Notícia

A Tarde (BA)

A química do sono

Publicado em 09 novembro 2008

Agência Fapesp

Uma pesquisa publicada na edição do Journal Sleep traz a primeira demonstração de uma anormalidade neuroquímica específica em adultos com insônia primária. A afirmação é da Academia Norte-Americana de Medicina do Sono, que destaca que o estudo amplia o conhecimento ainda limitado sobre o problema. Segundo a instituição, a insônia crônica, cujos sintomas permanecem por pelo menos um mês, afeta cerca de 10% dos adultos nos países industrializados e é o tipo mais comum de distúrbio do sono.

Freqüentemente se trata de um problema associado com doenças, distúrbios mentais ou a ingestão de determinados medicamentos ou substâncias químicas.

Cerca de 25% das pessoas com o problema têm insônia primária, definida pela dificuldade de iniciar ou de manter o sono e pela sensação de não ter um sono repara dor.

O novo estudo identificou uma redução de 30% nos níveis de ácido gama-aminobutírico, neurotransmissor que induz a inibição do sistema nervoso central, em indivíduos que sofrem de insônia primária há mais de seis meses.

De acordo com os autores, os resultados sugerem que a insônia primária é uma manifestação de um estado neurobiológico de hiperatividade. “O ácido gamaaminobutírico está presente em níveis reduzidos em indivíduos com insônia, o que indica que a hiperatividade está presente não apenas na forma de pensamentos e emoções excessivas, mas que também pode ser detectada no sistema nervoso central”, disse o principal autor do estudo, John Winkelman, do Brigham and Women’s Hospital, ligado à Escola Médica Harvard.

Cérebro

O ácido gama-aminobutírico diminui a atividade geral em diversas regiões cerebrais, ajudando o cérebro a “se desligar”. Agitação e dificuldade de “desligar” são reclamações comuns em pessoas com insônia pr imár ia.

De acordo com Winkelman, entender que o problema está associado com uma deficiência neuroquímica específica ajudará a validar a freqüentemente mal-compreendida reclamação de insônia e de suas conseqüências, como dificuldade de concentração, cansaço e irritabilidade durante o dia.

O estudo, ainda preliminar, incluiu 16 voluntários entre 25 e 55 anos, divididos entre os dois sexos, com problemas para iniciar ou manter o sono por pelo menos seis meses. A duração média dos sintomas era de dez anos.

Agripnia

Insônia, ou agripnia, é a falta de sono adequado, seja em quantidade ou em qualidade.

Inclui dificuldade para iniciar e manter o sono, despertares noturnos freqüentes e sono não-reparador, gerando situações em que ficam prejudicadas as funções do sono profundo, que são: produzir hormônios; fixar a memória; diminuir os movimentos corporais e as freqüências cardíaca e respiratória.

Fatores físicos (como doenças, uso de psicotrópicos ou outros medicamentos), psicológicos (preocupações, ansiedade, alcoolismo) e sociodemográficos (idade, sexo, trabalho, estado civil, número de filhos e idade deles) podem ser agravantes ou causadores da insônia.

As conseqüências de um diagnóstico malfeito ou não-realizado e de um tratamento não adequado da insônia podem levar a importantes prejuízos ao insone.

Alguns hábitos diários podem evitar a insônia ou pelo menos auxiliar no seu tratamento.

O nosso ‘relógio do sono’, por exemplo, precisa ser programado.

Se a pessoa quer dormir às 22 horas, é essencial que ela vá para cama sempre nesse mesmo horário.

Quem dorme cada noite em um horário diferente não consegue criar uma disciplina, o que pode dificultar o início do sono, ponderam especialistas.

Devem ainda ser evitados: cochilos diurnos; tempo excessivo na cama; uso excessivo de cafeína, álcool ou nicotina; exercícios forçados ou atividade mental próximos do horário de deitar; uma condição inadequada do ambiente de dormir (temperatura, luminosidade e ruído).

“Boa parte das insônias pode ser corrigida com esses comportamentos, os quais denominamos regras de higiene do sono”, afirma o neurologista especialista em medicina do sono Geraldo Rizzo.