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Ciência Hoje

Devagar se vai ao...Pleistoceno!

Publicado em 01 outubro 2011

A pesquisas paleontológicas na região de Lagoa Santa, Minas Gerais, começaram no século 19, com o naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1801-1880), que ali se estabeleceu em 1835. Ele dedicou grande parte de sua vida à coleta de fósseis nas grutas existentes na região e, graças a seu empenho, Lagoa Santa passou a ser, ainda naquele século, muito conhecida na Europa e nos Estados Unidos. Além de restos de diversos animais, Lund encontrou na gruta do Sumidouro cerca de 30 esqueletos humanos totalmente fossilizados. As escavações efetuadas nessas grutas, depois dessa época, apresentaram interesse ora paleontológico, ora arqueológico. Na região, é muito difícil distinguir esses tipos de vestígios.

Apesar do interesse que Lagoa Santa despertou na comunidade científica, a pesquisa paleontológica e arqueológica na região foi abandonada após os trabalhos de Lund. O interesse científico pela região foi renovado apenas nas primeiras décadas do século 20, pelo engenheiro de minas Cássio H. Lanari. Entre as pesquisas posteriores a Lanari destacam-se estudos do Museu Nacional do Rio de Janeiro (nos anos 1920 e 1930) e da Academia Mineira de Ciências (entre as décadas de 1930 e 1950), além da missão norte-americana (nos anos 1950) e da missão franco-brasileira (nos anos 1970). Essa última missão era liderada pela renomada arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire (1917-1977), responsável pelo achado de um esqueleto humano com idade entre 11,5 e 11 mil anos, segundo as datações realizadas. Esse esqueleto foi mais tarde apelidado (por W. Neves) de "Luzia".

Escavações arqueológicas e paleontológicas voltaram a ser empreendidas em Lagoa Santa, de 2000 a 2009, dentro de um megaprojeto denominado "Origens e mi-croevolução do homem na América: uma abordagem paleoantropológica" (liderado por W. Neves), financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). As pesquisas desse projeto localizaram mais 30 sítios arqueológicos na região, além da escavação de três sítios do tipo abrigo sob rocha (áreas adjacentes a entradas de cavernas, cobertas por rochas salientes), de três sítios a céu aberto e de um sítio paleontológico, a gruta Cuvieri.

A principal razão que levou à escolha da gruta Cuvieri para nossas escavações foi a descoberta, ali, em 1974, do esqueleto quase completo de uma preguiça terrícola, conhecida na literatura especializada como Catonyx cuvieri. A boa preservação desse material atesta o potencial fossilífero da gruta. A escolha também foi influenciada pelas características dos sedimentos. Em geral, os sítios paleontológicos de Lagoa Santa têm fósseis inseridos em sedimentos muito duros, denominados brechas calcárias, que exigem métodos muito agressivos para expor e extrair os fósseis. O próprio Lund retirou pouquíssimos ossos inteiros das mais de 80 grutas que escavou. Nesse sentido, a gruta Cuvieri é o "sonho de consumo" de qualquer paleontólogo: ali, os fósseis são encontrados em sedimentos predominantemente não consolidados, o que permite expor, registrar e remover com maior facilidade esses vestígios, Essa gruta situa-se na Área de Proteção Ambiental Carste de Lagoa Santa, a cerca de 60 km de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais (figura IA). Está inserida em um afloramento de rochas calcárias e sua entrada atual, uma abertura de 1,5 m por 1 m, fica no fundo de uma grande depressão do relevo. Tais depressões, denominadas dolinas, são comuns em terrenos calcários, podem ter diâmetro de dezenas de metros e se formam pelo colapso do terreno devido à existência de espaços vazios no interior do embasamento rochoso.

Logo após a entrada da gruta há um conduto principal, praticamente horizontal e plano, com cerca de 15 m de comprimento. No final, esse conduto principal trifurca, formando três abismos, sem conexão aparente. Demos a esses abismos os nomes de Lócus 1, 2 e 3 (figura 1B), e eles apresentam, respectivamente, profundidades de 16, 4 e 8 m. Como a luminosidade do ambiente externo não alcança suas bocas, os abismos são verdadeiras armadilhas naturais, tanto para a fauna que habita a gruta quanto para animais que se aventuram ali dentro.

As escavações de nosso grupo na gruta Cuvieri limitaram-se aos Lócus 2 e 3, pois os sedimentos do Lócus 1 estavam bastante impactados por pesquisas anteriores. Nos dois abismos escavados, deixamos áreas intactas para pesquisas posteriores, respeitando a tendência atual (em todo o mundo) de manter parte do pacote fossilífero preservado para estudos das gerações futuras, que poderão usar técnicas inovadoras, mais reveladoras que as disponíveis na atualidade.

A metodologia de escavação foi inspirada na arqueologia. A remoção dos sedimentos foi realizada de modo a obter exposições sucessivas do pacote fossilífero, tentando reconstituir o plano original de deposição em que os animais caíram. Para isso, toda a superfície delimitada foi escavada simultaneamente, para evidenciar todas as peças que jaziam no mesmo plano de deposição. Enquan o o sedimento era retirado, os ossos encontrados eram mantidos em seus lugares e só removidos após o mapeamento e a numeração de cada um (ver "Trabalho minucioso"). Além disso, todo o sedimento escavado foi peneirado para recuperar pequenos fragmentos ósseos, e amostras sedimentares foram recolhidas e descritas minuciosamente em campo e em laboratório. Os desenhos de campo (croquis) foram depois digitalizados (figura 2).

Embora esse método implique escavações muito lentas, em relação a formas mais expeditas para remoção de fósseis, ele inclui aspectos contextuais ignorados em escavações mais velozes. Para dar uma ideia, o Lócus 2 (área de 4,9 m2 e volume de 3,5 m3) foi escavado por nove anos (pouco mais de um mês a cada ano, sempre na estação seca) até que a remoção de sedimentos atingisse cerca de 1 m de profundidade. Graças a essa lentidão, recolhemos mais de 15 mil ossos de fauna atual e extinta, e a posição de cada um desses vestígios foi registrada com precisão de centímetros. Isso permitiu ainda constatar mudanças sutis no sedimento em que cada osso estava, o que - como se verá adiante - possibilitou reconstruir detalhes sobre a fauna que se depositou nesse abismo.

Nas escavações do Lócus 2 foram obtidas 15.627 peças, sendo 15.541 de animais viventes e 86 de extintos, incluindo ossos articulados (encontrados juntos, em posições semelhantes às que ocupavam originalmente nos esqueletos) e desarticulados (achados isolados, ou misturados desordenadamente) (figura 3). Os restos de animais viventes incluem ossos de cervos, tatus, cutias, gambás, lebres, porcos-do-mato, pacas, antas e morcegos, além de pequenos roedores, aves, répteis e anfíbios. Quanto aos animais extintos, foram identificados o tigre-dentes--de-sabre (Smilodon populator) e preguiças terrícolas (a espécie Valgipes bucklandii e ossos do grupo Scelidotherii-nae). A idade dos ossos variou entre 220 e 11 mil anos antes do presente - com margens de erro de 40 anos. Essas datas correspondem, respectivamente, a uma paca e a uma preguiça terrícola.

Já as escavações feitas no Lócus 3 (figura 4) evidenciaram 6.439 ossos, articulados e desarticulados, sendo 5.242 de animais viventes e 1.197 de extintos. Os animais viventes identificados são os mesmos do Lócus 2, além de uma onça-pintada (Panthera onca). Quanto aos animais extintos, foram identificadas as preguiças terrícolas Catonyx euvieri e Valgipes bucklandii e uma paca "gigante" (Cuniculus major). A cronologia do material do Lócus 3 não é tão clara quanto a do Lócus 2, já que a maioria dos ossos encontrados não conservou colágeno, essencial para a datação por carbono-14, mas o pacote fossilífero como um todo é mais antigo que 12,3 mil anos, idade obtida nos restos de uma anta encontrada logo no início das escavações.

Os sedimentos do Lócus 2 apresentaram pouca variação. Da superfície até a profundidade de 60 cm, tinham textura inconsolidada e coloração marrom. A partir daí, algumas partes da área escavada exibiram sedimento consolidado e alaranjado. No entanto, foi observada uma característica incomum: o sedimento alaranjado ocupava apenas as áreas periféricas (junto às paredes) e, na área central do lócus, até o fundo, havia sedimento marrom. No Lócus 3, ao contrário, os sedimentos revelaram grande variação ao longo do tempo. Oito diferentes estratos foram identificados, uns menos e outros mais consolidados. Além disso, na parte superior do depósito, foram encontradas duas capas calcíticas (camadas cristalinas formadas pela dissolução da rocha calcária pela água e sua deposição sobre sedimentos). A datação pelo método de urânio e tório indicou que uma das capas teria entre 25 mile 29,5 mil anos.

No Lócus 2, foram obtidas datações muito díspares para ossos encontrados lado a lado, em diferentes profundidades. Essa disparidade foi interpretada, de início, como decorrente de perturbações do depósito, embora isso fosse improvável, em função da pouca dinâmica no interior do abismo. No entanto, a ocorrência (já mencionada) de sedimentos diferentes lado a lado, aliada à concentração de fósseis de espécies extintas no sedimento alaranjado, permitiu compreender por que ossos encontrados à mesma profundidade apresentavam idades tão diversas,

A explicação é a seguinte: o fosso do Lócus 2 foi preenchido primeiramente com sedimento alaranjado, durante parte do Pleistoceno, Nesse período, animais da chamada megafauna, hoje extintos, e alguns que ainda existem caíram no fosso e tiveram seus ossos preservados naquele sedimento (figura 5). Então, em algum momento no início do Holoceno (há 10 mil anos), surgiu uma abertura no fundo do abismo (um "sumidouro") que permitiu o escoamento de água, e esta carregou para locais mais profundos do maciço rochoso grande parte do sedimento alaranjado já depositado - junto com o material fóssil localizado na área central do lócus. Assim, restou apenas uma parcela do sedimento alaranjado, situada perto das paredes do lócus. Mais tarde, esse sumidouro foi obstruído, e sedimentos mais recentes, de coloração marrom, passaram a se acumular no espaço aberto pela água. A partir daí, os animais que caíram no Lócus 2 tiveram seus ossos incorporados a esse sedimento mais recente (que contém apenas, sem exceção, animais viventes). Em suma, o sedimento alaranjado é antigo e, por isso, rico em ossos de megafauna extinta, enquanto o sedimento marrom, mais recente, apresenta somente ossos de animais viventes.

A primeira vista, essa informação pode parecer insignificante. Entretanto, foi graças ao trabalho minucioso conduzido na gruta Cuvieri que identificamos a descontinuidade sutil entre os sedimentos do Lócus 2. Sabemos agora que animais atuais (veados, pacas e tatus, entre outros) coexistiram com animais hoje extintos (preguiças terrícolas e tigres-dentes-de-sabre). Sabemos ainda que os últimos desapareceram do ambiente ao redor de 10 mil anos atrás, no início do Holoceno, e também que houve mudanças no sistema de entrada de sedimentos na gruta: sedimentos alaranjados deixaram de entrar, dando lugar a sedimentos marrons,

No caso do Lócus 3, surgiram complicações cronológicas já em níveis mais superficiais. Uma anta (Tapirus terrestris) e uma preguiça extinta (Catonyx cuvieri) foram encontradas no início das escavações e datadas em cerca de 12.400 e 12.500 anos, respectivamente. A lógica dessas datações é inquestionável, pois os ossos da anta, mais recentes, foram encontrados superpostos aos da preguiça, mais antigos. Entretanto, ambos os espécimes estavam situados sob uma capa calcífica com datação entre 25 mil e 29 mil anos. Ou seja, materiais mais recentes (anta e preguiça) estavam depositados abaixo de materiais mais antigos (calcita). Portanto, se a datação da capa calcifica estiver correta, tanto a anta quanto a preguiça terrícola teriam que ser mais antigas que 27 mil anos. Até o momento, não encontramos uma explicação para essa inversão de estratos nos níveis superficiais do Lócus 3, e será necessário datar outros materiais obtidos nesse abismo para solucionar o enigma.

Antes do projeto "Origens", atribuía-se a todo fóssil de megafauna encontrado em Lagoa Santa uma idade correspondente à transição entre o Pleistoceno e o Holoceno (entre 12 e 10 mil anos atrás). O projeto, porém, promoveu amplo programa de datação de restos de animais extintos da região, constatando que os fósseis podem ter idades muito diferentes. Hoje sabemos que existem fósseis da região em museus nacionais e internacionais com datações entre 400 e 9 mil anos atrás. Guardadas as devidas proporções, a própria gruta Cuvieri é um bom exemplo de como escavações minuciosas revelam a grande complexidade da deposição dos estratos de sedimentos, que se reflete na cronologia dos depósitos fossilíferos da região. Não fossem as técnicas refinadas de escavação e registro que utilizamos nessa gruta, a descontinuidade des sedimentos e da fauna constatada no Lócus 2, bem como a inversão cronológica no Lócus 3, jamais teriam sido identificadas e compreendidas, ainda que apenas parcialmente. CH

Sugestões para leitura

NEVES, W. A. e PILÓ, L. B. 0 povo de Luzia: em busca dos primeiros americanos. São Paulo, Editora Globo, 2008,

BASTOS, S. 0 paraíso é no Piauí: a descoberta da arqueóloga Niède Guidon. Rio de Janeiro, Editora Bastos, 2010. CARTELLE, C. 0 homem do abismo. Belo Horizonte, Editora Gomes/Via Social, 2010.