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A Granja

LAVOURA PULVERIZADA COM QUALIDADE

Publicado em 01 dezembro 2008

Passada a época do plantio, é hora de defender a lavoura do ataque de fungos, insetos e plantas daninhas. Etapa importante para uma safra de qualidade, a pulverização requer o máximo de atenção do trabalhador rural. É preciso eliminar os invasores da plantação, mas também é essencial não criar problemas para o meio ambiente e para a própria saúde.

O processo segue as mesmas regras básicas da medicação de um paciente. É preciso usar o remédio de acordo com o problema, prestar atenção à dose que será administrada e aos horários determinados na bula. Se o medicamento for dado em excesso ou em uma quantidade abaixo do recomendado, o efeito não será o esperado. Na hora de cuidar das doenças e pragas da lavoura, também é assim. Quanto mais cuidadoso for o trabalho, maiores são as chances do tratamento dar bons resultados.

Todos os anos, a agricultura brasileira perde, em média, entre 30% e 40% da sua produtividade devido à ação de insetos, fungos, bactérias e plantas invasoras. “A produção na safra 2007/ 2008 foi de 145,6 milhões de toneladas. Se fossem utilizados corretamente os agroquímicos, as técnicas e as tecnologias de controle dos limitantes biológicos, a safra poderia estar muito acima das 200 milhões de toneladas”, constata o engenheiro agrônomo Manoel Ibrain Lobo Junior, consultor em tecnologia de aplicação.

Estimativas obtidas a partir de estudos feitos com diversas culturas apontam que apenas 30% de todo defensivo aplicado consegue atingir o alvo biológico. As condições precárias de operação fazem com que outros 30% atinjam diretamente o solo, contaminando os recursos hídricos, enquanto os 40% restantes sofrem evaporação. “Esta última parcela é levada pela deriva e acaba contaminando áreas sensíveis próximas à região de aplicação”, descreve o especialista.

Lobo ressalva que esses índices são referentes, em sua maior parte, aos pulverizadores tratorizados equipados com barras horizontais e bicos hidráulicos com capacidade de carga entre 600 e 800 litros. Esse perfil representa em torno de 80% dos equipamentos aplicadores utilizados no Brasil. Em pulverizadores maiores, com cargas entre 1.000 e 4.000 litros, as perdas contabilizadas são menores. “Normalmente são máquinas usadas por produtores com maior acesso à informação e que colocam em prática as recomendações técnicas”, menciona.

A partir do momento em que o defensivo não alcança o seu objetivo, o agricultor também passa a calcular as perdas indiretas, provocadas pela continuidade do problema existente na lavoura. E no final da safra, todo esse prejuízo terá um impacto considerável nas contas da propriedade. “É um desperdício grande de energia e de fitossanitários. O produtor acaba perdendo parte do dinheiro investido na compra dos defensivos e coloca em risco a sua própria segurança”, destaca o engenheiro agrônomo Marcelo da Costa Ferreira, professor do Departamento de Fitossanidade da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Jaboticabal/ SP.

O agricultor ainda precisa lembrar que o gasto com a pulverização é uma parcela importante da formação de custos da plantação. Em uma lavoura de milho, representa em torno de 10% do total investido. Na soja, o índice chega a cerca de 25%, especialmente em função do controle da ferrugem. Em culturas como os citros e o morango, o valor é ainda mais alto, representando aproximadamente 35% do custo total de produção.

E é justamente em algumas frutíferas e olerícolas que são estimados os maiores volumes de perdas de agroquímicos na agricultura. “Em frutas arbóreas as perdas podem ultrapassar os 70%. As plantas são mais altas que os equipamentos, são empregados grandes volumes com altas pressões e há falhas causadas pelo direcionamento errado do jato”, explica Ferreira.

Na Unesp, uma equipe de pesquisadores trabalha no desenvolvimento de um pulverizador mais eficiente para a fruticultura, com o objetivo de reduzir as perdas e o volume de defensivo usado. Os primeiros resultados com o equipamento foram positivos. “Normalmente, na laranja, são usados entre 10 litros e 20 litros de solução em cada planta. Com essa nova tecnologia, conseguimos utilizar apenas 5 litros com a mesma eficiência no combate da praga do ácaro”, conta o professor.

Por que ocorrem as perdas

Está nas mãos do produtor a possibilidade de corrigir os principais erros cometidos durante a aplicação de defensivos. Em momentos como esse, em que os custos de produção apresentam altas significativas sobre a lavoura, é ainda mais importante fazer um controle rigoroso de toda a atividade, trabalhando para diminuir ao máximo o risco de prejuízos.

Um dos principais problemas observados durante a pulverização, a perda por deriva, ocorre, entre outros motivos, pela escolha incorreta das pontas de pulverização, refletindo na produção e no tamanho das gotas. “Gotas muito pequenas, com tamanhos inferiores a 150 micra, evaporam pela alta temperatura e pela baixa umidade relativa do ar e são facilmente levadas pelo vento. Gotas grandes, com tamanhos superiores a 400 micra, escorrem diretamente para o solo. A deriva também acontece quando são usados produtos muito voláteis e que podem sofrer evaporação devido às altas temperaturas”, salienta o consultor Manoel Lobo.

Para definir o bico de pulverização e, conseqüentemente, o tamanho das gotas, uma série de fatores deve ser levada em consideração. É preciso determinar o alvo biológico que será atacado, o tipo e a classe do produto químico que será utilizado, o volume de calda que será aplicado, a área de cobertura e as condições meteorológicas no momento da pulverização. “Muitos produtores iniciam a safra com um determinado bico e seguem com ele até o final do trabalho. Só que a prática nos mostra que algumas vezes é preciso trocar o bico duas ou três vezes durante um mesmo dia”, declara o professor Marcelo Ferreira, da Unesp.

O valor de uma ponta de aplicação é muito baixo quando comparado ao custo de um pulverizador ou de um fitossanitário. No entanto, todo o sucesso do sistema passa por esse local da máquina. “Existem muitos fabricantes e fornecedores no país, e é possível encontrar bicos de qualidade com preços em torno de R$ 10. Além disso, o produtor tem que saber que a troca da ponta é um processo bastante fácil. Temos tecnologias que permitem modificar o bico em poucos segundos”, completa o especialista.

O desenho da ponta, a taxa de vazão, a pressão de operação e as propriedades físicas e químicas da calda de pulverização determinam o tamanho e a distribuição das gotas. “O produtor pode mudar qualquer um desses fatores para alterar o tamanho das gotas, modifican- Consultor Manoel Lobo: cuidados com a aplicação integram conceito de produção responsável do a porcentagem de cobertura e o potencial de perda por deriva. O objetivo deve ser sempre proporcionar uma densidade satisfatória de gotas depositadas sobre o alvo e a maior penetração nas folhagens das plantas”, assinala Lobo. O consultor lembra que pontas de pulverização com indução de ar (sistema venturi) são comercializadas no Brasil com possibilidades de ótima cobertura e penetração nas folhas. “Essas pontas, com tecnologia de redução de deriva, produzem gotas aeradas que suportam situações adversas de baixa umidade relativa e rajadas de vento de até 20 km/h”, complementa.

Além de equívocos no uso dos bicos, as falhas na pulverização acontecem de forma freqüente nas perdas por gotejamento, quando não são utilizadas válvulas antigotejantes e no preparo da calda. A estimativa é de que entre 15% e 20% do total de agroquímicos usados no processo sejam perdidos em decorrência desses fatores. Para o preparo da calda, os especialistas recomendam principalmente o treinamento da equipe operacional e o uso de tanques de prémistura apropriados e seguros.

Entre as perdas químicas, o engenheiro agrônomo Ulisses Antuniassi, professor da Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu/SP, cita a inativação dos produtos pela presença de cátions e colóides na água (como exemplos, água dura ou água com argila) e degradação dos produtos por pH inadequado ou por raios UV (fotodegradação). “Quando o operador realiza misturas de tanque inadequadas, pode haver decantação dos produtos, floculação da calda e antagonismos entre os produtos misturados”, enumera.

Outros detalhes colaboram para o insucesso em uma aplicação: mangueiras furadas ou dobradas; filtro de sucção com sujeira; regulador de pressão quebrado; bomba com vazamentos; abraçadeiras e corpo de bicos quebrados ou soltos; diferentes tipos de pontas de pulverização equipando uma mesma barra de pulverização; e utilização de pontas de pulverização danificadas ou desgastadas. Esses problemas podem ser eliminados com atitudes simples no dia-a-dia, garante o consultor Manoel Lobo. “O produtor precisa saber que está valorizando o seu patrimônio prestando atenção a esses itens. Quando todos tiverem a consciência de que esse cuidado não é um gasto, mas sim um investimento, as perdas de agroquímicos podem ser reduzidas dos atuais 70% para menos de 5%”, frisa.

O especialista, que também é auditor do GlobalGAP (protocolo internacional de Boas Práticas Agrícolas), alerta que os cuidados com a pulverização integram um conceito bem mais amplo de produção responsável. “O cenário mercadológico internacional mostra que valoriza cada vez mais o aspecto qualitativo e o respeito ao meio ambiente na produção. A União Européia, que é o maior importador de produtos agropecuários do mundo, é exigente e pede que o Brasil adote melhores procedimentos de segurança em relação aos agroquímicos utilizados nas aplicações”, enfatiza Lobo.

Estímulo ao uso correto

A informação é fundamental para alertar os produtores sobre a importância da aplicação correta dos agroquímicos. Levar as recomendações com uma linguagem simples até o ambiente de trabalho do homem do campo é uma das ferramentas mais eficientes para promover a conscientização.

A Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), entidade que reúne os grandes fabricantes de defensivos, realiza uma série de atividades em todas as regiões do país. Por meio de parcerias com universidades, escolas agrícolas, órgãos de extensão rural, revendas e cooperativas, são promovidos cursos e palestras gratuitos que abordam desde a compra do agroquímico até a destinação final das embalagens. “Preconizamos as boas práticas e o manejo integrado de pragas. A agricultura é um negócio, e a aplicação correta do produto é chave para o agricultor melhorar a sua produtividade e o resultado final do seu trabalho”, conclui o gerente de Educação e Treinamento da Andef, Luis Carlos Ribeiro.

A mudança de atitude por parte dos agricultores é perceptível, diz o executivo. “Quando nossos técnicos retornam aos locais onde foram realizadas as atividades, percebem que a postura em relação ao processo já está mudando. E a nossa meta é justamente essa: promover melhorias concretas que resultem em mais rendimento na lavoura e em mais segurança para o trabalhador”, avalia Ribeiro.

Em 2007, foram promovidos pela Andef e suas associadas 1.036 eventos, envolvendo o treinamento e o uso correto e seguro de defensivos. O público alcançado chegou a 34.930 pessoas. Ainda integraram o calendário da associação, as palestras, os dias de campo, os treinamentos on-line e as mensagens de mídia. No total, foram 6.789 atividades sobre o uso correto e seguro, com alcance de 26.923.095 pessoas.

A interação com o trabalhador rural também é o foco do Programa Aplique Bem, desenvolvido desde o ano passado em parceria entre o Instituto Agronômico (IAC) da Secretaria de Agricultura de São Paulo e a empresa Arysta LifeScience. “Percebemos que os problemas na pulverização são muito sérios e queremos mostrar ao produtor que o fato de ter um equipamento moderno na fazenda não é garantia de uma aplicação eficiente”, argumenta o diretor do Centro de Engenharia e Automação do IAC, Hamilton Humberto Ramos. Para o pesquisador, a aplicação só será adequada quando houver uma boa máquina regulada para cada situação e um operador treinado para a função.

Até setembro deste ano, o Aplique Bem percorreu propriedades em 89 municípios de oito estados. Foram realizados mais de 170 treinamentos com 3.650 pessoas. “Fazemos um levantamento de dados regionais para identificar as reais necessidades locais e elaborar um treinamento adequado. Quando falhas são descobertas, realizamos um estudo junto aos produtores para desenvolver técnicas e alternativas mais eficazes e seguras”, informa Ramos.

Por meio de duas unidades, chamadas de Tech Móvel, o projeto atende gratuitamente os diferentes perfis de agricultores e analisa todos os tipos de pulverizadores terrestres. A avaliação dos equipamentos é feita com base na norma EN 13790, uma regra européia que estabelece padrões de qualidade para pulverizadores. A meta, a partir de 2009, é de que cada unidade do Tech Móvel atenda 4 mil pessoas por ano.

Um desses laboratórios móveis deve ter seu trabalho concentrado nas pequenas propriedades, especialmente as produtoras de hortaliças e flores. “Precisamos de uma atenção especial à segurança dessas áreas, onde ainda percebemos o pouco uso de tecnologia”, esclarece o diretor do IAC. Na maioria das pequenas propriedades, os equipamentos mais utilizados são os pulverizadores de mangueira e os costais, sistemas em que a aplicação é feita entre 50 centímetros e 1 metro à frente do corpo do trabalhador, o que aumenta muito a exposição ao agroquímico.

Pesquisas do Instituto Agronômico em culturas como tomate e morango indicam que a exposição pode chegar a 3.500 ml de calda, por hora de trabalho. No entanto, os riscos podem ser minimizados com o uso do Equipamento de Proteção Individual (EPI) e alterações simples na técnica de aplicação. Nesses casos, o indicado é que o trabalhador, ao invés de caminhar para frente, caminhe para trás para evitar o contato com o defensivo aplicado.

A importância da qualificação

O pesquisador Hamilton Ramos acredita que o trabalhador rural ainda carece muito de orientações sobre os cuidados que deve ter no campo e não pode ser o único responsável pelas falhas percebidas no processo de pulverização. No final da década de 1990, um estudo realizado no estado de São Paulo em 2.000 propriedades das 18 culturas que mais utilizavam agroquímicos observou que 85% dos aplicadores tinham aprendido a trabalhar com leigos, principalmente membros da família e outros agricultores. Do total dos entrevistados, 57% nunca haviam recebido treinamento ou orientação técnica para aplicação. Mesmo assim, 83% disseram ser os responsáveis pela regulagem dos equipamentos de aplicação nas propriedades. “Por esses motivos nos dedicamos a um trabalho prático, que tenha um nível de entendimento geral e que busque a constante interação com o aplicador”, justifica o diretor do IAC.

De todos os problemas que podem ocorrer durante a pulverização, a falta de conhecimento técnico é o mais sério deles, acrescenta o engenheiro agrônomo Ulisses Antuniassi, da Unesp. “Toda a operação, assim como o momento de aplicação e a dose do produto, devem integrar o pacote de recomendações técnicas”, orienta o especialista.

Trabalho inspecionado

Com mais de 20 anos de experiência na área de aplicação de defensivos, o professor Antuniassi coordena o projeto de Inspeção Periódica de Pulverizadores (IPP). O Brasil ainda não tem um sistema oficial de inspeção desses equipamentos. A fiscalização, no entanto, é obrigatória em mais de 20 países. Entre os anos 2001 e 2008 foram avaliados em torno de 600 pulverizadores por meio do programa, que teve início com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Hoje, uma das ações do IPP é o projeto Desenvolvendo uma Aplicação Segura (DAS), em conjunto com a empresa Dow Agrosciences para o incentivo às boas práticas de inspeção, calibração e manutenção dos pulverizadores. Entre 2006 e 2008 o DAS realizou atividades no Paraná, no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso do Sul. Outra entidade parceira do IPP é a Associação dos Produtores de Soja do Estado de Mato Grosso (Aprosoja). Nas diferentes regiões, uma unidade móvel do projeto transporta os equipamentos usados nas avaliações até as propriedades rurais. Não há custos para os produtores participantes. Em cerca de uma hora, é possível avaliar 15 dos principais itens de um pulverizador. O ideal é realizar uma inspeção por ano no equipamento. Entre os pulverizadores avaliados pelo projeto, 100% apresentaram algum Muita atenção ao clima. Os limitantes são: Umidade relativa do ar: mínima de 55%; Velocidade do vento: 3 a 10 km/h; Temperatura: abaixo de 30º C. tipo de problema. Desse total, 80% tinham falhas nos bicos. “Em todo o mercado brasileiro, a estimativa é de que entre 60% e 80% dos pulverizadores tenham problemas técnicos que poderiam ser solucionados com ações simples, como calibração correta, troca de pontas e reparo de vazamentos”, sustenta Antuniassi.

 

Aplicação aérea exige profissionais treinados

A obrigatoriedade do trabalho de profissionais treinados é uma das principais vantagens da aplicação aérea de agroquímicos, na avaliação do assessor técnico do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag), Eduardo Araújo. “Por seguir as leis específicas do Ministério da Agricultura e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), é a única forma de aplicação em que é exigida a capacitação e a responsabilidade técnica sobre o processo”, aponta. O dirigente lamenta, no entanto, que a maioria dos cursos de formação agrícola não tenham a aplicação aérea em suas grades curriculares. “Encaminhamos nosso pleito para escolas e universidades, assim como buscamos um maior apoio das instituições de pesquisa”, prossegue Araújo.

As tecnologias voltadas à aplicação aérea evoluíram de forma significativa nos últimos dez anos. O assessor do Sindag destaca inovações como o DGPS (GPS Diferencial), que oferece extrema precisão na operação, os acessórios automáticos, que ajudam a manter a velocidade constante do equipamento, e os atomizadores rotativos, que possibilitam um tamanho de gota mais controlado.

Assim como ocorre com a aplicação terrestre, para diminuir o risco de perdas por deriva durante a pulverização aérea, um dos principais cuidados deve estar relacionado às condições climáticas. “É fundamental que o produtor saiba como estão a temperatura, a umidade e a velocidade do vento. Um aparelho medidor é de fácil manuseio e de baixo custo”, aconselha Araújo.

No Brasil, a estimativa é de que a aplicação aérea seja utilizada em uma área de cerca de 7 milhões de hectares. A frota nacional tem 1.300 aviões, e os estados que mais usam a técnica são o Mato Grosso e o Rio Grande do Sul. “A demanda cresce especialmente depois de um período chuvoso, quando os pulverizadores terrestres têm dificuldade para entrar na lavoura”, informa o assessor do Sindag.