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Memórias da seca

Publicado em 06 janeiro 2020

Por Christina Queiroz | Revista Pesquisa FAPESP

Articulação entre pesquisadores e movimentos sociais assegura tombamento de campo de concentração no Ceará

Na década de 1930 foram criados sete campos de concentração no Ceará para confinar retirantes da seca. Único com suas ruínas parcialmente preservadas, o Patu, que funcionou entre 1932 e 1933 na cidade de Senador Pompeu, a cerca de 270 quilômetros (km) de Fortaleza, foi recentemente tombado como patrimônio histórico-cultural do município e agora passa por processo semelhante na esfera estadual. Pesquisadores e integrantes da sociedade civil pressionam a prefeitura para criar um plano de salvaguarda para as ruínas do local.

O tombamento municipal foi resultado de um processo iniciado na década de 1990, período em que pesquisas acadêmicas sobre a seca começaram a resgatar a história do campo e movimentos sociais passaram a promover ações voltadas à manutenção de sua memória. Autora de investigações pioneiras sobre o Patu e outros seis campos de concentração criados no estado na década de 1930, a historiadora Kênia Sousa Rios, da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que a origem desses lugares remonta ao final do século XIX, quando algumas famílias de Fortaleza começaram a enriquecer com o cultivo de algodão, motivando um pico de desenvolvimento urbano. Ao mesmo tempo, entre 1877 e 1879, o estado registrou um período de seca intensa, levando 100 mil retirantes a migrar para a capital, que, na ocasião, contava com uma população de cerca de 30 mil habitantes. Famílias de pequenos agricultores, que incluíam idosos, adultos e crianças, constituíam a maioria dos migrantes, também provenientes de outros estados do Nordeste. “A chegada dessas pessoas desestruturou o processo de desenvolvimento urbano e o estado começou a elaborar estratégias para conter o fluxo de flagelados que vinham à capital”, conta Rios.

Ronald de Figueiredo, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), campus de Tauá, explica que a migração se repetiu na grande seca de 1915, de maneira que o governo criou o campo de concentração de Alagadiço, nas proximidades de Fortaleza, que chegou a abrigar cerca de 8 mil pessoas. “O discurso político da época vendia a ideia de que o local pretendia dar assistência aos retirantes, quando na realidade o objetivo principal era afastá-los do centro da cidade”, informa. Em pesquisas realizadas em relatórios oficiais da Interventoria do Ceará, publicados em oito jornais da época, entre eles Gazeta de Notícias, O Povo e Correio do Ceará, arquivados no Acervo da Biblioteca Pública de Documentação do Departamento de História da UFC, Rios constatou que foi em 1915 que o governo do estado utilizou pela primeira vez o termo “campo de concentração”, para se referir ao espaço de contenção de flagelados da seca.

A partir de 1930 o crescimento de Fortaleza se intensificou, lembra a historiadora, demandando obras de modernização e remodelamento urbano. Ao mesmo tempo, o movimento de expansão passou a atrair cada vez mais moradores de outras regiões do estado, em busca de melhores condições de vida. “Havia um desejo de modernidade entre a elite da capital, que começou a pressionar o governo para criar mecanismos de controle da circulação de pessoas pobres, que pediam esmolas e eram vistas como potenciais portadoras de doenças ou saqueadoras de mercados”, relata.

Como o espaço de Alagadiço, de 1915, não foi suficiente para conter a ampla migração à capital, na grande seca seguinte, de 1932, o estado decidiu estabelecer outros sete campos de concentração. “Nesse momento, a pressão da população rica se tornou uma política pública”, conta a historiadora. O projeto foi desenvolvido pelo governo do estado em conjunto com o Ministério de Viação e Obras Públicas do governo de Getúlio Vargas (1882-1954) e previa a criação de espaços para confinamento de flagelados. “Eles eram vigiados o tempo todo e não podiam sair, a não ser para trabalhar em obras públicas ou em engenhos da região. Em troca, recebiam uma refeição diária”, afirma Rios.

Figueiredo, do IFCE, explica que seis campos foram construídos próximos a estações da estrada de ferro de Baturité, utilizada pelos flagelados para chegar até a capital. A linha férrea teve o primeiro trecho aberto em 1872, operando para transporte de passageiros até meados dos anos 1980. Apenas um campo não ficava próximo à linha férrea, sendo que cinco deles funcionavam no interior do estado, enquanto dois, menores, nos arredores de Fortaleza. Na imprensa, o governo apresentava os campos como parte de uma política de amparo e assistência social e os retirantes se dirigiam até eles espontaneamente, iludidos pela promessa de obtenção de alimentos, atendimento médico e hospedagem. “Chegando, se davam conta de que as estruturas eram precárias. Os lugares que alojavam as pessoas eram grandes galpões de palha”, conta a professora da UFC.

De acordo com Rios, os campos de concentração foram concebidos para abrigar 3 mil pessoas, mas alguns recebiam até 18 mil, como foi o caso do Patu. “O lugar é o único que ainda guarda as ruínas da época e por isso tornou-se o mais conhecido”, diz a historiadora. O campo de Senador Pompeu dispunha de estrutura de alvenaria porque em sua configuração foram aproveitados 12 casarões de estilo neocolonial, construídos para dar suporte às obras de edificação da barragem do rio Patu, em 1919.

Pertencentes ao Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), que à época se chamava Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (Ifocs), em 1932 os edifícios foram cedidos, pela União, para que o governo do estado pudesse instalar o campo de confinamento. Calcula-se que em alguns desses 12 casarões viviam cerca de 300 pessoas. Os flagelados também eram alojados em barracas distribuídas pelo terreno. Embora não existam registros oficiais, estima-se que metade dos que passaram por Patu morreu de fome ou em decorrência de doenças como tifo e sarampo e foi enterrada em valas coletivas. “Livros paroquiais de algumas igrejas da região trazem relatos de padres que visitavam os campos, informando que diariamente davam a extrema-unção para dezenas de pessoas”, conta Rios, que obteve a mesma informação em entrevistas com sobreviventes. Os sete campos funcionaram até 1933, quando as chuvas voltaram e os retirantes regressaram aos seus lugares de origem, com passagens de trem pagas pelo próprio governo. “Alguns desses fluxos se dirigiram a Fortaleza, que experimentou ampliação do processo de favelização”, relata Rios, estimando que mais de 100 mil pessoas passaram pelos campos de concentração do Ceará entre 1932 e 1933.

Djamiro Ferreira Acipreste, do Departamento de Direito da Universidade Regional do Cariri (Urca), lembra que o espectro da Segunda Guerra Mundial, que “formulou um novo pacto civilizatório e humanitário e condenou com veemência os campos de concentração e extermínio do holocausto”, foi decisivo para o desaparecimento de documentos relativos aos campos cearenses. Em seu lugar, o governo passou a construir conjuntos habitacionais na periferia de Fortaleza. Em 1959, com a criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), iniciaram-se as discussões sobre como conviver com a seca por meio de políticas de irrigação e projetos de açudes. “A partir de 1945, os campos de concentração foram sendo esquecidos”, conta Acipreste. “Hoje, muitos dos habitantes locais desconhecem sua história.”

Esse era o caso de Figueiredo, do IFCE, morador da cidade do Crato, onde funcionou o Buriti, maior campo de concentração da região, que chegou a abrigar 70 mil pessoas de estados como Piauí, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba. De acordo com ele, desde o final do século XIX a região do Crato atrai migrantes provenientes de outras áreas. “Ela fica próxima da fronteira com outros estados, possui muitas nascentes e é conhecida por ser o oásis da região do Cariri”, explica. Além disso, as romarias do Padre Cícero (1844-1934), nascido na cidade, também atraíram migrantes.

Até 2005, quando começou sua graduação na Urca, ele ignorava a história do local, que passou a conhecer a partir da leitura dos trabalhos de autores como Kênia Rios e Frederico de Castro Neves, também professor na UFC. “Não há evidência material da existência desse campo. O bairro que se chamava Buriti mudou de nome para Muriti, em uma tentativa de apagar o acontecimento da memória. Eu vivi toda a vida no local e só fiquei sabendo de sua existência na faculdade”, relata Figueiredo, que defendeu mestrado sobre o tema em 2015.

Nascido em Senador Pompeu, o advogado Valdecy Alves, uma das principais lideranças do movimento social que, junto com historiadores, deu origem ao processo de tombamento do campo, lembra que na sua infância as crianças viam o Patu como área mal-assombrada, enquanto os adultos se dirigiam ao local para pagar promessas. “Sem as casas de alvenaria do Patu, os outros campos utilizavam barracas feitas de pau cobertas com folhas de carnaúba. Depois de fechados, o governo ateou fogo e as estruturas desapareceram”, conta Alves. Em Senador Pompeu, parte da população mais velha recordava-se dos acontecimentos e utilizava o lugar em que os mortos teriam sido enterrados para pagar promessas. O historiador Aterlane Martins, professor do IFCE, campus Quixadá, conta que, atento a essa movimentação, em 1982 o padre italiano Albino Donatti propôs a organização de uma romaria em memória dos mortos. Denominada “Caminhada da seca”, ela acontece sempre em novembro. Sai do centro da cidade, em um percurso de 4 km até o local onde estariam as valas comuns. Antes um terreno baldio, hoje esse lugar conta com uma estrutura simbólica de cemitério. “Os devotos colocaram lápides e, nas caminhadas, levam flores, velas, pão e água”, informa Martins. Segundo ele, entre os visitantes existe a crença de que os mortos podem conceder graças aos devotos.

A historiadora Karoline Queiroz e Silva, que defendeu mestrado sobre o campo em 2017, explica que antes de o padre organizar a caminhada as pessoas diziam que viam almas no local e começaram a acender velas e levar ex-votos (objetos que fiéis costumam oferecer aos santos de devoção). Ela lembra que cerca de 6 mil pessoas participam anualmente da romaria, inclusive de outros estados. “Recentemente, afora os artigos religiosos, as pessoas passaram a carregar pequenas cisternas e sementes, aludindo à necessidade de políticas públicas que possibilitem a convivência com a seca. Com isso, o evento adquiriu caráter político”, destaca.

Martins, do IFCE, lembra que há 10 anos a prefeitura passou a incluir a romaria no seu calendário turístico, sinalizando com placas os lugares por onde ela passa. Além da caminhada, ele defende a realização de atividades culturais na área tombada, para manutenção da memória do campo de concentração. “O processo de tombamento é importante, mas ainda não foi feito um plano de salvaguarda para determinar, por exemplo, como as edificações serão utilizadas. Elas estão distantes do centro, não há movimentação diária no local. Em respeito aos que ali passaram, é preciso criar ações para contar o que aconteceu”, finaliza.

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