% das aves marinhas e 43% dos marniferos marinhos. O "GlobalAssessment" de 2019 sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos também é o primeiro do tipo a examinar e incluir conhecimentos indigenas e locais, temas e prioridades, disse o IPBES em uma declaração. destacando que sua missão é fortalecer a formulação de políticas para o uso sustentável da biodiversidade. o bem-estar humano no longo prazo e o desenvolvimento sustentável. ''A perda de espécies, ecossistemas e diversidade genética já é uma ameaça global e geracional para o bem-estar humano", ressalta Sir Robert Watson. "Proteger as contribuições inestimáveis da natureza para as pessoas será o desafio decisivo das próximas décadas. Políticas, esforços e ações - em todos os níveis - somente obterão sucesso, no entanto, quando baseados no melhor conhecimento e evidência."