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Medium (EUA)

O que é fé?

Publicado em 26 janeiro 2021

Por Barbara Clara, Beatriz Cunha, Fabia Souza, Isabelle de Oliveira e Paula Leone

Mergulhar vendado de uma altura imensurável, sem equipamentos de segurança ou redes de proteção. Lá embaixo? O total e completo desconhecido, mas ainda assim, você pula com a certeza de que uma força invisível o fará chegar ao fim são e salvo. Talvez, essa seja uma das definições mais representativas do que é ter fé. Quando a medicina não vê solução e a esperança na cura se mantém, não importa quão negativo o cenário se apresente, seria isso, fé? Mas em quê? Ou em quem? Deus, Jeová, Orixás, Buda, divindades da natureza ou simplesmente em si próprio?

“Eu tive um câncer no intestino, eram 17 linfomas malignos. Fiz uma cirurgia, e eu já tinha tudo encaminhado para radioterapia e quimioterapia. Uma semana antes, –uma mulher desconhecida bateu na minha porta, ela era de outra cidade e disse que Deus estava mostrando o meu endereço para ela. Orou e disse que eu havia sido curada. Na semana de ir para a cidade onde seria o tratamento, fiz mais exames e neles não constou mais nada. A fé me curou”, conta Cinthia Sabatelly, espírita, 22 anos.

A cura através da fé é explicada de diferentes formas. Enquanto dentro do espiritismo a subjetividade e a ciência se conectam para a recuperação de um doente, o protestantismo considera a cura ligada diretamente à fé em um Deus. Segundo a Missionária Joice Gomes, 38 anos, “tomar uma água consagrada ou levar a foto de alguém para ser orada não é o ponto, a questão é a fé depositada nesses atos”. Além disso, essas igrejas pregam a recuperação também através do que chamam de “movimento pelo Espírito Santo”, onde esse ser celestial usa as pessoas como instrumento de cura. “Somos instrumentos na mão dele e é só por ele que pessoas podem ser curadas”, finaliza.

Para o teólogo e pastor Giancarlo Duque, 42 anos, a fé é “um dom de Deus, dada de uma maneira geral a todos e desenvolvida através da prática nas escrituras de cada religião, prática essa que pode ser conquistada também através da natureza, onde a criação se revela como extensão da graça divina”.

Ter uma religião pode ter auxiliado no tratamento da depressão de Brenda, 19 anos. “Fui curada da depressão. Foi um período muito, muito ruim e muito difícil da minha vida, em que eu não tinha disposição para nada. Foi tudo um breu, minha vida era escura. Tinha incontáveis feridas abertas. Passado um bom tempo, eu fui apresentada a Jesus e em dado momento essa fé e entendimento me curou. Eu passei a querer viver porque o criador do universo também me criou. O processo não foi rápido, alguns sintomas se manifestam até hoje, mas com frequência e intensidade muito menores. E quando acontece eu sempre sei a quem recorrer”.

Eduarda Andrade conta que sua avó teve o útero curado e teve três filhas “Uma delas é a minha mãe, ela foi diagnosticada com útero infantil, porém naquela época não existia tratamento com hormônios igual tem hoje, ela orou todos os dias até que engravidou. Na primeira gravidez ela sofreu um aborto espontâneo, depois ela teve mais três filhas”, uma delas mãe de Eduardo.

Capelão no Hospital de Itaguaí e pastor luterano, Gilberto Krick nos conta um episódio de sua vida em que, por conta de uma doença degenerativa nos olhos, estava ficando cego, “meus olhos estavam morrendo”. Após diversos tratamentos com os melhores especialistas do Rio de Janeiro, não tinha mais expectativas. “Teve um momento em que eu estava com 18 graus de miopia, já tinha me conformado em ficar cego”. Sua última tentativa era um oftalmologista de Campinas, muito bem conceituado. Ao mesmo tempo, conta que entregou sua vida nas mãos de Deus, “não é buscar na religião ou igreja, sou eu e Deus. Eu me coloquei diante dele, porque ele que me deu os olhos e poderia tirá-los mas, que eu tinha a vontade de ficar bom, ficar curado e que eu confiava nele”. Chegando em Campinas, o médico não encontrou mais nada em seus exames. “Deus me curou daqui até Campinas”, conclui o pastor.

A farinha que cura

O placebo é um comprimido feito de farinha, usado em experiências para testar a eficácia de medicamentos. Um grupo de pacientes recebe o medicamento e outro recebe placebo. Esses testes, nos quais nem médico nem paciente sabem quem recebe o remédio real ou o placebo são considerados a forma mais eficiente de descobrir a verdadeira capacidade de cura de um novo medicamento. De acordo com o artigo “Remédio imaginário”, publicado na edição 100 da revista [Pesquisa FAPESP] Ciência da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), pesquisadores têm por certo que em torno de um terço dos pacientes experimentam melhora apenas com o placebo. O chamado “efeito placebo” vem levantando debates sobre o quão eficaz seria a força daquele que realmente acredita que foi curado.

De acordo com o cardiologista Alex Noronha de Amorim, o que está sendo testado é a eficácia do remédio, não do placebo. Então, como explicar a melhora dos pacientes? “Auto sugestão: O fato dele acreditar que está tomando remédio faz com que ele melhore, mas não quer dizer que haja uma cura. Os trabalhos têm tempo limitado, não se estendem indefinidamente até dizer que cura e habitualmente esses estudos são feitos com patologias crônicas, então não dá para falar em cura”, avalia o médico.

Já para Cecília Dias, terapeuta holística há 29 anos, trata-se de mais uma nomenclatura para fé. “O que eles chamam de efeito placebo, é assim: você toma um remédio e acredita piamente que aquilo vai funcionar. Então, quando você acredita em alguma coisa, o que acontece? Você muda sua vibração, aquela vibração?—?poxa, nada dá certo. Você se nutre de energia e aí dá certo. Então, o que eles chamam de efeito placebo, eu chamo de fé”. A terapeuta vai além e conecta fé e cura com as vibrações do corpo do indivíduo. “Fé, eu acredito que seja a elevação do estado vibracional, uma certeza que a pessoa não sabe de onde vem, mas sabe que tem. Então, fé pra mim é isso, e a medida que você eleva esse padrão de frequência, outras frequências de mesmo teor vêm até você’.

A terapeuta também utiliza cristais como forma de cura “Cristal é vibração. Digamos que um fígado tenha que vibrar a 234 heartz. Existe um cristal determinado que tem uma vibração de 234 heartz. Se o fígado está com uma vibração baixa, eu pego aquele cristal, com aquela vibração, e coloco em cima, para auxiliar o fígado a relembrar, digamos assim, sua frequência. Vai dar certo? Não sei. Eu estou ofertando uma possibilidade”.

“Nós todos somos frequência”, explica a terapeuta. “Cada um dos nossos órgãos vibra determinada frequência, sentimentos são frequências só que são, digamos assim, vibrações benéficas ou antagônicas. Benéficas, se forem bons sentimentos, e antagônicas, se forem ruins. Os sentimentos de baixa vibração, cada um deles interfere especificamente num órgão”. A cada momento, sentimentos diferentes passam por nós. Enquanto você lê essa matéria, você está vivenciando um sentimento que pode fazer com que seja emitida uma vibração, seja positiva ou negativa. E são exatamente essas vibrações que, segundo a terapeuta, nos curam ou adoecem. “Não são as minhas terapias, é a mudança de vibração. É qualquer terapia.” Segundo a terapeuta, se você disser para qualquer pessoa: Dobra seu joelho, reza dez ave Marias que você vai sair daqui curado. Se a pessoa acreditar nisso, ela vai elevar a frequência dela. Não foi a ave Maria que fez o trabalho, foi a pessoa que mudou por dentro.”

Embora não aposte em uma cura através do que chama de “auto sugestão”, Amorim defende uma medicina integrativa, com melhores resultados nos tratamentos a partir da comunhão entre cuidado físico e mental. “É possível até você estar bem da mente com uma saúde física mais ou menos, mas é difícil estar com uma saúde física boa, com uma saúde mental ruim”. Para o cardiologista, pode haver “um processo de auto envenenamento”. “O corpo, então, fabrica substâncias em excesso ou faltam substância importantes do corpo, disfunções hormonais que acabam minando a saúde física’’ finaliza o doutor Alex Amorim.

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