Notícia

Biólogo

Paulo Vanzolini

Publicado em 09 agosto 2021

Por Josué Fontana

Paulo Vanzolini é hoje mais lembrado pelo seu trabalho como compositor, mas poucos sabem do seu relevante trabalho como biólogo no campo da zoologia. Conheça aqui um pouco de sua vida e obra.

Paulo Vanzolini e a teoria dos refúgios

Nascido em São Paulo em 25 de abril de 1924, Paulo Emílio Vanzolini era filho de pais italianos. Chegou ao Rio de Janeiro aos quatro anos, mas dois anos depois, em 1930, a família se mudou para São Paulo.

Paulo Vanzolini (1924-2013)

Aos dez anos Paulo passou por uma experiência que iria transformar sua vida — uma visita ao Instituto Butantã . Ali nasceu a vontade de ser biólogo e estudar répteis.

Anos mais tarde, pretendia fazer uma graduação em Zoologia , mas orientado pelo professor André Dreyfuss, fundador do Instituto de Biologia da USP, foi convencido a cursar Medicina. Então em 1942 ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Nessa época passou a frequentar as rodas boêmias e a compor seus primeiros sambas.

Os sapos da caatinga

Após deixar a casa dos pais, começou a trabalhar em 1944 na Rádio América no programa de Cacilda Becker, mas seus planos foram interrompidos pouco depois, ao ser convocado para o exército. Dois anos depois retomava os estudos de Medicina e começou a dar aulas, além de também trabalhar no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo.

Em 1947 se formou e no ano seguinte se casou com Ilse, com quem teria cinco filhos. Em 1949 foi para os Estados Unidos e fez doutorado em Zoologia pela Universidade Harvard.

Paulo Vanzolini no laboratório

Ciência e música

Embora considerasse sua atuação na música somente como um hobby, suas composições eram muito apreciadas. “Ronda”, música composta por Vanzolini aos 21 anos de idade, era entoada como um autêntico hino da cidade de São Paulo, e por anos foi a mais tocada e pedida em bares e boates da cidade.

Em 1963 foi nomeado diretor do Museu de Zoologia, cargo que exerceu durante trinta anos. Mesmo depois da aposentadoria em 1993, continuou trabalhando na instituição.

De modo quase simultâneo, em 1970, Vanzolini chegava as mesmas conclusões que Jürgen Haffer em seu artigo publicado na revista Science, cuja proposta ficou conhecida como “A teoria dos refúgios” (ver abaixo).

Em 2008 foi premiado pela Fundação Guggenheim de Nova Iorque por suas contribuições para o progresso da ciência. No ano de 2010 foi promovido a Grande Oficial da Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria concedida pelo estado de São Paulo.

Paulo Vanzolini morreu vítima de uma pneumonia aos 89 anos no dia 28 de abril de 2013, em São Paulo. Recebeu o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) pelo conjunto da obra.

“Não tenho carreira de compositor. Música, para mim, é um hobby. Trabalho 15 horas por dia como zoólogo, adoro minha profissão. Não sei cantar, nem sei a diferença entre o tom maior e o menor”, disse, em 1997, em entrevista à Folha .

Teoria dos refúgios

Bothrops bilineata serpente encontrada na Amazônia e nas matas do Leste do Brasil.

A teoria dos refúgios, também conhecida como teoria dos redutos, é uma das explicações da ciência para os padrões de biodiversidade e endemismo nas florestas Amazônica e Atlântica do Brasil. Foi concebida pelo ornitologista e geólogo alemão Jürgen Haffer.

Se baseia nas glaciações no Pleistoceno que causaram períodos de seca e levaram ao isolamento geográfico das espécies florestais e o consequente aumento dos endemismos . Durante esse período, as florestas originais teriam se fragmentado, abrindo espaço para plantas de clima semi-árido. Com a volta do clima original, as florestas retomaram o local de origem, mas agora abrigavam espécies diferentes, pelo tempo em que viveram isoladas.

Já era claro que o processo de especiação podia ser iniciado por eventos de vicariância, mecanismo evolutivo no qual a distribuição de uma espécie ancestral é fragmentada em duas ou mais áreas, devido ao surgimento de uma barreira natural.

Anolis chrysolepis, espécie na qual Vanzolini se baseou para entender a especiação na Amazônia

Mas na floresta amazônica não parecia haver eventos que justificassem a diversidade de espécies. Questionando se a continuidade genética poderia ser quebrada sem essa barreira fisiográfica, Vanzolini propôs uma mudança no padrão geográfico que poderia explicar a distribuição vicariante em ambientes contíguos.

Baseado em seus estudos com répteis, Vanzolini propôs que o clima amazônico pode variar entre semiárido e úmido. As populações que ficaram dentro do refúgio e a que se diferenciou para viver fora da floresta passam então a ser vicariantes ecológicas.

Fontes e referências:

O fôlego de uma teoria (Revista Pesquisa FAPESP) – Um lagarto da Amazônia estudado por Vanzolini reforçou a proposta de geólogo alemão sobre refúgios florestais.