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Ciência Hoje

Muito além do nosso eu

Publicado em 01 outubro 2011

Miguel Nicolelis

São Paulo, Companhia das Letras, 552p., R$ 39,50

"VOCÊ, SUAS ALEGRIAS e tristezas, suas memórias e ambições, seu senso de identidade pessoal e livre-arbítfio, são na verdade nada mais que o comportamento de um vasto conjunto de células nervosas e suas moléculas associadas." E o que dizia o biólogo inglês Francis Crick (1916-2004) em seu livro A hipótese espantosa, de 1994. Em Muito além do nosso eu, o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis descreve sua trajetória científica, dedicada a desvendar como o cérebro humano realiza essa tarefa miraculosa de criar a nossa realidade.

No seu trabalho de pós-doutorado com John Chapin, como bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Nicolelis deu uma contribuição fundamental para uma mudança de paradigma na neurofisiologia. Pela primeira vez, sua equipe conseguiu o registro simultâneo da atividade elétrica de múltiplos neurônios cerebrais em ratos despertos. O resultado mostrava que a realização de uma tarefa específica pelo animal estava associada a impulsos elétricos distribuídos por todo esse conjunto de neurônios.

A neurofisiologia tradicional tendia a ser "localizacionista", associando a realização de funções cerebrais específicas a regiões especiais muito bem localizadas no sistema nervoso, Exemplo extremo"seria o "neurônio da vovó", especializado no reconhecimento da fisionomia dessa antepassada. Em contraste, a visão "distribucionista" diz que "qualquer tipo de informação processado pelo cérebro envolve o recrutamento altamente distribuído de populações de neurônios".

Contradizer o paradigma tradicional naturalmente provocou reações. Argumentou-se que os experimentadores não podiam saber o que o roedor sentia ou experimentava em associação à atividade elétrica detectada. Para responder a essa objeção, resolveram procurar um meio de ligar diretamente um cérebro, não mais de rato, mas de um primata, a uma máquina que revelasse o que desejava fazer. Essa parece ter sido a origem do projeto das ICMs, as Interfaces Cérebro-máquina.

Nicolelis descreve com requintes de suspense hitchcockiano o primeiro experimento bem-sucedido, em que uma macaca movimentou um braço robótico apenas por meio do pensamento. A partir desse êxito, que teve grande repercussão na mídia, foram vencidos outros desafios, como a transmissão em tempo real do pensamento de um macaco nos Estados Unidos para comandar a marcha ereta de um robô humanoide no Japão.