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Pesquisa e clínica

Publicado em 01 maio 2010

Agência FAPESP - O norte-americano Radhu Kalluri, do Centro Médico Beth Israel Deaconess, hospital universitário da Faculdade de Medicina de Harvard, em Boston, comanda um laboratório cujas descobertas têm ajudado a entender, entre outros pontos, como o organismo controla a angiogênese - mecanismo de crescimento de novos vasos sanguíneos a partir dos já existentes - com o objetivo de conceber estratégias para impedir o crescimento de tumores, cortando sua alimentação.

Depois de uma década, a pesquisa básica realizada no laboratório de Kalluri começa a gerar as primeiras aplicações clínicas. O cientista apresentou detalhes sobre seus mais recentes trabalhos na última quarta-feira (29/4), a cerca de 120 estudantes e pesquisadores brasileiros e estrangeiros, durante a 1st São Paulo School of Translational Science (1ª Escola São Paulo de Ciência Translacional).

O curso, primeiro organizado no âmbito da Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA), nova modalidade de fomento da FAPESP, é realizado pelo Hospital A.C. Camargo e se encerrará nesta sexta-feira (30/4).

A medicina translacional - um ramo da pesquisa médica que procura conectar diretamente a investigação científica ao tratamento dos pacientes - realizada por Kalluri e sua equipe ganhará um novo fôlego a partir de outubro, quando o cientista passará a dirigir outro centro de pesquisas sobre o câncer, só que não nos Estados Unidos, mas em Portugal.

Unindo no mesmo edifício um ambulatório, um hospital e laboratórios - onde a pesquisa científica será conduzida por uma equipe internacional em conexão com o atendimento aos pacientes -, o novo centro em Lisboa será financiado pela Fundação Champalimaud, instituição portuguesa de apoio à pesquisa biomédica criada por testamento do empresário António de Sommer Champalimaud em 2004, que doou 500 milhões de euros para a iniciativa.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida por Kalluri à Agência FAPESP.

Agência FAPESP - Quando será inaugurado o novo centro de pesquisas sobre o câncer em Lisboa e como ele será estruturado?

Radhu Kalluri - O edifício principal será inaugurado no dia 5 de outubro. A maior parte da estrutura estará voltada para o programa de pesquisa sobre o câncer. Teremos ainda uma pequena parte dedicada ao programa de neurociências e um hospital para internação de pacientes, em conexão com uma clínica para atendimento ambulatorial. Tudo isso será conectado a uma área de pesquisa sobre metástase.

Agência FAPESP - Qual o objetivo de reunir toda essa estrutura em um único prédio?

Kalluri - Nosso objetivo é que o novo centro se torne referência mundial tanto no cenário de pesquisa sobre o câncer como em relação à clínica. Para isso, reuniremos ali alguns dos médicos e pesquisadores do mais alto nível internacional. Os médicos que trabalharão no centro dedicarão metade da carga horária à pesquisa e metade ao atendimento de pacientes.

Agência FAPESP - Por que é tão importante unir atendimento clínico e pesquisa?

Kalluri - A medicina translacional - que procura aproximar a investigação científica do tratamento dos pacientes - tem sido muito comentada em todo o mundo, porque representa uma oportunidade para levar à clínica avanços feitos na pesquisa básica. Mas isso ainda permanece apenas como uma tendência que todos gostariam de seguir. Nosso centro trabalhará para transformar esse princípio em regra.

Agência FAPESP - Que tipo de pesquisa será feita no novo centro?

Kalluri - Todo tipo de pesquisa relacionada com diagnóstico e tratamento do câncer, com foco especial na investigação sobre mecanismos moleculares e a genética da metástase. Inicialmente, privilegiaremos os estudos sobre câncer de mama, urológico, reprodutivo, do pulmão e da pele. Mais tarde vamos abrir para outras linhas de pesquisa. Também abriremos espaço para a realização de testes clínicos para testar novas drogas.

Agência FAPESP - Os cientistas terão acesso direto aos pacientes?

Kalluri - Sim, acreditamos que é fundamental para os cientistas que os pacientes estejam presentes no espaço físico do centro de pesquisa. Novos pacientes chegarão a cada dia trazendo inspiração para o trabalho de investigação. E achamos que, para os pacientes, será muito importante ter contato direto com os pesquisadores. Eles poderão ver a pesquisa sendo feita.

Agência FAPESP - Então os pacientes também terão acesso aos laboratórios?

Kalluri - Exatamente. Sabemos que o paciente com câncer fica mais feliz quando percebe que o médico que o está tratando também está fazendo pesquisa para encontrar a cura para a sua doença. Por isso o design da clínica é feito de uma forma muito especial: os pacientes poderão ver a pesquisa acontecendo. Os laboratórios serão literalmente transparentes e os experimentos poderão ser observados de fora. Quem andar pelo hospital poderá ver o programa de pesquisa em curso. É uma maneira de fazer com que o paciente conheça o trabalho dos cientistas e perceba que ali há um esforço concentrado e contínuo para encontrar a cura para os tumores e para desenvolver novos tratamentos e diagnósticos.

Agência FAPESP - E quanto aos recursos humanos? Será formada uma equipe com cientistas provenientes de outros centros?

Kalluri - O programa de pesquisa sobre câncer tem duas vertentes. Uma é a extensão universitária: a Fundação Champalimaud financiará a formação do nosso pessoal em outros lugares do mundo. Daremos bolsas para pós-doutorandos para que passem temporadas em outros países e, depois, retornem a Portugal. Também financiaremos alguns laboratórios no exterior para fazer pesquisa sobre metástase. Acreditamos que o financiamento ajudará esses outros centros a criar uma associação com a fundação e isso nos dará uma boa ideia de que tipo de ciência está sendo feita pelo mundo.

Agência FAPESP - E a outra vertente?

Kalluri - A segunda parte é o Programa Intramuros, que será desenvolvido no centro. Pretendemos ter entre 15 e 20 pesquisadores trabalhando com foco em metástase. Esse pessoal será contratado para atuar em conjunto com os médicos. Alguns dos médicos serão também pesquisadores e outros serão cientistas em tempo integral, trabalhando em conjunto com os médicos no laboratório. Já contratamos oncologistas e radiologistas por meio de anúncios no New England Journal of Medicine e na Lancet.

Agência FAPESP - Em 2000, o seu grupo identificou a proteína tumstatina como um inibidor natural da angiogênese. Como estão esses estudos atualmente? Eles terão continuidade no novo centro em Portugal, além de no laboratório em Harvard?

Kalluri - Essas pesquisas estão em estágio avançado e levaram à concepção de novas drogas voltadas para controlar o crescimento dos vasos sanguíneos dos tumores. Estamos procurando as pessoas certas para nos ajudar a fazer os testes clínicos. Certamente, o novo centro será fundamental para avançar esses estudos.

Agência FAPESP - A tumstatina é uma proteína presente naturalmente nos tecidos. O conceito é aprender as estratégias que o próprio organismo usa para controlar a angiogênese e tentar imitá-las?

Kalluri - Exato. Nossos estudos têm mostrado que a maior parte dos tumores não desenvolve um suprimento de sangue capaz de fazer com que eles cresçam. Isso ocorre porque as pessoas produzem esses inibidores naturais da angiogênese. Em estudos feitos a partir de autópsias em pessoas que morreram por razões não ligadas ao câncer, descobrimos que quase 40% das mulheres entre 40 e 50 anos têm pequenos carcinomas in situ no seio, enquanto que apenas 1% desenvolve de fato o câncer. E 46% dos homens de 60 a 70 anos têm pequenos tumores de próstata, mas menos de 1% tem câncer diagnosticado clinicamente. É importante conhecer e tentar controlar os mecanismos que impedem naturalmente que o tumor cresça. Sabemos que a taxa de progressão do câncer é controlada pelo microambiente do tumor e é isso que precisamos estudar mais.

Agência FAPESP - O que é o microambiente do tumor?

Kalluri - Se tomarmos um tumor e retirarmos as células de câncer, todo o resto é o microambiente. Portanto, é o ambiente onde se proliferam as células cancerosas. Ocorre que apenas 10% de um tumor corresponde às células cancerosas. Os outros 90% são formados pelo microambiente. Mas, hoje, os estudos se concentram muito mais sobre as células cancerosas, que crescem com facilidade. É difícil isolar o microambiente. Entretanto, cada vez mais trabalhos estão mostrando que, sem o microambiente, o câncer não cresce. Por isso, é preciso investir nesse tipo de pesquisa.

Agência FAPESP - É possível pensar em estratégias que manipulem o microambiente para combater o crescimento do tumor?

Kalluri- Sim. Os vasos sanguíneos têm células à sua volta que são células de suporte. Se as extrairmos, os vasos entram em colapso. Essa tem sido uma das estratégias usadas para tentar manipular os vasos sanguíneos, as matrizes extracelulares - isto é, tudo o que não é célula no microambiente e no tumor - e outros componentes do microambiente. Em vez de atacar as células cancerosas, tentamos fazer com que elas não possam crescer por não contarem com um microambiente favorável. Se quisermos expulsar uma pessoa de uma sala sem entrar no local e sem interagir diretamente com ela, podemos fazer isso manipulando o ambiente: basta aumentar a temperatura da sala para 40 graus.

(Envolverde/Agência Fapesp)