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Patrimônio ameaçado

Publicado em 05 março 2015

Por Claudia Izique, da Agência FAPESP

Agência Fapesp – A produção cafeeira fez do Vale Histórico Paulista – incrustado na Serra da Bocaina, no Vale do Paraíba – uma das regiões mais ricas do país em meados do século 19. O período de opulência terminou quando o café se deslocou para o oeste de São Paulo, deixando para trás uma região economicamente decadente – que Monteiro Lobato descreveu no conto Cidades Mortas, publicado em 1919 em livro homônimo – e um importante conjunto arquitetônico de estilo colonial e neoclássico.

Distantes do traçado da Via Dutra, inaugurada em 1951, essas cidades permaneceram à margem da nova dinâmica industrial do país, perderam população – algumas têm menos de 10 mil habitantes – e parte da identidade com o passado.

No final do século 20, muitos municípios buscaram saída no turismo e na utilização do patrimônio cultural para a geração de renda, redefinindo a ocupação de imóveis urbanos coloniais e de antigas fazendas de café.

“Apenas em Bananal alguns prédios são tombados. Contudo, nesse e nos demais municípios, a renovação do espaço desvaloriza elementos e conteúdos históricos”, afirma Silvia Helena Zanirato, professora do curso de Gestão Ambiental da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo (USP).

A falta de conhecimento e de orientação técnica compromete a conservação dos imóveis, e o risco a que está exposto esse patrimônio vai se agravar ante outro problema: o Vale Histórico Paulista é considerado região de grande vulnerabilidade às mudanças climáticas por abrigar lugares com médias altas de precipitação e de umidade relativa do ar, além de registrar alta intensidade de raios, acrescenta Zanirato.

A avaliação desse conjunto de riscos foi tema do projeto “Patrimônio Cultural do Vale Histórico Paulista: análise da vulnerabilidade às mudanças climáticas”, apoiado pela FAPESP no âmbito de acordo de cooperação com o Conselho Estadual do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), e coordenado por Zanirato.

Além do inventário do patrimônio arquitetônico de seis municípios – Silveiras, Areias, São José do Barreiro, Arapeí, Queluz e Bananal –, a equipe de pesquisadores analisou as condições dos imóveis no cenário climático atual, projetando riscos em um cenário futuro, de 2070 a 2100. “Utilizamos dados coletados em estações meteorológicas para descrever a situação atual e, para o clima futuro, simulações numéricas de modelo regional (RecCM3) e global (HadCM3 e ECHAM5)”, ela detalha.

As simulações indicaram que a região deverá conviver, no futuro, com um aumento médio de 3 ºC na temperatura e aumento das precipitações mensais e na velocidade dos ventos, sobretudo entre maio e agosto, antecedida de redução da umidade relativa no inverno. O impacto dessa alteração nos ambientes internos variará em função do local onde estão assentadas as edificações, de sua divisão interna e da circulação do ar.

O passo seguinte do estudo foi inventariar o patrimônio remanescente dos séculos 18 a 20, tanto no meio urbano como rural, tendo como base modelo do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para definir ações de conservação. Os resultados desse levantamento estão armazenados no site www.valehistoricopaulista.com.br.

Entre 2012 e 2014, foram analisados 195 imóveis que já apresentam riscos. A maioria das edificações do período cafeeiro, que tem embasamento em pedras seca, estruturas em argila e madeira e empregam pau a pique, taipa de pilão ou adobe, apresenta umidade interna e externa, fissuras e rachaduras nas paredes, entre outros.

Boa parte delas está em áreas sujeitas a escorregamento de solo e solapamento ou próxima a rios e córregos.

Muitas apresentavam infestação de cupim no madeiramento, em especial no piso, teto e aberturas, além de problemas como escorregamento de telhas, gotejamento, umidade, rachaduras na parede, entre outros. “Isso sem falar nas edificações que sofreram reparação com materiais contemporâneos, incompatíveis com suas estruturas originais”, sublinha Zanirato.

O inventario incluiu a análise, sequenciamento e identificação molecular de amostragem de agentes biológicos e sua relação com o material das edificações, ou seja, sua capacidade de consumir materiais que contêm celulose. “Os resultados confirmaram que o ar no interior das edificações é um agente de contaminação e dispersão de microrganismos que causam danos à estrutura física de móveis e imóveis e levam à degradação”, ela afirma.

“Como os responsáveis pelas edificações não têm conhecimento técnicos sobre conservação das edificações, lançam mão de artifícios inadequados como, por exemplo, o de tentar eliminar cupins com querosene”, acrescenta.

As estruturas contínuas – de taipa e adobe – facilitam a colonização por microrganismos, já que favorecem o transporte de água. “Estruturas de pau a pique, por seu lado, auxiliam a infestação por insetos xilófagos”, acrescenta.

Educação patrimonial

O aumento de temperatura e das precipitações tendem a agravar esse quadro. “As condições de conservação da edificação, boa manutenção, respeito aos materiais originais e isenção de intervenções inapropriadas, são atitudes mínimas para a prevenção do problema da degradação”, afirma Zanirato.

“Um passo importante é qualificar o poder público local para que ele oriente o cidadão na manutenção do patrimônio”, ela recomenda. Igualmente importante, acrescenta, é estimular a educação patrimonial e promover na população o sentido de “pertencimento” para que ela se identifique com sua história e atue em prol da conservação de seu legado. E ressalva: “É preciso reconhecer também os usos sociais do patrimônio. Além de moradia, na região, o patrimônio é também uma fonte de geração de renda para os proprietários.”

O projeto, encerrado em 2014, traz uma série de recomendações para o curto, médio e longo prazos “É urgente a implantação na região de uma representação do Condephaat e a criação de organizações participativas em nível local”, exemplifica Zanirato.

Em médio prazo, sugere-se a implementação de sistema de incentivos e subsídios para a recuperação e manutenção do patrimônio edificado e, no futuro, a promoção de ações compartilhadas com outras instituições – em especial, do meio ambiente –, que tratem o patrimônio em uma perspectiva ampla, que considerem também a sua condição de local de moradia e gerador de renda.

* Publicado originalmente no site Agência Fapesp.