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Publicado em 22 novembro 2006

Por Thiago Romero, Agência FAPESP

Um dos primatas mais ameaçados de extinção em todo o país desempenha um papel fundamental para a regeneração de seu hábitat, a Mata Atlântica. Trata-se do mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia), importante dispersor de sementes — que costuma colocar em lugares adequados à germinação.
Estudo feito pela bióloga Marina Janzantti, apresentado como dissertação de mestrado no Instituto de Biociências (IB) da Universidade de São Paulo, verificou que o animal consome cerca de 88 espécies diferentes de frutas. Ela acompanhou um grupo de animais desde o momento em que acordavam, marcou árvores visitadas, fez coleta de frutos e de fezes, além de medir a distância que separava a árvore do local em que o animal defecava. Dados da literatura científica sobre o assunto também foram consultados.
Segundo o estudo, o mico engole boa parte das sementes, que saem intactas nas fezes e em condições de germinar. Outra parte é cuspida pelo animal, que leva cerca de uma hora e meia para defecar após uma refeição, intervalo que permite que se alimente e defeque várias vezes ao dia.
"Se o compararmos a outros animais que também se alimentam de frutas, a maior diferença é que o mico-leão-dourado carrega, várias vezes ao dia, uma grande quantidade de sementes para locais variados e bem distantes da árvore-mãe. Por ter um padrão contínuo de alimentação e defecação, ele acaba levando as sementes do interior da floresta para as áreas de borda, ajudando no reflorestamento de regiões degradadas", disse Marina à Agência FAPESP.
Os estudos de campo mostraram ainda que o mico tem o hábito de defecar, em média, em um raio de 105 metros do local onde se alimentou, podendo alcançar um quilômetro. Apenas 6% das sementes foram depositadas em um raio de até dez metros do local de origem, onde as sementes correm mais riscos de não germinar. Cerca de 82% ficaram entre 10 e 200 metros, distância considerada ideal para a germinação por haver menor competição de outras árvores por espaço ou luz, diminuindo as chances de predação.
"O desmatamento é o principal problema associado à extinção do mico-leão-dourado. A espécie está em risco de extinção justamente pela destruição crescente da Mata Atlântica no Rio de Janeiro. Atualmente, alguns indivíduos conseguem se manter graças a esse processo de regeneração natural de parte de seu hábitat", disse Marina, chamando a atenção para outro grave problema: a caça predatória que ocorre não apenas com o mico, mas com inúmeros outros animais.

Distribuição original
O mico-leão-dourado habitava originalmente toda a área de baixada litorânea do Estado do Rio de Janeiro, até o sul do Espírito Santo. Atualmente, só é encontrado em sete municípios fluminenses: Silva Jardim, Rio das Ostras, Casemiro de Abreu, Rio Bonito, Cabo Frio, Búzios e Saquarema.
De acordo com a Associação Mico-Leão-Dourado, entidade em que Marina Janzantti trabalha desde 1995, a estimativa é que existem aproximadamente 1,4 mil indivíduos na natureza. "Para que a população não precise mais de constante manejo do homem e passe a ser auto-sustentável, precisaríamos ter pelo menos 2 mil indivíduos até 2025. O principal problema é a falta de mata para abrigar esse número de indivíduos", explica.
O trabalho de Marina, que atualmente desenvolve doutorado sobre o assunto, está servindo de base para a escolha das espécies frutíferas mais adequadas ao animal para o plantio de mudas em corredores florestais que ligam áreas isoladas da mata, trabalho que vem sendo desenvolvido pela Associação Mico-Leão-Dourado. O objetivo é contribuir para a ligação de faunas e floras para ajudar na variabilidade genética da população de micos.
A entidade integra o Programa de Conservação do Mico-Leão-Dourado, uma cooperação entre a Instituição Smithsoniana e o Zoológico Nacional de Washington, nos Estados Unidos, o Centro de Primatologia do Rio de Janeiro, administrado pela Fundação Estadual de Engenharia e Meio Ambiente, e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Mais informações: marina@micoleao.org.br ou www.micoleao.org.br.