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Recordar é viver?

Publicado em 29 julho 2021

Por Giulia Granchi, do VivaBem, em São Paulo

Entenda como as memórias se formam, por que elas nos enganam e qual a importância de esquecer certas coisas

"As memórias nos tornam quem somos. São elas que nos ajudam a compreender o mundo e moldam nossa visão. São aquilo que nós lembramos e aquilo que queremos esquecer", explica Ângela Wyse, neurologista e poeta, sobre a rede tão única e tão importante para cada pessoa, um de seus objetos de estudo como professora do Departamento de Bioquímica da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Formadas, arquivadas e descartadas pelo cérebro, em uma rede de neurônios extremamente complexa, as memórias são essenciais para ações desde a aprendizagem até a capacidade de criar vínculos afetivos.

Com a ajuda de especialistas, VivaBem explica como as lembranças são "construídas", por que alguns eventos são mais difíceis de esquecer e por que nos lembramos de certas situações de maneira diferente da que elas realmente aconteceram.

Como a memória se forma

Para entender como a memória é "guardada" dentro do cérebro, um dos mais complexos órgãos do corpo humano, é necessário pensá-lo como uma rede. Os locais exatos de armazenamento ainda são um mistério para os pesquisadores, mas alguns mecanismos principais são conhecidos da ciência.

Se a memória fosse uma universidade, o hipocampo [estrutura neurológica que participa fortemente nos processos de emoção, aprendizado e memória] seria a reitoria, que é responsável pelo gerenciamento das coisas.

Viviane Louro, neurocientista e professora da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco)

O hipocampo é uma pequena estrutura que gerencia as memórias. Mas as memórias em si ficam armazenadas em diferentes áreas do cérebro, incluindo o córtex (camada externa) e regiões mais profundas (subcórtex), dependendo do tipo de lembrança.

É o hipocampo quem "decide" o que é importante ser memorizado e onde essa informação irá ficar armazenada no cérebro.

"Além disso, a estrutura tem um papel muito importante na recuperação das memórias. Quando nos recordamos de algo, significa que foi o hipocampo que fez com que a informação armazenada voltasse e fosse lembrada, por isso dizemos que ele gerencia as memórias", explica a professora.

Fatores externos também influenciam

Toda a atividade cerebral é fundamentada por uma figura-chave na arquitetura do cérebro, que é o neurônio.

"O que vai definir a capacidade de estocagem de informação é, primeiro, onde estão os neurônios. Depois, é a maneira com que os neurônios estão organizados e a quais outros neurônios estão interligados. Há também fatores genéticos que influenciam nessa arquitetura do cérebro e diferem, de forma individual, uma memória da outra", diz o neurologista Leonardo Cruz, professor de clínica médica da Faculdade de Medicina da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

O desenvolvimento do cérebro de uma pessoa começa na gestação, continua na infância e na adolescência e tem sua maturação biológica aos 22 anos.

Fatores externos influenciam, tais como escolaridade, contato social e estímulos musicais, esportivos e linguísticos. Todos funcionam como os traços que, aos poucos, formam um mapa único —sua memória, desenhada em um cérebro complexamente organizado por todas as suas experiências.

Os diferentes tipos de memórias

De curto prazo

Duram apenas de três a seis horas. Entre elas, existem os seguintes tipos:

Imediatas Guardam informações por um tempo curto, como um número de telefone que acabou de ser dito ou o nome de alguém a quem você foi apresentado no momento.

De trabalho Armazena temporariamente informação para realizar tarefas cognitivas, como a leitura, o entendimento da linguagem de outra pessoa, a aprendizagem ou o raciocínio.

De longa duração

Podem durar dias, anos ou para o resto da vida. Entre elas, existem:

Episódicas São aquelas que têm uma referência pessoal, como o dia em que alguém conheceu sua esposa/seu marido, o gosto de uma boa comida que comeu ou detalhes de uma festa de formatura.

Semânticas São as informações do mundo que adquirimos durante a vida, por exemplo, saber que o sinal vermelho indica que você pare, lembrar como falar palavras em um idioma no qual você não é nativo ou que a capital do Japão é Tóquio.

Não declarativas São memórias que não podem ser contadas ou ensinadas oralmente, como a motora, que retém informações sobre como andar ou falar. É ancorada em um sistema duradouro, o que faz com que as informações só se percam muito tardiamente ou fiquem até o fim da vida.

Memória também se treina

As memórias de curto prazo, como o número de um telefone falado há poucos minutos ou a placa de um carro que você só precisa lembrar até achar um papel e uma caneta, estão ligadas a um impulso elétrico momentâneo do hipocampo.

Se essas informações são esquecidas é porque elas não foram enviadas para áreas mais estruturadas no cérebro. Para que virem memórias definitivas, o único caminho é treinar.

"O que é preciso é usá-las por mais tempo. Por exemplo, se começo a tocar uma música nova no piano e paro para ir ao banheiro, na volta, já esqueci. Aí, toco de novo, de novo e de novo. De tanto repetir algo, é como se o o hipocampo falasse assim: 'Poxa, se ela está repetindo tanto, então isso é importante, é melhor memorizar do que ficar toda vez aprendendo do zero.' Assim, vou criando modificações na minha rede neural", diz Louro, que faz parte do Departamento de Música da UFPE.

Acontece, depois da repetição, o que os cientistas chamam de plasticidade cerebral. É quando a informação sai daquele impulso momentâneo, comum para as memórias de curto prazo, e se reestrutura alterando a organização do sistema nervoso. É assim que nosso cérebro, do ponto de vista científico, funciona para guardar memórias a partir das nossas experiências e comportamentos.

"A memória fica armazenada em diferentes partes do cérebro e é evocada pelo hipocampo, que é capaz de formar novos neurônios. Isso acontece muito nas crianças, mas também em adultos, e é chamada de neurogênese. Mostra que nosso cérebro é capaz de continuar evoluindo por meio de novas experiências", explica Wyse.

Como melhorar a memória?

Um bom aprendizado

"Ter atenção naquilo que estou vivendo aumenta a possibilidade de fazer um bom traço de memória", explica Carlos Alexandre Netto, professor do Departamento de Bioquímica da UFRGS. O contato com novos temas ou atividades também tem o poder de ajudar a saúde cognitiva como um todo, completa Leonardo Cruz, professor da UFMG.

Sono reparador

Um bom funcionamento do sistema nervoso depende do sono. Enquanto dormimos, o cérebro faz uma espécie de varredura, eliminando substâncias tóxicas e ficando pronto para novas atividades e interações. Além disso, as horas de sono são fundamentais para a consolidação de novas memórias.

Boa alimentação

"O cérebro é composto por células que são renovadas de tempos em tempos. E nosso organismo precisa de nutrientes para formá-las. A manutenção dessas células também depende do que comemos. O consumo de muita gordura saturada, por exemplo, está associado ao mau funcionamento das células e à demência vascular", explica Netto.

Atividade física

O exercício tem uma correlação muito importante com o sistema nervoso central e com a saúde cognitiva. "Os treinos intensos, por exemplo, melhoram o fluxo sanguíneo no cérebro e, por consequência, a renovação das células e a capacidade de plasticidade cerebral", diz Netto.

Redução do estresse

Saber controlar o estresse e a ansiedade, situações que o cérebro interpreta como perigo, também é bom para a memória. A adrenalina gerada por esses sentimentos pode levar à perda de atividade cerebral em diferentes áreas --agudamente e de maneira crônica.

Saúde emocional

Ter uma vida social, manter relacionamentos afetivos e cuidar da saúde mental com técnicas como a meditação e a psicoterapia causam a diminuição de atividade nas áreas que reagem ao estresse e geram um aumento das emoções positivas, o que também ajuda a preservar a memória.

Por que às vezes nossa memória nos engana?

Digamos que você queira contar a um amigo sobre o dia em que ganhou seu primeiro animal de estimação, ainda na infância. Você se lembra de como abraçou o bichinho e de suas características físicas, mas não se recorda como o pet chegou até sua casa. Para isso, seu cérebro, que não gosta de lacunas, preenche a informação faltante com a história que você ouviu da sua mãe.

"Somos capazes de desenvolver falsas memórias para satisfazer o nosso aparelho psíquico e deixar o menor número de perguntas sem resposta. Isso é muito comum na infância, em que muitas das lembranças mais precoces que nós temos não são lembranças de fato, mas versões falsas, que formamos a partir dos relatos de outras pessoas", explicou o psiquiatra Luiz Sperry em sua coluna no VivaBem.

Do ponto de vista científico, afirma Ângela Wyse, as memórias podem se misturar por conexões no cérebro. "Quando recebemos uma informação similar, que tem relação com uma lembrança já existente, criamos uma nova memória. O hipocampo remodela aquele conteúdo, misturando os fatos.".

Esquecer também é viver

No conto intitulado "Funes, o memorioso", do argentino Jorge Luis Borges, o protagonista possui uma memória perfeita, capaz de lembrar com detalhes um dia inteiro já vivido. Mas, para conseguir isso, ele ficava incapacitado de fazer qualquer coisa durante outras 24 horas.

Em entrevista à revista Pesquisa Fapesp, o médico e neurocientista Iván Izquierdo, grande contribuinte para os estudos de memórias e pesquisador da UFRGS, morto em fevereiro de 2021, classificou a história como "uma demonstração, pelo absurdo, de que o cérebro se satura."

E é assim que a ciência explica: a capacidade do cérebro não é infinita e, por isso, seria inviável se lembrar de todos os detalhes da infância, de todas as aulas da faculdade ou do nome de todas as pessoas que você já conheceu.

"Para sua própria evolução, é importante que você esqueça coisas. Só assim novas memórias podem surgir", comenta Ângela Wyse.

Do mesmo jeito, o cérebro também é eficiente em evocar lembranças que gostaríamos de esquecer, como um episódio que causou vergonha e arrependimento. Nas não se trata de "birra" dos neurônios.

"Algo do seu inconsciente traz isso à tona, digamos, quando você está prestes a dormir —uma situação comum. Isso só acontece porque, ainda que desagradável, aquele episódio marcou sua vida", explica Carlos Alexandre Netto.

Embora nessa situação seu corpo esteja pronto para o descanso, o funcionamento do cérebro não é só aquilo que conscientizamos. Uma série de processos inconscientes acontece ao mesmo tempo —mesmo quando, conscientemente, você não deseja que aconteça.