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Sêmen de boi é com ele

Publicado em 30 julho 2007

Por Alexa Salomão

Paulo Marques usa a genética para criar os melhores reprodutores do mundo. Um embrião já foi vendido por quase R$ 100 mil. E um único touro rendeu US$ 1,5 milhão

O empresário Marques numa de suas fazendas, no interior de Minas Gerais. Ele investiu US$ 4 milhões na seleção de animais 

O empresário Paulo de Castro Marques, diretor e um dos principais acionistas de indústrias farmacêuticas como União Química e Biolab, costuma aparecer no trabalho com botas de vaqueiro. Também decora salas de suas empresas com troféus conquistados por touros que importa de vários países. Os detalhes decorativos são a face pitoresca dos investimentos de Marques na pecuária. Embora ligado ao ramo farmacêutico por laços familiares, ele vem atuando de forma inovadora na criação do gado. Marques representa uma nova geração do agronegócio brasileiro, que faz questão de usar tecnologia na produção. Há sete anos, fundou a Casa Branca Agropastorial, empresa especializada no desenvolvimento genético de gado de raças vindas de outros países — como o angus, comum nos Estados Unidos, e o simental, natural da Europa. Ele tem um dos maiores rebanhos do gênero no país, com cerca de 1.500 cabeças. Nos últimos meses, seus animais acumularam tantos prêmios em competições tradicionais no setor que sua jovem empresa se consolidou como uma das mais conceituadas do país na seleção genética e na reprodução de animais.

A Casa Branca, segundo Marques, tem mais de 700 clientes e 1.500 cabeças para seleção genética — um dos maiores repositórios de raças estrangeiras do país. No ano passado, ele faturou quase R$ 4 milhões, 50% a mais que em 2005. Um único embrião da raça brahman foi arrematado por R$ 95 mil no início de 2007. A venda de sêmen do touro Pioneer, um sul-africano da raça simental, vencedor de vários prêmios, já lhe rendeu US$ 1,5 milhão. Uma única dose de seu sêmen — equivalente a uma colher de chá — custa R$ 280.

É consenso que o boi do século XXI será concebido em laboratório, pelo cruzamento dos melhores genes. No Brasil, a pesquisa na área está entre as melhores do mundo. Os genes do gado são alvo de estudos em importantes centros de pesquisas do país, como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A maioria concentra-se na raça nelore, que corresponde a 80% dos 200 milhões de cabeças de gado do país. A maior parte dessas pesquisas ainda não é usada no mundo dos negócios. Cerca de 95% do rebanho depende da natureza para se perpetuar. "O país avançou muito na pesquisa científica do genoma bovino", diz Luiz Coutinho, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), autor de vários estudos sobre o tema. "Mas não consegue transformar esse conhecimento em tecnologia que tenha aplicação prática."

Um dos poucos trabalhos desenvolvidos em parceria com empresas foi o estudo do genoma do boi, realizado pela Fapesp junto com a Central Bela Vista Genética Bovina, um dos maiores produtores privados de sêmen e embriões bovinos do país. Orçado em US$ 1 milhão, o trabalho gerou informações para criar produtos e serviços voltados à pecuária e para aumentar a eficiência na reprodução dos animais. A tendência é que o aproveitamento dos conhecimentos em genética bovina seja maior nos próximos anos. "Como as exportações brasileiras de carne crescem em ritmo acelerado, os negócios ligados à genética tendem a se multiplicar", diz o consultor Fabiano Rosa, da Scot, consultoria especializada em pecuária.

Uma única dose de sêmen, equivalente a uma colher de chá, pode ser vendida por quase R$ 300 

Uma das áreas mais promissoras é justamente a que Marques escolheu: a venda de material genético de raças estrangeiras para cruzamento com o nelore brasileiro. O nelore é uma raça resistente às condições locais e tem uma carne considerada saudável, com pouca gordura. Em relação a outras raças européias, demora mais tempo para chegar à idade de abate, não é tão encorpado. O sabor e a consistência de sua carne ainda enfrentam alguma resistência do consumidor estrangeiro. A produtividade do nelore melhora muito quando associado a outras raças. "Os genes de raças do exterior são importantes para aprimorar o gado brasileiro voltado à atividade comercial, porque com eles é possível melhorar a qualidade da carne em apenas uma geração", diz Coutinho.

Para se estabelecer num mercado tão sofisticado em tão pouco tempo, Marques apostou numa rigorosa seleção do rebanho. Percorreu vários países para reunir animais — e genes — de primeira linha. No Canadá, buscou representantes da raça angus, cuja carne é a mais apreciada do mercado. Visitou 14 fazendas para reunir seu plantel. Na África do Sul, conseguiu exemplares da raça simental. Robusta e encorpada, essa raça, natural da Europa, foi adaptada ao calor pelos sul-africanos. "Não busquei apenas os melhores animais", diz Marques. "Procurei os mais capazes de se adaptar ao clima e às pragas comuns no Brasil."

Seu patrimônio mais invejado são os embriões brahmans, vindos do rebanho da família Hudgins, dos Estados Unidos — aqueles que já foram vendidos por quase R$ 100 mil. Os Hudgins criaram os brahmans nos anos 20, pelo cruzamento de outras raças. Hoje, a família vende os espécimes mais cobiçados, mas reserva os melhores para seu uso exclusivo. Marques se aproximou dos americanos e obteve o que nenhum outro pecuarista havia conseguido antes: acesso irrestrito ao banco genético dos Hudgins. Pelo privilégio, pagou US$ 1 milhão, ou 25% dos US$ 4 milhões que já investiu em genética até hoje.