Notícia

O Povo

Hepatite C diversidade do vírus é alta

Publicado em 06 fevereiro 2005

Por Eduardo Geraque, da Agência FAPESP
Além da alta prevalência do vírus da hepatite C entre os brasileiros, a falta de sintomas em grande parte dos casos é um outro obstáculo para a identificação dessas infecções. Agora, conforme mostra um estudo publicado na Brazilian Journal of Medical and Biological Research de janeiro, mais um fator complicador pode ter surgido: a grande diversidade viral no País.
''Descrevemos neste artigo que a distribuição dos genótipos varia muito entre as diferentes regiões brasileiras'', disse João Renato Pinho, do Instituto Adolfo Lutz de São Paulo, um dos autores principais do trabalho.
A avaliação feita com o material genético de 1.688 pacientes revelou a existência de algumas prevalências em determinadas áreas do País. Na região Norte apareceu mais o genótipo tipo 1, enquanto o Centro-Oeste registrou mais o do tipo 2 e o Sul o de tipo 3.
Em todo o País, a tabela de freqüência dos genótipos mostra que o tipo 1 é o mais encontrado, com 64,9% de ocorrência. Na seqüência aparecem o tipo 3 (30,2%) e o tipo 2 (4,6%). Os genótipos dos tipos 4 e 5 foram encontrados em poucos casos.
Até hoje, em todo o mundo, onde existem 170 milhões de pessoas contaminadas com o vírus da hepatite C, seis grandes tipos de genótipos foram detectados. O tipo 1 e o tipo 4, em alguns casos, são menos fortes que os demais.
"Em particular, chama a atenção no caso do Brasil a elevada freqüência do genótipo 3 na região Sul, o que deve refletir o importante componente genético trazido pelos imigrantes de países como Itália, Alemanha e da região do Leste Europeu'', disse Pinho. 
Como a distribuição encontrada no Brasil é muito semelhante à da Europa, os pesquisadores trabalham com a hipótese de que a infecção pelo vírus da hepatite C no País se espalhou recentemente, depois da chegada das grandes ondas de imigrantes.
''Isso confirma dados internacionais que associam a alta freqüência dessa infecção com o uso de transfusões de sangue e de outros hemoderivados até antes de 1991'', explica Pinho. Segundo estimativas dos pesquisadores, no Brasil a hepatite C deve estar presente entre 0,8% e 3,4% da população. ''Isso faz com que pelo menos 1,3 milhão de brasileiros possam ser acometidos pela doença'', conta o cientista.
Como a hepatite C é uma doença assintomática, na opinião do pesquisador do Instituto Adolfo Lutz o quadro é preocupante. ''Entre 5% e 20% dos casos poderão evoluir para cirrose hepática após 20 anos de infecção. E, dentro desse universo, outros 20% podem apresentar carcinoma hepatocelular'', afirma.
Além de conhecer melhor os tipos de genótipos virais da hepatite C que existem no Brasil - o estudo também trouxe surpresas no Mato Grosso e no Maranhão, estados com alta prevalência do tipo 2, e em Pernambuco, onde o tipo 3 é alto -, outras medidas podem ser tomadas para que a infecção de hepatite C não fuja do controle. ''A evolução da doença pode ser evitada com o diagnóstico rápido e com a instalação de tratamento precoce'', diz Pinho.
Para o pesquisador, é fundamental que os integrantes do chamado grupo de risco sejam avaliados com testes sorológicos. ''Estamos falando de pessoas que receberam sangue antes de 1991, hemofílicos, hemodialisados, filhos de mães com hepatite C, cônjuges de pessoas que tiveram a infecção, doadores para transplantes e usuários de droga. Isso é muito importante, porque muitas vezes a infecção é assintomática nas fases iniciais'', explica.

As hepatites
As hepatites podem ser causadas por vírus ou por substâncias tóxicas, através do consumo exagerado de álcool e de algumas substâncias medicamentosas. Nesse caso, são facilmente tratáveis. Basta suspender o uso das drogas. As hepatites virais, dependendo do tipo, podem tornar-se crônica, evoluir para uma cirrose e daí para um câncer hepático. Existem cinco tipos de hepatites causadas por vírus, mas as principais são:

Hepatite Tipo A
A hepatite mais simples. Pode ser curada.
Como se pega: pela ingestão de comida e água contaminadas com fezes.
Sintomas: semelhantes aos de uma gripe (febre, cansaço, dor pelo corpo, falta de apetite), em alguns casos olhos e pele amarelados, náuseas, vômitos, mal-estar geral.
Riscos: quase nulos, pois dificilmente desenvolve uma hepatite crônica
Vacina e tratamento: existe vacina e o tratamento é repouso absoluto

Hepatite Tipo B
Como se pega: por sexo, da mãe para o recém-nascido e pelo sangue.
Sintomas: os mesmos da hepatite A.
Riscos: evolução freqüente (acima de 30%) para hepatite aguda e daí para hepatite crônica em até 10% dos casos.
Vacina e tratamento: existe vacina e os tratamentos mais freqüentes são à base de medicamentos antivirais indicados que, em cerca de 40% dos casos, leva a carga viral no organismo para zero.

Hepatite tipo C
A hepatite mais perigosa. Não tem cura. Como se pega: principalmente através do sangue. Sintomas: dificilmente são manifestados sintomas, pois eles aparecem geralmente em estágio avançado da doença. Riscos: leva à hepatite crônica em até 70% dos casos. Vacina e tratamentos: não existe vacina, sendo os tratamentos mais freqüentes à base do antiinflamatório combinado com o antiviral indicado, com cerca de 40% dos casos em que a carga viral foi reduzida a zero.

Transmissão da hepatite C
Quando o risco é maior
- No compartilhamento de objetos que perfuram ou cortam, entre eles as seringas no uso de drogas injetáveis e os instrumentos para inalação por usuário de cocaína quando ocorre sangramento do nariz.
- Durante as sessões de hemodiálise, haja vista que a máquina é utilizada por mais de um paciente.
- Nas transfusões sangüíneas quando o sangue doado não for testado.
- No transplante de órgãos, uma vez que o vírus HCV também existe nas células de defesa do organismo.
Quando o risco é menor
- Durante o parto, da mãe para o filho.
- Durante as relações sexuais

Eduardo Geraque, da Agência FAPESP