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Quando entrar setembro.....

Publicado em 05 setembro 2020

Por Rodrigo Viana

E o amor é tão longe, O amor é tão longe...

E a dor é tão perto (Balada de Gisberta - Maria Bethania)

O setembro é dedicado à prevenção do suicídio. Segundo a Organização Mundial de Saúde, 32 pessoas se suicidam por dia no Brasil. No dia seguinte ao Natal de 2013, meu pai foi um deles.

Salto linhas imaginárias porque não é possível, nem mesmo linguisticamente, absorver o que aconteceu. A dor, metonímica, é insuportável. E me deparei hoje com um vídeo muito bem roteirizado da campanha 'setembro amarelo': nele, duas menininhas conversam sobre o tema-tabú. Logo no início é possível ouvir uma delas em claro e bom tom:

"- quando alguém pensa em se suicídio, ela quer matar a dor, não a vida".

Isso não explica, mas responde a algumas questões. Coloca-nos no exato lugar de quem se matou. Sim, é preciso morrer junto pra não enlouquecer. Nestes tempos em que palavras como 'empatia', 'reciprocidade', 'sororidade' são tão usados é preciso suicidar-se pra entender o suicida.

As causas são variadas. Mas, a maioria dos especialistas identificam transtornos mentais na maior partes das pessoas que se suicidam ou que tentam fazê-lo. Dentre os principais transtornos observados, destacam-se a depressão na forma simples e bipolar, a dependência química e a esquizofrenia. Todas doenças do mesmo espectro de afetividade. Uma reportagem recende de O Globo, que folheei há pouco, traz um psiquiatra afirmando ser a depressão e o alcoolismo as principais causas.

Pai tinha os dois. O que, obviamente, levou-o a um sofrimento limite. E a mim, durante a convivência, a vários traumas. E Tocs. Explico.

As muitas faces da obsessão

Quem tem TOC é continuamente atormentado por pensamentos indesejados (obsessões) que invadem a mente e, por mais que se tente evitá-los, geram muita ansiedade, irritabilidade e pânico.

Lembro aqui, pensando em comorbidades, em uma outra doença do mesmo espectro: o autismo. Em 'Temple Grandin', filme baseado na história real de uma jovem autista que luta para ter uma vida normal, me toca quando a personagem diz: "Muita estimulação, machuca, incomoda...pessoas falando ao mesmo tempo podem levar ao pânico". O pânico, tão comum em quem tem Toc, Tag (transtorno de ansidendade generalizada), depressão, alcoolismo.... E tudo se mistura em acelerações de pensamento. Quem já teve um episódio da síndrome do pânico sabe bem a sensação de morte que se sente. E, contradição, são os filhos destas doenças que vão buscar na morte o alívio para a dor insuportável e indizível que apenas sentem.

Pra se ter uma ideia de como essas doenças atuam 'juntas', num estudo da Usp a que tive acesso, 8% das pessoas com TOC apresentavam exclusivamente sintomas de obsessão e compulsão, o que chamam de TOC puro. Na maioria dos casos, o TOC apareceu acompanhado de pelo menos mais um problema psiquiátrico ao longo da vida: 68% dos participantes do estudo sofriam também de depressão e 63% de outros transtornos de ansiedade, os distúrbios mais frequentes na população geral. Quase 35% apresentavam sinais de fobia social, que se caracteriza pelo medo excessivo de estar em público.

Dias, profissões e vidas perdidas

Ainda sobre o TOC, quero dizer que os pensamentos e rituais costumam consumir várias horas do dia. Às vezes madrugas. Dias, compromissos, vidas...Tudo isso com um sofrimento psíquico intenso. E é claro que isso tudo interferem no desempenho do trabalho e no convívio com a família e na relação com os afetos.

É preciso voltar na história da psicologia pra tentar entender um pouco tudo isso. Freud buscava explicações para o mecanismo psicológico que a psicanálise chama de neurose obsessiva. Inicialmente, interpretou a neurose obsessiva como um conflito entre o consciente e o inconsciente, resultado da repressão do desejo sexual. Diferentemente da histeria, em que a energia podia saltar misteriosamente da mente para o corpo e, por exemplo, causar a paralisia de um membro, na neurose obsessiva essa energia permaneceria na esfera psíquica.

Talvez, não por acaso, tantos acometidos por estas doenças tenham também uma questão com os desejos e fantasias sexuais. É bom dizer que hoje a medicina explica o TOC a partir de uma visão mais neurobiológica. Para os médicos atuais, o TOC é consequência da interação de fatores genéticos, neurobiológicos e ambientais.

Alto risco

As comorbidades, descobriram os pesquisadores, também influenciam um desfecho que era pouco conhecido nos casos de TOC: o suicídio. A psiquiatra Albina Torres, da Unesp em Botucatu, analisou informações de 582 pacientes e descobriu que 36% já haviam pensando em tirar a própria vida; 20% haviam planejado se matar e 11% tinham posto o plano em prática. Albina constatou também que o risco de planejar ou tentar cometer suicídio era mais alto entre as pessoas que, além do TOC, sofriam de depressão, transtorno de estresse pós-traumático ou de transtornos do controle de impulsos. "O TOC sempre foi considerado um transtorno com baixo risco de suicídio", conta Albina. "Vimos que não é bem assim."

Ainda no mesmo estudo, os resultados sugerem que o TOC se trata mesmo de uma doença associada a eventos marcantes que ocorrem durante o desenvolvimento da criança. Em 58% dos casos, o TOC havia começado antes dos 10 anos. Quando analisou os dados de todos os pacientes em conjunto, Maria Alice notou que os sintomas obsessivo-compulsivos não eram os primeiros a se manifestar: em média, surgiam entre os 12 e 13 anos de idade. O problema que apareceu mais cedo foi o medo de ficar longe dos pais ou de casa, o chamado transtorno de ansiedade da separação, forma de ansiedade que surgiu, em média, por volta dos 6 anos de idade. Um pouco mais adiante, por volta dos 7,5 anos, surgiram os sinais do transtorno de déficit de atenção com hiperatividade ou TDAH.

E aqui a Gestalt fecha pra mim, tudo faz sentido. Desde o medo-pavor da morte/separação de meus país na minha infância, o medo de viajens, de chuvas e temporais até as ritalinas tomadas por conta do déficit de atenção e da hiperatividade.

As esperas frequentes de meu pai - chegaria em casa embriado à noite? Porque demora tanto? - um enredo triste, mas necessário de ser contato. Muito provável que ele, meu pai, tenha tido, com os pais, meus avós, seus traumas muito semelhantes.

(...)as pessoas que na infância apresentavam sinais de ansiedade da separação e depois desenvolveram TOC corriam risco maior de sofrer também de transtorno de estresse pós-traumático se expostas a uma situação de ameaça (real ou imaginária) à vida. A segunda é que aqueles com sintomas de déficit de atenção com hiperatividade apresentavam probabilidade maior de desenvolver dependência química se experimentassem drogas como álcool, maconha ou cocaína.

Escrevo essas mal traçadas linhas de forma quase artesanal, nada acadêmica, puxando um ou outro estudo na internet, procurando entender um pouco minha história pessoal e contribuir para quem aqui se enxergar. Penso que os profissionais da saúde mental podem colaborar cada vez mais, e com mais especificidade em assuntos tão sensíveis e, portanto, importantes. Não tenho competência na área. O que tenho é uma elevada obsessão pelo entendimento da minha própria história de obsessão. Parece pleonasmo. E é. Ao olhar os mais de cinquenta diplomas na parede de casa, um misto de dor regozijo se misturam. Regozijo pela conquista e dor pela busca incessante de uma mente atormentada pelos Tocs e comorbidades já ditos acima.

Por fim, este é mais um texto que tem apenas um contorno. O contorno do amor. Do amor que me meu pai teve comigo. Do amor que tenho com ele. E, sobretudo, do nosso amor pela vida, do jeito que nos foi possível. Costuramos nossos fios, com nossas frágeis mãos, neste tecido inseguro e aqui nos fizemos.

Nada do que escrevo hoje, coloco intenção de tristeza. Um dia prometi a mim - e a outros que também sofriam assim - que iria buscar ajuda e também ajudar, da maneira que me fosse possível. Espero ter obtido êxito neste setembro amarelo. Não se mate. Fique. Me dá sua mão.

Farei meu melhor possível. A primavera vai chegar. Prometo

Fonte de estudo: Revista Pesquisa Fapesp, março 2013. São Paulo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.