Notícia

IstoÉ

Vamos cobrar!

Publicado em 19 novembro 2005

Por Hélio Campos Mello

O Brasil é um país de contrastes agudos onde a disputa entre os números díspares é permanente. Nossas grandes cidades têm restaurantes excelentes. Muitos. Mas em suas esquinas há gente, muita gente, pedindo comida. Nada contra bons restaurantes, tudo contra a miséria. Somos um dos países nos quais mais se vendem Ferraris. Mas o nosso transporte público é precário e vergonhoso a ponto de fazer trabalhadores acordarem às quatro horas da manhã, para chegar às sete horas ao trabalho e só às dez da noite voltar para casa. Nada contra as Ferraris, tudo contra a vergonhosa injustiça social. A ONU divulga esta semana um relatório, publicado com exclusividade à pág. 32 desta edição, que compara dois Brasis: o dos brancos e o dos negros. Foi usado o IDH, um índice de desenvolvimento humano que considera longevidade, educação e renda. O Brasil dos brancos consegue um resultado nada digno de orgulho: somos o 44º colocado no mundo, junto com a Costa Rica. Já o Brasil dos negros nos deixa vermelhos. Vermelhos de vergonha, culpa e constrangimento: estamos em 104º lugar, junto com El Salvador. Sim, a óbvia conclusão é que somos um país racista e injusto.

Também esta semana, aconteceu em Brasília a 3ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, aberta pelo presidente Lula. Constatou-se lá que temos ilhas de excelência como a Fapesp ou o Hospital do Câncer, em São Paulo. Também se constatou que temos boas idéias, mas que elas são massacradas pela falta de uma política de investimentos e pelo excesso de burrice burocrática. Lula disse que "nenhum país avança sem investir em ciência e tecnologia". Disse ainda, aos cientistas presentes, que "o papel de vocês é cobrar e cobrar o governo". Uma boa sugestão do presidente. E vale para tudo. Vamos todos cobrar o governo. Cobrar e cobrar! Cobrar mais investimentos, menos juros, mais empregos, mais infra-estrutura, mais justiça social, mais ética, mais fraternidade, menos egoísmo. Mais cuidado e investimento com a infância. Mais cuidado e investimento com a educação. Enfim, mais competência.