Notícia

Ciência Hoje

Roger Bastide e as cidades

Publicado em 01 dezembro 2011

DOIS ÂNGULOS E UMA PERSPECTIVA

A maior parte dos estudos de Roger Bastide sobre o Brasil tem como foco principal as marcas deixadas pelos escravos africanos na cultura e na sociedade brasileiras, sobretudo no campo da religião. No entanto, escritos menos conhecidos do sociólogo francês revelam que o processo de urbanização e as cidades também atraíram seu interesse. Das análises que realizou sobre a metrópole brasileira (São Paulo, em especial), é possível inferir duas imagens centrais - a da "cidade vertical" e a da "cidade tentacular" - que o autor interpreta segundo uma perspectiva barroca, mobilizada para ler e avaliar tanto a forma das edificações quanto as ramificações dinâmicas da vida urbana, que abriga e redefine distintas estruturas e papéis sociais.

Os estudiosos são unânimes em afirmar que, como intérprete do Brasil, Roger Bastide (1898-1974) concentra sua atenção na face mágica, religiosa e "africana" do país, que se esboça em obras como O candomblé da Bahia (1958), Sociologia do folclore brasileiro (1959), As religiões africanas no Brasil (1960) e Estudos afro-brasileiros (1973). Se a primeira imagem de Brasil que emerge da obra do sociólogo francês não coincide, portanto, com o país moderno e urbano (ele destacaria justamente as dimensões que escapam aos processos modernizadores), é possível rever o retrato do Brasil por ele projetado, com o auxílio de um material pouco considerado, composto por escritos jornalísticos (depositados no "Arquivo Roger Bastide", do Instituto de Estudos Brasileiros/ USP); relato de viagem (Imagens do Nordeste místico em preto e branco, 1945); obra de divulgação (Brasil, terra de contrastes, 1957) e anotações de seu arquivo pessoal (Fonds Roger Bastide, Institut Mémoires de l"édition contemporaine IMEC).

O exame dessa produção de certo modo lateral permite inferir a centralidade das cidades em sua obra, que inclui uma reflexão a respeito do Brasil moderno e da cena urbana: hipóteses sobre o espaço físico, a arquitetura, os 441 processos de urbanização e também sobre as dinâmicas modernizadoras, que têm nas cidades seu solo principal. E nos auxilia a inserir o autor em novo campo de interlocuções (com arquitetos e urbanistas, por exemplo), além de contribuir para detalharmos o mapa das imagens e ideias em circulação a respeito das cidades, em geral, e de São Paulo, em particular.

Esse material tem o mérito adicional de lançar novas luzes sobre o pensamento do autor, não apenas do ponto de vista das temáticas, mas também do método, ajudando a realçar a heterogeneidade de sua produção - na forma e no conteúdo -, a polissemia de conceitos com os quais trabalha e as finas imbricações entre arte e ciência no desenho de seu olhar crítico. O recurso frequente à expressão poética que esses textos evidenciam, por exemplo, liga-se à necessidade de forjar um vocabulário mais elástico capaz de traduzir a nova realidade, que resiste ao vocabulário conceituai disponível, confessa ele na introdução de Brasil, terra de contrastes: trata-se de descobrir "noções líquidas" que sejam capazes de descrever fenômenos de fusão e transformação permanentes.

Vivendo em São Paulo entre 1938 e 1954 (período em que lecionou sociologia na Universidade de São Paulo), Bastide testemunha as transformações da cidade, que discute em escritos regulares para a imprensa. Nesse contexto, reabilita um repertório forjado pelos modernistas na década de 1920, esboçando dois ângulos de observação sobre a paisagem urbana: a "cidade vertical" e a "cidade tentacular". Tal procedimento chama a atenção para a cristalização de imagens sobre a capital paulistana, a despeito das modificações concretas que alteram sua fisionomia.

As cidades (São Paulo, sobretudo) são incorporadas também a uma discussão ampliada sobre os processos modernizadores, fornecendo ao intérprete um patamar privilegiado de observação. Nas reflexões do autor sobre o tema, as metrópoles, menos do que auxiliar no esboço dos "dois Brasis" - o moderno e o tradicional, o africano e o ocidental, o mágico e o secular -, revelam a interpenetração dinâmica dessas dimensões que a vida urbana produz e reproduz.

A cidade vertical A imagem da "cidade vertical"

não é criação sua, tendo sido fartamente utilizada, dentro e fora do país. A metáfora é central no repertório futurista e também na produção modernista nacional - na poesia e na crônica. Bastide se apropria dessa imagem-clichê para descrever a São Paulo que se verticaliza na década de 1950. Nos textos mais diretamente voltados ao perfil vertical da cidade, como "Estética de São Paulo II" (OEstado de S. Paulo, 27 de junho de 1951), o sociólogo esboça uma reflexão crítica sobre a arquitetura e a habitação moderna: os apartamentos superpostos em torres de cimento armado, verdadeiras "casas de vidros", que devassam e comprometem a intimidade familiar.

A casa torna-se "máquina de morar", cujos princípios de organização definem-se pelo despojamento decorativo, simplicidade e geometrização de linhas. Os alvos dessa crítica são o arquiteto suíço Charles-Edouard Jeanneret--Gris (1887-1965), celebrizado como Le Corbusier, e os preceitos do novo urbanismo defendidos a partir de 1928 pelos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM). Nota-se a dificuldade do autor em aceitar a pauta da arquitetura e do urbanismo corbusianos, sobretudo suas formulações sobre a cidade funcional e a habitação social, concebidos para um "homem genérico" - pontos fundamentais das quatro primeiras edições dos CIAM. Amparado em enfoque histórico e subjetivista, que se acomoda ao clima do pós-guerra e ao mal-estar reinante em relação ao racionalismo arquitetônico, o sociólogo visa resgatar o homem como "ser biográfico" particular, enraizado em uma dada tradição e cultura, que ele julga esquecido pelos "planejadores".

Ao falar de arquitetura por meio da "cidade vertical", tanto no artigo de 1951 quanto em Brasil, terra de contrastes (1957), Bastide elege a casa como centro da reflexão; construção que, segundo ele, deve estar adaptada ao entorno natural e à cultura. Nessa direção, o autor retoma Gilberto Freyre (o "sociólogo dos arquitetos", na designação de Henrique Mindlin), além de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, jovens arquitetos brasileiros da época que subvertem o funcionalismo arquitetônico em função de uma releitura do barroco, dos jogos de luz e sombra das construções, e detalhes decorativos de interiores e fachadas. Com isso, estabelecem um elo entre o moderno e as tradições luso-árabes, "abrasileirando" a arquitetura de matriz corbusiana.

A visada crítica de Bastide ao estilo internacional dos CIAM não deve ser lida como uma recusa extemporânea da "cidade vertical", ou como uma tentativa de preservar ilhas do passado na cena moderna. Trata-se, sim, de tentar temperar (no sentido literal de moderação e equilíbrio) a racionalidade moderna com a desrazão barroca, mediante sugestões estéticas que interfiram não apenas na paisagem material, mas que toquem em cheio o homem e as relações sociais. Eu diria que Bastide olha e avalia a "cidade vertical" a partir de um ponto de vista barroco, que recusa a funcionalidade, a geometrização das linhas e a transparência do vidro e valoriza interiores, formas retorcidas, ornamentos e a profusão imagética.

O elogio à beleza (como oposta à função) e a ênfase no indivíduo particular -que só o olhar aproximado consegue perceber - são outros elementos a afinar a lente barroca por meio da qual Bastide analisa não só as cidades, mas também a religião. Lembremos que a simplicidade do catimbó e da macumba será avaliada, em boa parte de sua obra, do ponto de vista da exuberância (barroca) do candomblé baiano.

Predileção pôr formas barrocas O gosto indisfarçável do autor pelas formas curvas e retorcidas do barroco, que apelam ao sonho e ao imaginário (e que informam sua forma de ver-pensar o mundo), se evidencia em parte substantiva dessa produção jornalística sobre artes, cidades e arquitetura. Nessa direção, um artigo de 1947, "A volta do barroco ou a lição do Brasil" [Diário de Notícias, 21 de setembro), é exemplar: no texto, não esconde a decepção diante de uma arte "utilitária", que privilegia a função em detrimento da beleza, deixando "um vazio na imaginação" e uma "lacuna na sensibilidade".

E ele localiza a saída para essa paisagem de certo modo desolada na retomada do barroco, que poderia inspirar as novas produções da arte moderna (por que não pensar em um surrealismo brasileiro de matriz barroca, pergunta-se Bastide). Afinal, menos que um estilo confinado a um período, o barroco, segundo o sociólogo, se projetaria em diversos domínios da vida e da arte: na arte moderna, como dito, mas também na arte popular (o artigo sobre os cavalinhos de pau dos carrosséis infantis, em O Estado de S. Paulo, 25 de maio 1944) e nas religiões (como no livro Imagens do Nordeste místico em branco e preto).

O autor se distancia, aí, do que defendera em trabalhos mais sociológicos sobre o barroco, escritos nessa mesma época (Sociologia do barroco no Brasil, 1945) e considerados um ponto de virada nos debates nacionais, por terem conferido maior precisão analítica ao tema. Os textos aqui tratados mostram que o barroco, para Bastide, não é somente um estilo arquitetônico, capaz de oferecer soluções ornamentais, mas antes estilo de vida e sensibilidade que mobiliza os domínios do inconsciente, atiçando a imaginação onírica e liberdade criadora. Nesse sentido, ele se afasta das discussões mais formais e estilísticas sobre o barroco, inauguradas pelo suíço Heinrich Wofflin (1864-1945), reencontrando as correntes que dão à noção um sentido mais alargado, para exprimirem certa concepção do homem e do mundo.

Os "tentáculos" da cidade Se a representação de São Paulo como "cidade vertical" designa a forma das edificações, a imagem da "cidade tentacular" com a qual Bas-tide intitula um longo ensaio de 1952 (Le Courrier de l"Unesco, n° 8-9) introduz novos elementos à representação urbana: a cidade com distintas ramificações, dotada de movimento e de sentidos de expansão e englobamento. Afinal, os tentáculos, enquanto se expandem, trazem para si o que conseguem alcançar. Assim, a ideia do horizonte desenhado por "arranha-céus", que a primeira imagem projeta (verticalmente), é substituída por uma sequência (horizontal) de extensões e contrações, produzida por essa cidade em movimento.

Bastide reedita as palavras do poeta belga Emile Verha-eren (que escreveu Les villes tentaculaires em 1895), por meio do brasileiro Mário de Andrade (autor de Pauliceia desvairada, de 1922). E a literatura, mais uma vez, fornece material e inspiração à análise sociológica, ajudando a dar corpo e alma à interpretação. Mas, no título do artigo, ele -não por acaso - substitui ville por cité, termo que indica não apenas o espaço físico urbano, mas a cidade e seus cidadãos. De fato, nesse texto ele olha para o crescimento de São Paulo em função de seus personagens, pensando as possibilidades e dificuldades de sua integração à sociedade urbana, industrial e moderna. Não são as edificações que o interessam agora, mas o ritmo da cidade tentacular, qúe inclui (e exclui) alguns de seus habitantes, sobretudo o "homem de cor".

Forças de união e de segregação atuam conjuntamente na "cidade tentacular" moderna, reafirmando seu movimento de extensão e contração. De um lado, aí se apresentam maiores possibilidades de ascensão social do negro (facilitada pelo anonimato urbano), formação de uma classe média negra e revisão de estereótipos tradicionalmente associados aos negros na antiga ordem patriarcal e rural. De outro lado, em grandes cidades, como São Paulo, nota--se "enquistamentos", ou seja, episódios de "segregação mais ou menos voluntária". Mas o fenômeno da mestiçagem - força a aproximar opostos - continua a operar na cidade, evitando a formação de castas completamente apartadas, embora não ehmine o preconceito. A "cidade tentacular" é assim sinônima de sociedade em transição que redefine as posições sociais de negros e brancos em seu interior, em função de uma série de ajustes e reajustes.

Nessas reflexões, Bastide recupera certo ideário da sociologia urbana lançada pela Escola de Chicago, sobretudo as ponderações de um de seus principais expoentes, Robert Park (1864-1944), sobre o papel que têm os grupos primários na preservação de valores e tradições no interior da cidade, o que leva à defesa de que a sociedade moderna, menos do que se opor à sociedade tradicional, vale-se permanentemente dela.

Ao mesmo tempo em que se beneficia dessas formulações, Bastide tende a recusar as oposições sociedade/ comunidade, campo/cidade, "cultura folk"/" cultura civilizada", caras a uma parcela dessa mesma Escola. Além disso, coloca-se contra a associação, estabelecida por Park, entre urbanização, secularização e individualização. A cidade, mostra ele, mantém-se impregnada de valores e práticas mágicas, recriando-as a partir de sincretismos entre formas tradicionais e modernas. E se ela separa grupos e isola indivíduos, produz simultaneamente as mais variadas formas associativas.

O interesse de Bastide por grupos tradicionais e nichos de resistência cultural na cena urbana moderna não o leva a defender a manutenção de comunidades no interior da sociedade mais ampla. Ao contrário, trata-se de, pelo inventário de ritmos e vozes dissonantes, perceber que o processo modernizador não é unívoco, e que suas brechas e contrastes - longe de excepcionais - auxiliam a constituí-lo. As imagens da "cidade vertical" e da "cidade/sociedade tentacular" traduzem, assim, os descom-passos e dissonâncias do moderno em sua forma (arte e arquitetura) e conteúdo (relações sociais).

Uma Visão Plural Não parece difícil afirmara importância das cidades nas análises que Bastide empreendeu da sociedade brasileira e da paisagem moderna. Tanto em sua dimensão material, que a imagem da "cidade vertical" expressa, quanto no acesso à compreensão da estrutura social e do processo de modernização brasileira, revelada na fórmula da "cidade tentacular".

Os textos considerados permitem ainda entrever uma perspectiva - barroca - exercitada por Bastide a partir desses dois ângulos: "vertical" e "tentacular". Perspectiva barroca que se evidencia no acento colocado sobre as individualidades (seja nas discussões sobre a arquitetura ou nas análises das relações raciais, onde o foco incide sobre os comportamentos individuais); no gosto pela estética das antíteses, que se apresenta nas discussões da paisagem física e humana da cidade; nas análises sobre a convivência entre o tradicional e o moderno; e no desenho mesmo do país como terra de contrastes.

Perspectiva barroca que se mostra ainda nos permanentes deslocamentos de pontos de vista operados pelo autor, que recusa (como a arquitetura barroca ao inventar o plano oval) um centro único, preferindo a pluralidade de visões. Tal perspectiva descentrada é expressamente apresentada por Roger Bastide em 1946, no texto "A propósito da poesia como método sociológico" (Diário de S. Paulo, 8 e 22 de fevereiro), quando define um andamento interpretativo que evita a soberania de uma mirada central, preferindo as perspectivas múltiplas e enviesadas. BI

Sugestões para leitura

BASTIDE, R. Brasil, terra de contrastes. São Paulo, Difel, 1959.

BASTIDE, R. Impressões do BrasiUorg. de Frehse, F. e Titan Jr., S.).

São Paulo, Imprensa Nacional, 2011.

PEIXOTO, F. A. "Roger Bastide e as cidades: dois ângulos e uma perspectiva", em Lanna, A.; Peixoto, F.; Lira, J. e Sampaio, M. R. (orgs.),

Os estrangeiros e as cidades. São Paulo, Alameda/FAPESP, 2011.