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Agrolink

Relâmpago nos pampas

Publicado em 17 julho 2009

Por Marcos Pivetta

PESQUISA FAPESP – Compostas de gotículas de água e partículas de gelo de várias dimensões, as nuvens de tempestade do tipo cúmulo-nimbo, que originam a maioria dos relâmpagos, e podem ser comparadas a uma pilha. Em razão da ação de correntes ascendentes e descendentes de ar e também da gravidade, essas partículas se chocam, tornam-se carregadas eletricamente e se separam em dois pólos: no topo, ficam as partículas menores (cristais), de carga positiva, e na base se encontram as maiores (granizo), carregadas negativamente. Esse sistema se encontra em equilíbrio, pois vale lembrar que cargas elétricas de polaridade distinta se atraem. As nuvens de tempestade originam raios quando algum desequilíbrio nesse sistema faz com que o campo elétrico produzido por todas essas cargas ultrapasse a capacidade isolante do ar num dado ponto dentro da nuvem. Nesse momento surge um raio. Cerca de 70% dos raios permanecem dentro da nuvem ou na própria atmosfera e apenas 30% rumam para o solo. Se o relâmpago que desce para a Terra é dotado de corrente negativa, esse raio vai procurar o melhor caminho na atmosfera que o conduza a um ponto do solo carregado de corrente positiva –e vice-versa. Como se sabe, os pólos opostos se atraem.

Sem ramificações - Dada essa breve explicação sobre a distribuição das cargas elétricas nas nuvens do tipo cúmulo-nimbo, fica relativamente fácil de entender por que a ocorrência de raios positivos que tocam o solo se mostra, em qualquer parte do globo, bem menos freqüente do que a dos negativos. 

Como o setor inferior das nuvens está mais próximo da superfície da Terra, as descargas com corrente negativa são mais fáceis de observar e tornam-se quase corriqueiras em dias de forte chuva. Já boa parte dos raios originados no topo das nuvens, onde estão as cargas positivas, permanece dentro dessas próprias formações, entre 5 e 20 quilômetros acima do nível do solo. Algumas dessas descargas originadas no andar superior das tempestades, no entanto, escapam da formação chuvosa e atingem o chão. Em sua descida, os raios positivos costumam queimar o ar como se fossem um único fio de luz e eletricidade, quase sempre sem as ramificações comumente observadas em torno das descargas negativas. Podem percorrer trajetos relativamente longos na atmosfera e cair a mais de dez quilômetros de distância da nuvem que o gerou.

Não há nenhuma evidência científica de que a maior incidência de raios positivos no Sul do país seja um fenômeno atmosférico recente ou esteja ligado às tão decantadas mudanças climáticas aparentemente em curso na Terra. “Não temos uma série histórica da ocorrência dessas descargas no Rio Grande do Sul, mas acho que não se trata de algo realmente novo”, comenta Pinto Junior, cujos estudos foram, em parte, financiados por um projeto temático da FAPESP. Provavelmente, a região exibe a peculiaridade há décadas, talvez séculos, e simplesmente ninguém a percebeu. Não é de estranhar que isso tenha ocorrido. Até o final de 2006, não havia meios confiáveis de medir esse tipo de ocorrência na porção meridional do país. Desde então, a abrangência da BrasilDat, que se limitava aos estados do Sudeste, passou a incluir todos os estados do Sul. Só então as primeiras informações mais detalhadas sobre os raios dessa parte do Brasil começaram a ser geradas.

Os pesquisadores suspeitam que a maior ocorrência de descargas positivas na região de Uruguaiana e Santa Rosa possa estar ligada a uma característica climática local: ali ocorre com freqüência o choque de massas de ar frias e secas, vindas da Argentina, e massas de ar quentes e úmidas originadas na Amazônia. O produto dessas colisões, que também acontecem na Argentina, Paraguai e Uruguai, são fortes tempestades, que, em tese, podem originar a porcentagem anormal de descargas positivas. Há alguns indícios de que nos últimos dez anos as tempestades no Sul estão se tornando mais intensas, com grande quantidade de chuva e raios concentrados em poucas horas, mas ainda é cedo para relacionar uma coisa à outra. Agora, em plena primavera, munida de sensores de campo elétrico e câmeras de vídeo que produzem 8 mil quadros por segundo, uma equipe do Elat faz uma campanha em Santa Maria, município no centro do Rio Grande do Sul, para observar in loco mais raios positivos. “Desde 2003 filmamos cerca de 1.500 raios no país”, afirma Saba. “Mas apenas 50 eram positivos.”

O PROJETO: Programa nacional de monitoramento de raios (Pronar)

Modalidade: Projeto Temático

Coordenador: Osmar Pinto Junior - Inpe

Investimento: R$ 673.089,30

ABAG - Associação Brasileira De Aviação Geral