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Diário de Cuiabá online

Sinfonia de ruídos

Publicado em 28 outubro 2008

Por Claudio de Oliveira

Feche os olhos e sinta os sons. O convite para ouvir a música eletroacústica às vezes nos deixa com a pulga atrás da orelha: e isso é música!?

 

Quando alguém pergunta ‘o que é arte?’ a maioria das pessoas que realmente estudam a arte se esquiva de responder por ter a certeza de que esta palavra é muito mais complexa do que nos informa o dicionário. Olha que o Houaiss nos oferece 25 sentidos para a palavra.

Talvez não tão polêmica, especialmente por ter nascido bem depois desta, a Música Eletroacústica também é um campo minado. Um conceito difícil de precisar, mais ainda de descrever.

A noite de hoje na Bienal de Música Contemporânea de MT traz um concerto de eletroacústica. E afinal o que é música eletroacústica? Seria muito mais fácil se as pessoas ouvissem os concertos, pois mesmo após ter ouvido peças incríveis da Cristina Dignart(que inclusive também se apresenta hoje) continuo sem saber ao certo como descrever a experiência.

Contudo, vamos aos ‘finalmentes’. A música eletroacústica (ME) nasceu podemos dizer a partir da música concreta de Pierre Schaeffer(1910 - 1995). A locução histórica foi numa terça-feira, 5 de outubro de 1948, às 21 hs, no Club d'Essai, Chaîne Parisienne, Radiodifusão Francesa. O locutor era Jean Toscane, que proferiu: "O Clube de Ensaios da Radiodifusão Francesa apresenta um concerto de ruídos, concebido e realizado por Pierre Schaeffer..." Este é apresentado como taumaturgo(que ou quem opera milagres) moderno, o músico de todos os sons, criador daquele concerto radiofônico que até hoje não foi suficientemente avaliado.

Nesta noite os sentidos auditivos serão explorados. Rodolfo Caesar aluno de Schaeffer e pós-doutor, estudioso e compositor de ME é um dos ‘operadores de áudio’(brincadeirinha) deste concerto, além de ter peças suas no programa. Caesar tem um trabalho denso sobre o tema e mostra como a polêmica ME trata-se na verdade da mesma polêmica da palavra arte. Entre as suas colocações estão: nenhuma palavra pode sozinha capturar toda sensibilidade; na ME não há um compromisso com a notação clássica, nem garantia de reprodução perene dos concertos criados já que os suportes não duram mais de vinte anos comprovadamente; além disso, ele não acredita que se possa situar o nascimento da ME “com a invenção da música eletrônica, da música concreta, ou de qualquer produto industrial eletroacústico, mas com as primeiras experiências de uma nova sensibilidade: a que existe nos espaços além e aquém da nota.”

Isto posto, passamos aos próximos convidados da noite: Edson Zampronha e Silvio Ferraz. O primeiro é compositor brasileiro. Trabalha com música contemporânea e desenvolve pesquisas sobre o gênero, semiótica e tecnologia musical. Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com a tese Notação, Representação e Composição – um novo paradigma da escritura musical. Fez Pós-Doutorado na Universidade de Helsinque, na Finlândia, com a pesquisa Fragmentação e Materialidade – um estudo sobre a geração de sons a partir da teoria dos sistemas dinâmicos. É professor da UNESP e foi professor convidado em várias universidades européias.

O segundo, Silvio Ferraz, é livre docente, professor da UNICAMP, doutor em semiótica e pós-doutor na PUC-SP em composição. Entre suas publicações o livro “Música e Repetição: aspectos da questão da diferença na música contemporânea” (SP: Educ/ Fapesp, 1997) e “Livro das Sonoridades” (Rio: 7 letras, 2004).

Os três veteranos (Cristina é prata da casa e compõe a bem menos tempo) apresentam palestras, sendo Zampronha hoje, e os outros dois amanhã. Às 14h, Rodolfo Caesar faz a palestra "O mundo em loop " e às 16h Silvio Ferraz apresenta "Alguns aspectos da idéia de ciclos na escritura de Dona Letícia (Ritornelo II)". Lembrando que estas palestras são amanhã no Centro Cultural da UFMT e que a programação de hoje encontra-se no quadro ao lado.

Caso a curiosidade o tome de assalto e não consiga esperar até a noite, você pode buscar no banco de dados da UFRJ um grande acervo de ME: http://sussurro.musica.ufrj.br.

Programação:

Hoje, 28/10/08

14:00H - Palestra: "Reflexões Violonísticas - Técnica, Estética e História" - Gilson Antunes

16:00H - Palestra: A forma revela seu segredo Edson Zampronha

20:00H - Concerto: MÚSICA ELETROACÚSTICA

Domingo (Rodolfo Caesar - música e fotos / Liliza Mendes - roteiro)

O que nos olha (Daniel Quaranta)