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Publicado em 27 abril 2011

Agência FAPESP– Os processos migratórios ocorrem hoje na América Latina de maneira muito mais complexa do que no passado. Em função disso, os desafios teóricos e metodológicos para analisá-los também se tornaram muito maiores.

A avaliação foi feita pelo chileno Jorge Rodrigues, pesquisador do Centro Latino-Americano e Caribenho de Demografia (Celade) da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), durante o Seminário Internacional Mobilidade Espacial e Vulnerabilidade Social: desafios teóricos-metodológicos e resultados de pesquisa, realizado nos dias 26 e 27 de abril na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O evento integra a programação da Semana Daniel Hogan, promovida até o dia 29 pelo Núcleo de Estudos de População (Nepo) do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp para homenagear e apresentar resultados das pesquisas que o demógrafo, que faleceu há exato um ano, coordenava no Nepo.

Hogan foi pró-reitor de Pós-Graduação da Unicamp de 2002 a 2005. Nascido nos Estados Unidos, graduou-se em letras pela Universidade Le Moyne College e fez mestrado em sociologia do desenvolvimento (1968) e doutorado em sociologia e demografia (1974), ambos pela Universidade Cornell.

Hogan foi um dos pesquisadores principais do Projeto Temático “Crescimento urbano, vulnerabilidade e adaptação”, coordenado pela professora Lucia da Costa Ferreira e que está inserido no Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).

De acordo com Rodrigues, os três principais tipos de migração mais estudados na América Latina são do campo para a cidade, e entre regiões ricas e pobres e a migração internacional. Elas são muito distintas e têm como principal causa as desigualdades socioeconômicas territoriais. Por isso, exigem metodologias específicas e adequadas à realidade latino-americana para estudá-las.

“A ideia de uma grande teoria de migração, que explique por que as pessoas mudam, é utópica. O que podemos fazer é lançar teorias que tenham um alcance médio, além de uma relação e elementos de articulação com os diferentes tipos de migração para analisar suas causas”, disse.

A migração do campo para a cidade, que já foi considerada a mais importante na América Latina, ainda persiste na região. Isso porque nas décadas de 1980 e 1990 os países latino-americanos passaram por graves crises econômicas, que afetaram principalmente as zonas urbanas metropolitanas.

Além disso, apesar da modernização que ocorreu no campo nos últimos anos em alguns países latino-americanos, principalmente no Brasil, esse avanço não se traduziu em melhores condições de vida para a população que vive no meio rural, segundo Rodrigues.

“O campo ainda apresenta menores níveis de educação, de oportunidades e de melhores empregos em comparação com as cidades, enquanto que centros urbanos são vistos pelos latino-americanos como um lugar de oportunidades. E isso contribuiu para a continuidade do fluxo migratório do campo para a cidade”, disse.

Devido à manutenção desse quadro, segundo ele é preciso desenvolver marcos conceituais para analisar esse tipo de migração, além de realizar pesquisas sobre as consequências desse processo.

Rodrigues aponta que a maior parte dos estudos realizados sobre esse tema nos últimos anos tem se preocupado mais com os fatores responsáveis pela migração do campo para a cidade, e não com seus impactos. “Essa pode ser uma nova linha de pesquisa interessante e importante do ponto de vista de desenvolver novas metodologias”, pontuou.

Em comum, de acordo com Rodrigues, a maior parte dos países da América Latina apresenta disparidades socioeconômicas territoriais, como, por exemplo, as diferenças entre as regiões Sul e Sudeste do Norte e Nordeste do Brasil e dos Andes para outras regiões de países como o Peru.

Cada cidade latino-americana, porém, apresenta desigualdades sociais e econômicas muito distintas das outras, o que torna difícil desenvolver um marco teórico para analisar e compreender os fluxos migratórios entre cidades na região, os quais envolvem um número muito maior de pessoas do que a migração do campo para a cidade.

Para tentar superar esse desafio, o Celade, sediado em Santiago, desenvolveu o software Redatan, que processa dados dos censos demográficos realizados por 15 países da América Latina na década de 2000. Com base nisso, os pesquisadores chilenos pretendem construir uma matriz de migração entre todas as cidades de cada país da região.

“Com o programa, que pode ser baixado diretamente no site do Celade, temos a possibilidade de trabalhar com a maioria das bases de dados demográficos da América Latina. E isso não é uma tarefa fácil, porque é preciso reunir dados de municípios distintos e desenvolver sofisticadas metodologias. Mas já temos alguns dados que foram divulgados em um congresso que ocorreu em Cuba em 2010”, disse Rodrigues à Agência FAPESP.

Buscas diferentes

Uma das principais constatações do estudo é o aumento do intercâmbio entre pessoas na América Latina. Das 1,5 mil cidades latino-americanas analisadas, a maior parte das que possuem mais de 50 mil habitantes apresenta saldo de migração positivo. As cidades que estão perdendo habitantes para outras são as menores, com menos de 50 mil habitantes.

Uma das explicações do grupo do Celade para essa diferença é que as cidades maiores, que ganham população, são mais dinâmicas economicamente, com alta demanda por emprego, que é o principal motivo da migração entre cidades. As com menos de 50 mil habitantes, que perdem população, são as cronicamente pobres, com pouca penetração de tecnologias modernas, como internet sem fio.

Entretanto, em meio a cidades ricas ou cronicamente pobres, há outras que não são tão atrativas em termos de pujança econômica como as cidades com mais de 50 mil habitantes, mas que apresentam excelentes oportunidades educativas e culturais, por exemplo. O que, segundo Rodrigues, torna muito mais difícil a análise dos fatores de atração e de expulsão e o fluxo de migração entre as cidades.

“No passado, havia uma ideia de que as pessoas partiam de uma cidade pequena para chegar a uma cidade grande, como São Paulo, Rio de Janeiro ou Porto Alegre. E, hoje, não necessariamente os migrantes estão indo para as grandes cidades. Eles podem até ir para as grandes cidades, mas logo se deslocam para uma cidade pequena ou média”, analisou.

Para explicar como esses fenômenos ocorrem, de acordo com Rodrigues, é preciso coletar e analisar os dados de cada cidade para analisar como elas se relacionam com as outras no intercâmbio de pessoas.