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Ciência Hoje

A audição pede socorro

Publicado em 01 fevereiro 2011

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Uma britadeira na rua, a serra elétrica em um canteiro de obras, um caminhão acelerando, explosões repetidas de fogos de artifício, música estridente em uma festa. Esses são exemplos de ruídos aparentemente "normais" em uma cidade. Muitos os acham incômodos, mas não se preocupam com isso. Deveriam se preocupar. Ruídos intensos podem causar danos permanentes em estruturas internas do ouvido, levando a perdas na audição gradativas e irreversíveis. E não só em adolescentes e adultos, mas também em bebês e crianças. Por ocorrerem gradualmente, essas perdas, em geral, só são percebidas quando já é tarde. Como não há tratamento para esse tipo de perda auditiva, a melhor solução é a prevenção.

Temos, no português, a expressão "barulho ensurdecedor" para nos referirmos a ruídos desagradavelmente intensos. Até crianças usam derivações dessa expressão quando dizem: "Ele gritou tanto que quase me deixou surdo". Mas quantos entendem o significado literal (e real) dessas expressões?

As lesões auditivas causadas por exposição a ruído intenso em ambientes de trabalho são bem conhecidas e recebem a atenção de médicos, fonoaudiólogos, engenheiros de segurança, empresários e trabalhadores, visando a sua prevenção. Mas será que só o ruído industrial pode provocar perda auditiva? A resposta é bem clara para os especialistas: qualquer som intenso, ruído ou música, dentro ou fora de indústrias, pode lesar as estruturas do ouvido e, com isso, levar a perdas auditivas irreversíveis e a problemas como o "zumbido".

Por essa razão, o termo "perda auditiva induzida por ruído" foi substituído por perda auditiva induzida por níveis de pressão sonora elevada" (ou PAINPSE), para caracterizar a perda auditiva decorrente da exposição repetida a sons intensos, Já a perda auditiva causada por exposição única a sons intensos, como explosões e tiros, é chamada de "trauma acústico". A ocorrência de PAINPSE e de trauma acústico depende do tipo, do tempo e da intensidade da exposição ao som, assim como da suscetibilidade de cada indivíduo.

Enquanto no trauma acústico as queixas de sintomas como "ouvido tapado" e "zumbido" são praticamente imediatas, a PAINPSE se instala gradualmente. A princípio, pode haver um rebaixamento temporário da capacidade auditiva (com a sensação de ouvido tapado) após a exposição a sons intensos, mas com melhora em menos de 24 horas. Mas a exposição repetida a sons intensos danifica permanentemente estruturas internas do ouvido, principalmente na região responsável pela percepção de sons agudos. Como a maioria das pessoas demora muitos anos para perceber os efeitos da exposição continuada a sons intensos, a percepção do risco acaba se enfraquecendo. Assim, embora as pessoas saibam que sons intensos prejudicam a audição, acreditam que nada está acontecendo com elas,

Em 1994, o Comitê sobre Ruído e Saúde (Committee on Noise and Health), um órgão internacional ligado ao Conselho de Saúde da Holanda, investigou as evidências científicas de efeitos, na audição e na saúde em geral, da exposição a ruídos. Esse estudo concluiu que há evidências suficientes de que a exposição a sons ambientais acima de 70 decibéis (dB) pode levar a perda auditiva, hipertensão arterial, doenças cardíacas isquémicas, incômodo, diminuição de desempenho escolar e distúrbios do sono - o decibel é uma unidade de grandeza (em escala logarítmica) usada em várias áreas, em especial em telecomunicações, eletrônica e acústica. Em acústica, essa unidade indica a intensidade dos sons.

Agora responda: enquanto você lia estas informações sobre os efeitos dos sons na audição, pensou em pessoas de que idade? A maioria de nós pensa logo cm adolescentes (com seus ipods e festas ruidosas, por exemplo) e adultos (em fábricas e espetáculos de rock, por exemplo), mas quantos pensam em crianças e bebês? Enquanto pais e especialistas discutem os riscos - não menos importantes - da exposição de crianças a toxinas contidas em alimentos industrializados e à poluição do ar nas grandes cidades, seus filhos se expõem, muitas vezes com sua permissão ou até contra a vontade da criança, a sons potencialmente danosos ao aparelho auditivo.

Nas últimas décadas, várias pesquisas ao redor do mundo mostram que crianças e adolescentes vêm sendo expostos a níveis de pressão sonora elevados, e que são vulneráveis a essas exposições. Uma grande pesquisa, nos Estados Unidos, estimou a prevalência representativa da PAINPSE em mais de 5 mil crianças de seis a 19 anos. Os pesquisadores estimaram que 12,5% da população avaliada tinha PAINPSE em um ou nos dois ouvidos e que mais de 8,5% das crianças de seis ali anos apresentavam um rebaixamento temporário da capacidade auditiva, forte indício de sofrimento do sistema auditivo em decorrência da exposição a sons intensos.

Segundo estudo realizado no sul do Brasil, envolvendo 506 crianças de cinco a 12 anos, aquelas com histórico de exposição a ruídos intensos têm probabilidade 1,8 vez maior de apresentar zumbido (e 2,4 vezes maior de sentir incômodo por causa deste), em relação a crianças não expostas a ruídos intensos. A ocorrência mais frequente de exposição a ruído, nesse estudo, estava relacionada a fogos de artifício.

Como o som intenso afeta o ouvido_ Avia auditiva é dividida em via periférica (orelha, tímpano, ossículos e cóclea) e via central (do nervo auditivo até o cérebro) (figura 1). Dentro da cóclea está o órgão de Corti, com cerca de 15 mil células ciliadas muito bem organizadas, e cada célula dessas tem dezenas de cílios conectados entre si por microligamentos. A estimulação sonora provoca inclinação dos cílios, o que induz uma série de reações eletroquímicas, gerando um impulso elétrico. A partir daí, neurotransmissores são liberados e um sinal elétrico correspondente àquele som é enviado ao sistema nervoso central.

A exposição a sons intensos provoca modificações estruturais e metabólicas no órgão de Corti. As células ciliadas (figura 2) podem sofrer alterações no citoplasma e no núcleo, além de edema (acúmulo de líquido) e mudanças de permeabilidade na membrana. Sinais visíveis de superestimulação acústica podem ser vistos na fotografia, acima. A comparação com a ilustração logo à esquerda, de células ciliadas normais, deixa evidente a desorganização dos cílios da célula ciliada. Portanto, estes não podem mais abrir e fechar os canais iónicos da célula, deixando de funcionar como receptores sensoriais. Como essas células não se recuperam desse estado, elas se autodestroem - não há possibilidade de regeneração ou de crescimento de novas células. Ou seja: sons intensos provocam lesões irreversíveis.

A superestimulação acústica também causa danos em vasos sanguíneos locais e aumenta a liberação de radicais livres (tóxicos para os tecidos) e neurotransmissores em excesso. Esses efeitos podem levar a alterações das vias auditivas centrais, com prejuízos para a audição. Além disso, é importante considerar que qualquer alteração na via auditiva periférica pode ter impacto significativo na via central.

Quando um som é de fato intenso? _Há no Brasil limites legais para a exposição a sons contínuos ou intermitentes, estabelecidos em portaria do Ministério do Trabalho (3.214, de 8 de junho de 1978). Aportaria aprova a Norma Regulamentadora nº 15 (NR15), que dispõe sobre atividades e operações insalubres, e o Anexo I dessa norma define que uma pessoa pode permanecer com segurança em um ambiente com sons de 85 dB durante oito horas por dia. A cada 5 dB a mais na intensidade do som, o tempo de tolerância cai pela metade (se o som alcançar 110 dB, a tolerância será de apenas 7 minutos).

O problema é que a tabela foi elaborada considerando o risco de rebaixamento auditivo em adultos por exposição a ruídos ocupacionais, ou seja, por exposição a sons durante sua atuação profissional (cerca de 35 anos). A dose de exposição que uma criança pode acumular é muito maior que a prevista para adultos, pois elas têm a vida toda pela frente. Além disso, o padrão de exposição a sons intensos, no caso de crianças, é diferente do observado em adultos em ambiente de trabalho. Some-se a isso a suposição de que a via auditiva das crianças é mais sensível a sons intensos que a dos adultos (como mostraram estudos com animais).

O critério de determinação de normalidade de audição também é diferente nos dois casos. Os limiares audiométricos, ou seja, os sons mais fracos que o indivíduo pode perceber, não são os mesmos para adultos e crianças. Embora não haja consenso a respeito, espera-se que crianças percebam sons tão ou mais fracos que 15 dB entre as frequências de 250 Hz (grave) e 8 mil Hz (agudo), enquanto, para adultos, considera-se normal a percepção de sons de 25 dB ou menos. Em outras palavras, admite-se que os limiares de audição do adulto normal sejam piores que os da criança normal. Portanto, precisamos de limites de risco mais conservadores se quisermos realmente prevenir a PAINPSE em crianças.

As situações de risco de exposição de bebês e crianças a sons de intensidade elevada são muitas, desde as unidades de tratamento intensivo (UTI) neonatais até festas, eventos esportivos, aulas de música e dança (ou outras aulas, que envolvam uso de máquinas, como marcenaria), aparelhos de som (com ou sem fones de ouvido), cinemas, teatros, bailes infantis de carnaval e fogos de artifício. Até em atividades recreacionais o som pode ser excessivo, como em salões com brinquedos eletrônicos e no uso de veículos infantis motorizados e de brinquedos sonoros (que às vezes alcançam alarmantes 105 dB). Acompanhar os pais em espetáculos musicais e de fogos de artifício, em eventos esportivos ou até no ambiente de trabalho (como o de marceneiros, mecânicos e outros) também pode trazer riscos à audição das crianças.

Conceito do "risco" e mudança de atitude_ As impressões a respeito de riscos (figura 3) e de como lidar com eles estão profundamente relacionadas a estratégias de sobrevivência e dependem de fatores psicológicos, biológicos, culturais e sociais. Isso inclui o conhecimento do risco, as normas e os valores de uma sociedade. O risco contido na exposição a sons intensos é real, mas a criação do conceito de que se expor a sons intensos é arriscado depende da construção social dessa ideia.

Infelizmente, a construção do risco não depende diretamente da experiência individual. Quem nunca sentiu o ouvido tapado ou um apitinho nos ouvidos após uma festa de casamento "animada" ou na volta de um concerto que "arrebentou"? Mesmo assim, todos acham que explosões de rojões, música alta e voz elevada são sinônimos de animação e diversão. Uma das dificuldades para a conscientização das pessoas a respeito dos efeitos dos sons intensos sobre a audição é que, a princípio, os sintomas do sofrimento da via auditiva são passageiros. A instalação da perda auditiva é gradual e no começo esta afeta apenas as frequências agudas. As dificuldades de comunicação resultantes da instalação dessa perda auditiva somente serão sentidas depois de muitos anos.

Pesquisa realizada pela Escola de Medicina da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, na qual quase 9,7 mil adolescentes e jovens responderam a um questionário pela internet, mostrou que apenas 8% deles consideraram a perda auditiva "um problema muito grande". A maioria dos participantes já tinha tido sintomas auditivos como zumbido e perda de audição após ir a concertos (61%) e boates (43%), mas apenas 14% usavam protetores auditivos nessas situações.

Estudantes e pais de estudantes do segundo ao quinto ano do ensino fundamental de escolas públicas e privadas de Campinas (SP) estão sendo entrevistados pelas autoras. O objetivo dessa pesquisa da Unicamp, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), é descobrir quais são as queixas auditivas dessas crianças, seus hábitos e preferências quanto à exposição acústica e suas crenças a respeito dos efeitos do som intenso sobre a via auditiva. Embora o estudo esteja em andamento, resultados preliminares mostram que crianças e pais têm uma noção muito clara de que sons intensos fazem mal ao ouvido, mas esse conceito não é suficiente para evitar a exposição a sons intensos ou adotar medidas de proteção auditiva.

Como formar o conceito de risco é um tema muito discutido, e existem várias teorias. Teorias de comunicação em saúde, por exemplo, dizem que, para mudar um comportamento de risco, o indivíduo deve ser exposto à informação ainda na infância, em várias ocasiões e por meios diversos.

A educação tem se mostrado o único meio eficaz para mudar comportamentos de risco. Embora as crianças sejam mais propensas a desenvolver atitudes e comportamentos saudáveis, quando educadas para isso, o envolvimento de pais, professores e profissionais da saúde que lidam com crianças (pediatras, fonoaudiólogos, enfermeiros) é fundamental para o sucesso do programa. A educação a respeito da conservação auditiva pode ser feita com os pais em vários momentos: na triagem auditiva feita ainda na maternidade, em campanhas de vacinação, no acompanhamento pediátrico, em reuniões escolares etc.

As crianças podem ter contato com um programa de conservação auditiva ainda na pré-escola, por meio da professora, da enfermeira da escola ou de fonoaudiólogos em aulas especiais, com atividades lúdicas. No ensino fundamental, a conservação auditiva pode ser abordada com maior profundidade e com um apelo para a atuação da criança em situações de risco: diminuir o volume da música, afastar-se da fonte sonora ou usar protetores auditivos.

A prevenção de PAINPSE tem sido recomendada por especialistas há décadas. A implantação de programas de conservação auditiva na infância pretende prevenir a incidência do problema não apenas na infância e adolescência, mas também na vida adulta. Nos Estado Unidos, há pelo menos 10 organizações que oferecem programas de v prevenção de PAINPSE em crianças e adolescentes e pelo menos 18 outras que produzem ou disseminam materiais sobre prevenção desse tipo de perda auditiva que podem ser usados em sala de aula. Ainda assim, a prevenção da PAINPSE não faz parte do currículo escolar daquele país.

No Brasil, uma das diretrizes da política de atenção à saúde é promover saúde auditiva, "prevenir" e identificar precocemente problemas auditivos. No entanto, não existe no país nenhum programa oficial de prevenção de perda auditiva por ruídos constantes ou repetitivos voltada para crianças e adolescentes. Na realidade, esse é um tema que apenas recentemente começou a ser abordado em eventos científicos, e ainda está longe de alcançar a população em geral. Pretende-se, com o resultado da pesquisa sobre queixas auditivas, hábitos e crenças de crianças e de pais em relação à exposição sonora que está sendo conduzida na Unicamp, elaborar ou traduzir e adaptar culturalmente um programa de conservação auditiva específico para a realidade brasileira.

Você faz a sua parte?_Você se lembrada época em que andar de carro sem o cinto de segurança e fumar ao lado de crianças eram comportamentos considerados normais? A mudança, nesses casos, não se deu apenas pela aplicação de multas. Isso aconteceu por conta da educação I que a atual geração de adultos recebe desde a infância e do esforço contínuo das autoridades. Será que algum dia nos lembraremos do tempo em que crianças eram levadas para matinês de carnaval com música ensurdecedora? Da época em que bebês e crianças presenciavam de perto a chegada do Ano Novo em meio a fogos de artifício?

As responsabilidades do cidadão consciente são tantas! Além de produzir menos lixo, reciclar, usar menos o carro, fechar a torneira e apagar as luzes, agora todos podemos, e devemos, pensar no barulho que ajudamos a propagar e como proteger (ver "O que fazer?") nossa audição e a de nossos filhos! CH