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Extinção de animais e vegetais aumenta em escala sem precedentes

Publicado em 24 maio 2019

Por Elton Alisson  |  Agência FAPESP

A extinção de animais e vegetais está aumentando em uma escala sem precedentes. Houve uma redução de, pelo menos, 20% na abundância média de espécies nativas na maioria dos principais habitats terrestres, principalmente a partir de 1900. Em relação aos anfíbios, a queda foi de mais de 40% e de quase 33% dos corais. Os mamíferos também estão sofrendo redução de suas espécies, tendo sido registrada uma queda de mais de um terço. As descobertas foram feitas por um grupo de cientistas de 50 países, incluindo o Brasil, autores da primeira avaliação global do estado da natureza da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês).

O sumário para os formuladores de políticas do relatório foi lançado em Paris, na França, depois de ter sido submetido à aprovação de 132 países durante a 7ª plenária do órgão, chamada de “IPCC Para a Biosdiversidade”. As informações são da Agência FAPESP.

“A saúde dos ecossistemas de que toda a humanidade e as espécies dependem está se deteriorando mais rapidamente do que nunca. Estamos erodindo os próprios alicerces de nossas economias, meios de subsistência, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida em todo o mundo”, disse Robert Watson, presidente da IPBES.

O relatório, que foi elaborado durante três anos por 145 especialistas, com apoio de outros 310 autores, avaliou mudanças na biodiversidade e nos serviços ecossistêmicos – como o fornecimento de alimentos e de água – durante os últimos 50 anos. Durante os trabalhos, os pesquisadores fizeram uma revisão de aproximadamente 15 mil fontes científicas, governamentais, de conhecimento indígena e de comunidades tradicionais.

“Esse é primeiro relatório intergovernamental que foca não só a biodiversidade, mas também suas interações com trajetórias de desenvolvimento econômico e com fatores que afetam a natureza, como as mudanças climáticas”, disse Eduardo Sonnewend Brondizio, professor da Indiana University, dos Estados Unidos, à Agência FAPESP.

“Nunca tantos dados, de diferentes áreas, como das ciências naturais e sociais, foram reunidos para fazer uma avaliação detalhada da condição do ambiente em escala global e em uma perspectiva integrada de interação com a sociedade”, disse Brondizio.

O cientista brasileiro, radicado há mais de 20 anos nos EUA, foi um dos três copresidentes do relatório e é um dos pesquisadores responsáveis por um projeto apoiado pela FAPESP, em parceria com o Belmont Forum, um consório das principais agências que financiam projetos de pesquisa sobre mudanças ambientais no mundo. Além dele, outros pesquisadores brasileiros são autores do relatório: Ana Paula Aguiar, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe); Bernardo Baeta Neves Strassburg, do Instituto Internacional para Sustentabilidade (ISS); Cristina Adams , da Universidade de São Paulo (USP); Gabriel Henrique Lui , do Ministério do Meio Ambiente; Maria Manuela Ligeti Carneiro da Cunha , da USP; Pedro Henrique Santin Brancalion , também da USP; e Rafael Dias Loyola , da Universidade Federal de Goiás (UFG).

“A contribuição dos autores brasileiros foi excepcional porque todos eles conseguiram trazer uma perspectiva social e ecológica integrada para o relatório. Eles colocaram suas respectivas especialidades, como ecologia, políticas públicas e cenários ambientais, em um contexto interdisciplinar”, disse Brondizio.

De acordo com o relatório, ecossistemas, espécies, populações selvagens, variedades locais de plantas e de animais domesticados estão diminuindo, deteriorando ou desaparecendo por completo. Com isso, a rede interconectada da vida na Terra está sendo reduzida e ficando desgastada.

Desde o século 16, pelo menos 680 espécies de vertebrados foram extintas e mais de 9% de todas as raças domesticadas de mamíferos explorados para a alimentação e a agricultura também foram levadas à extinção até 2016. Estima-se ainda que 1 milhão de espécies de animais e de vegetais ainda podem ser extintas.

Algumas das causas do declínio das espécies são, em ordem decrescente: mudanças no uso da terra e do mar, exploração direta de organismos, mudanças climáticas, poluição e espécies invasoras.

As emissões de gases do efeito estufa dobraram desde 1980, o que elevou a temperatura média global em pelo menos 0,7ºC. O impacto do aquecimento global, que já afeta a natureza, inclusive interferindo na genética animal, deve aumentar nas próximas décadas e pode, em algumas circunstâncias, superar o impacto da mudança do uso da terra e do mar e outros fatores, segundo os autores do relatório.

“O sumário mostra que a situação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, essenciais para a qualidade de vida, é ainda mais crítica do que a do aquecimento global”, disse Carlos Joly , professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador do programa BIOTA-FAPESP e responsável por coordenar o Painel Multidisciplinar de Especialistas da IPBES nos seus primeiros anos de existência, em parceria com o australiano Mark Londsdeale, da Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth (CSIRO). Joly é também membro da coordenação da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, na sigla em inglês), que teve a criação inspirada na IPBES.

Ainda segundo o relatório, três quartos do meio ambiente terrestre foram alterados de forma significativa pelas ações humanas, assim como 66% do ambiente marinho. Áreas mantidas ou geridas por povos indígenas e comunidades locais foram menos afetadas.

A pecuária e a agricultura – em sua maioria, voltada para a produção de grãos, como a soja, para a alimentação de animais explorados e mortos para consumo – abrange mais de um terço da superfície terrestre do mundo e quase 75% dos recursos de água doce. Aproximadamente 60 bilhões de toneladas de recursos renováveis e não renováveis são extraídos da natureza anualmente. Esse número quase dobrou desde 1980.

A destruição da terra fez com que a produtividade da superfície terrestre global caísse 23%. Já a perda de habitat costeiros e proteção colocam em risco entre 100 e 300 milhões de pessoas, devido à possibilidade de inundações e furacões. Além disso, a perda de polinizadores está colocando em risco até US$ 577 bilhões em safras globais anuais.

O relatório apontou também que a poluição plástica aumentou 10 vezes desde 1980. Além disso, entre 300 e 400 milhões de toneladas de metais pesados, solventes, lama tóxica e outros resíduos industriais são despejados todos os anos nas águas do mundo.

Mais de 400 “zonas mortas” oceânicas, com mais de 245 mil km², foram criadas por fertilizantes usados na agricultura que tiveram acesso aos ecossistemas costeiros. A área é maior que a do Reino Unido, segundo os pesquisadores.

“O relatório mostra que as populações mais ricas ou privilegiadas se acostumaram a ignorar os problemas ambientais porque não convivem com os impactos no dia a dia. São as populações mais pobres ou menos privilegiadas que estão sofrendo o impacto desse padrão de vida, na forma de poluição, desmatamento e atividades de mineração em lugares longe dos olhos do resto do mundo”, disse Brondizio.

As tendências negativas contra o meio ambiente devem continuar até 2050, segundo os pesquisadores, e devem persistir além desse período em todos os cenários políticos explorados no relatório, com exceção daqueles que realizam mudanças transformadoras.

Para os autores, as metas globais para conservar e usar a natureza de forma sustentável não podem ser atingidas nas trajetórias atuais, apesar dos esforços em políticas de preservação realizadas por alguns países. Ainda de acordo com eles, até 2013 e além dessa data, as metas só podem ser alcançadas através de mudanças transformadoras e de fatores políticos e tecnológicos.

A adoção de abordagens integradas e intersetoriais de gestão que considerem as compensações da fabricação de alimentos e energia, infraestrutura, manejo de água doce e costeira e a conservação da biodiversidade são ações indicadas pelos pesquisadores.

“Ainda não chegamos a um ponto de irreversibilidade na perda de biodiversidade e a consequente degradação dos serviços ecossistêmicos essenciais para a qualidade de vida. Se tomarmos decisões agora, para, em conjunto e de forma coordenada e cooperativa, promovermos mudanças transformativas integradas, inclusivas e baseadas no melhor conhecimento científico disponível, é possível reverter a velocidade da degradação”, disse Joly.

“Isso passa, obrigatoriamente, por conseguir cumprir as metas do Acordo de Paris, pois o aquecimento global já é um dos principais impulsionadores da perda de biodiversidade e degradação dos serviços ecossistêmicos”, ressaltou.

Os pesquisadores indicam também a construção de uma economia global sustentável, que se afaste do atual paradigma limitado de crescimento econômico.

“O relatório mostra que é preciso mudar a narrativa de que o desenvolvimento econômico é um fim em si mesmo e que todos os custos para alcançá-lo, como a degradação ambiental e a desigualdade social, são inevitáveis e justificáveis”, disse Brondizio.