Notícia

Cadeira de Barbeiro

Sursum Corda!

Publicado em 24 dezembro 2019

Amanhã é feriado, dia de folga. Amanhã é dia de Natal que, a muitos de nós, remete a preciosas lembranças da infância. O agridoce sabor de recordar momentos e pessoas, vínculos e interações, objetivos e planos, que ficaram para sempre no horizonte.

A crescente aceleração do tempo me faz lembrar (e dar razão!) a uma explicação que o Alberto Gomide tinha, à época da Fapesp: “Não é que as coisas andem mais depressa agora. É que, à medida que envelhecemos, o tempo encolhe. Você lembra, no primário, como demorava para chegar a hora do recreio? E as férias de julho? Agora, que estamos mais velhos, você pisca, e já é Natal de novo”. Outra referência a essa aceleração associada à idade está em “Morte em Veneza”, do Thomas Mann. Lá Aschenbach relembra que em sua casa paterna havia uma ampulheta, e lhe era tedioso ver a areia lentamente, interminavelmente esvair-se. Perto do fim, porém, tudo muda. Forma-se um pequeno vórtice e o que restou de areia escoa-se quase instantaneamente. Já não há tempo para nada...

Outra reminiscência da época é o uso do latim como a língua litúrgica dos católicos, o que trazia uma mística e uma cor adicional a tudo. “Sursum Corda”, “Corações ao Alto”, um chamamento que sempre repercutiu fundamente na alma dos fiéis. Elevar-se acimas das mundanidades, das disputas mesquinhas, livrar-se das cadeias que nós mesmos fabricamos e que nos prendem a objetivos menos nobres. Charles Dickens criou uma preciosidade para a data: “Um Conto de Natal”, cuja personagem central, Ebenezer Scrooge tornou-se o posterior modelo para o Tio Patinhas, criação da Disney. Um conto em que um velho de carácter mesquinho redime-se pela mágica do Natal: seu falecido sócio, Jacob Marley, envia-lhe três fantasmas que surgem em sonhos e o fazem rever seus valores pessoais. Um quarto fantasma, o do próprio Marley, aparece arrastando pesadas correntes e busca chamá-lo à razão: “essa corrente que carrego, eu mesmo a forjei em vida. Elo por elo, metro por metro, por minha livre e espontânea vontade, e assim a carregarei comigo... Você a acha estranha?”.

Manter ao alto o coração, refrear o instinto de responder a cada palavra ou ato que nos
desagrade, evitando aumentar o tom e a ira. É difícil e cada vez mais raro respeitar limites,
quando se tem um canal superlativo e instantâneo de resposta ao alcance da mão. A “hybris”, aquela forma de soberba e de extrapolação de limites, a que os deuses gregos puniam exemplarmente, vale-se hoje da Internet. Elevar a alma é fugir da arrogância e da soberba, levando-a para alturas inalcançáveis aos de baixos propósitos.

Outro texto do Dickens, Um Conto de Duas Cidades, abre com algo que, assustadoramente,
poderíamos associar ao que se vive hoje, especialmente com a Internet. Esperemos não seja
assim que nossos tempos sejam lembrados pelos que nos sucederão: “Foi o melhor dos tempos, e o pior. Foi a era da sabedoria e a era da tolice, foi a época da fé e da descrença, foi o período da luz e o período das trevas, foi a primavera da esperança e o outono do desespero, tínhamos tudo diante de nós, e tínhamos o nada pela frente, estávamos indo direto ao Paraíso, ou claramente a outro extremo...”

Bom Natal a todos!

Essa notícia também repercutiu nos veículos:
O Estado de S. Paulo Estadão.com