Notícia

O Povo

O sertão em prosa e canto

Publicado em 25 maio 2006

Por Ana Mary C. Cavalcante, da Redação
Parabéns para Grande Sertão: Veredas. O romance magistral do mineiro Guimarães Rosa (1908-1967) completa 50 anos de publicação e ganha uma programação especial no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Em redor do livro: música e filmes

"Tudo, nesta vida, é muito cantável"
(Riobaldo, personagem central de Grande Sertão: Veredas)

Se "o sertão está em toda parte", como compreende Guimarães Rosa no romance Grande Sertão: Veredas, a música se espalha igualmente em sua literatura. "Qualquer leitor que se aventure a desbravar a linguagem roseana vai perceber o quanto tudo fica mais fácil se o texto for lido em voz alta", conduz Gabriela Frota Reinaldo, doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), nesta entrevista por e-mail. Autora do livro-tese Uma Cantiga de se Fechar os Olhos: Mito e Música em Guimarães Rosa (Annablume, 2005, 214 páginas. R$ 38,00), Gabriela Reinaldo puxa as palmas para a obra magistral de Rosa: convidada do projeto Quarta Literária (Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura), ela conversa sobre o toque musical do escritor, hoje à noite.
Grande Sertão: Veredas - caminho de memórias do personagem-narrador (Riobaldo) - estende o homem (sertanejo do mundo) por mais de 700 páginas. A narrativa foge do lugar comum ao reinventar a linguagem. Também por isso o romance, publicado em maio de 1956, marcou/marca a literatura brasileira. E alça o seu autor (médico de formação, mas que palmilhou o sertão a cavalo) ao mesmo patamar de Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto - contemporâneos na chamada terceira geração modernista. "O que me atrai na obra de Rosa não são os aspectos lingüísticos ou regionais. Tampouco a matriz religiosa, mítica. É tudo isso, mas há mais que não conseguimos explicar que é o que torna o texto bonito. É essa assombração, é isso que não se consegue enxergar - e o jeito é farejar neblinas - e que está na busca pela poesia. É esse alumbramento que se repete em cada leitura", celebra Gabriela Reinaldo, em par com uma programação cultural que continua no próximo dia 27, no Dragão (leia serviço).

O Povo - A partir de qual leitura a senhora percebeu sons e música na escrita de Guimarães Rosa? Há uma obra específica, ou toda a literatura de Rosa pode ser "degustada" dessa forma?
Gabriela Frota Reinaldo - A musicalidade da obra de Rosa, de sua escrita, é tema discutido pela crítica desde as suas primeiras publicações. A fortuna crítica dele é plena de referências que trabalham com o ritmo cadenciado de contos como "O burrinho Pedrês" (Sagarana), por exemplo. Ao seu tradutor francês Jacques Villard, Rosa, numa carta datada de 25 de março de 1965, diz: "Sagarana é, sem nenhum lugar-comum, um poema musical". As aliterações ou assonâncias, garante ele ao tradutor, servem para suportar, para garantir, uma música subjacente ao sentido manifesto. Mas não precisa ser um estudioso de Rosa para perceber isso. Qualquer leitor que se aventure a desbravar a linguagem roseana vai perceber o quanto tudo fica mais fácil se o texto for lido em voz alta. Há termos quase intransponíveis, mas o som que emana do texto, o ritmo empregado pela voz, parecem garantir uma estranha familiaridade com algo que conhecemos, e aí podemos ensaiar algumas compreensões. E conhecemos mesmo estes termos, de algum modo, já que Rosa se vale muito do português arcaico em suas construções.

OP - E o que, justamente, torna a escrita do autor de Grande Sertão musical?
Gabriela - Parece-me que o que torna o texto de Rosa tão musical é uma vontade de autor de ser fiel aos contadores de história que estão, não apenas em Cordisburgo ou no sertão de Minas, mas por toda parte. Os contadores são como bardos. Usam o artifício da sereia. O que conta não é o que está dito, mas como está sendo dito. Eles valem-se de entonações para seduzir, para cativar. A tradição oral é mnemônica. É ingênuo pensar que o linguajar de Rosa é o linguajar do sertanejo. Não é mesmo. Ele se vale desta matriz para universalizá-la. E a música que subjaz ao texto ajuda nisso.

OP - O seu estudo - que resultou no livro Uma Cantiga de se Fechar os Olhos -, apresenta a síntese, "busca captar a camada mágico-mítica que subjaz à palavra sempre musical desse moderno aedo do grande sertão". Quais foram os percalços e os prazeres no caminho?
Gabriela - Como comentei anteriormente, são inúmeros os estudos sobre o ritmo, sobre a cadência da escritura roseana - já que Guimarães Rosa é, ao lado de Machado de Assis, o escritor brasileiro mais estudado. Mas sobre o sentido da música, sobre as quadrinhas, os versinhos, sobre algumas canções, não encontrei nada. Aqui e ali, alguns pesquisadores detiveram-se nestes assuntos. Mas não de forma verticalizada, mais apurada, e sempre dentro de um estudo maior, não específico. Aquilo me inquietava. E como a gente só estuda o que desconcerta, o que incomoda, acabei intrigada com a canção de Siruiz, que está em Grande Sertão: Veredas. No mestrado, debrucei-me sobre ela. No doutorado, também em Comunicação e Semiótica, na PUC/SP, dei continuidade a estes estudos, mas dessa vez, tentei pensar na obra como um todo. O maior percalço é fruto da minha ambição, do meu olho grande. Pegar toda a obra é empreita desgovernada e pode deixar muitas brechas, principalmente quando se trata de um trabalho acadêmico. Mas o maior prazer vem daí também. Mais do que o resultado, orientado por uma orientadora cuidadosa, a professora Olga de Sá, e que recebeu o selo da FAPESP quando resolvi transformar a tese em livro, foi do caminho que eu mais gostei. Caminho que não chegou ao seu termo. Uma narrativa é geradora de narrativas. A fortuna crítica de um autor alimenta outros olhares sobre a obra. Olhares que se complementam na forma de crítica literária e também como expressão artística. Atualmente, depois de publicado, o que me deixou feliz foi a notícia de uma pesquisadora de São Paulo, doutoranda da Eca (Escola de Comunicação e Artes da USP), que iria fazer uma performance teatral baseada no meu livro.

OP - Grande Sertão: Veredas é o terceiro livro de um autor que começou a escrever aos 38 anos. É também tido como sua obra-prima, tanto que se está às voltas de celebrações pelos seus 50 anos de publicação. O que torna Grande Sertão magistral? A perfeição e a ousadia técnica-lingüística? A agudeza psicológica? Gostaria que a senhora discorresse um pouco sobre isso.
Gabriela - Em Grande Sertão, Riobaldo tenta diversas vezes definir o que é o sertão. "Sertão é dentro da gente", diz ele. Ou ainda sobre a solidão da paisagem: "O sertão é sozinho". Ou "o sertão tem medo de tudo. Sertão "que está em toda parte", que é "do tamanho do mundo". Mas tem um momento em que Riobaldo diz: "Sertão: estes seus vazios". Walter Benjamin, quando discorre sobre o narrador, diz exatamente isso. A narrativa vale pelo que não está dito. É como o trigo que está nas urnas dentro das pirâmides e que ainda guarda seu poder germinativo. São os vazios que Rosa cria e que cabe a cada leitor interpretações momentâneas - é bom que se diga: momentâneas! - sobre o livro.

Serviço
50 anos de Grande Sertão: Veredas - hoje, às 19 horas, no projeto Quarta Literária (Biblioteca de Artes Visuais Leonilson), a professora Gabriela Reinaldo (autora de Uma Cantiga de se Fechar os Olhos: Mito e Música em Guimarães Rosa) conversa sobre a escrita musical de Guimarães Rosa. A comemoração do romance segue no próximo dia 27 (sábado), no Cine Dragão (Auditório, às 16 horas), com a exibição de filmes baseados nas obras de Rosa: Outras Histórias (1999), de Pedro Bial; Diário do Sertão (2003), de Laura Erber e A João Guimarães Rosa (1969), de Roberta Santos. No Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (Rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema). Entrada franca. Informações: 3488.8600.