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Nexo Jornal

Favoritos - Daniela Mountian

Publicado em 10 janeiro 2021

A editora e tradutora indica cinco livros da literatura russa com personagens obsessivos

Há estradas distintas para se percorrer a literatura russa. Uma delas vai seguindo os rastos que alguns textos deixaram em outros textos no decorrer dos anos.

Aleksándr Púchkin (1799-1837), o autor mais apreciado, conhecido e citado da Rússia, introduziu uma série de temáticas universais com roupagem nacional e procedimentos artísticos que abasteceram praticamente toda a cultura russa que veio depois dele.

Em “A dama de espadas”, Púchkin reuniu o herói obsessivo, tomado por uma loucura diabólica, e o jogo de cartas, assentando as bases de muitas obras. Esse conto ressurgiu em duas óperas, no cinema, no teatro, nas artes plásticas e, claro, na literatura. A história foi assumidamente revisitada, entre outros, por textos de Fiódor Dostoiévski, Fiódor Sologub, Daniil Kharms e, à sua maneira, de Marina Tsvetáieva. Lê-los em sequência é como entrar em um túnel do tempo povoado por personagens espelhadas e delirantes.

A dama de espadas: prosa e poemas

Aleksándr Púchkin (Trad. Boris Schnaiderman e Nelson Ascher, Editora 34, 2018)

O conto que dá nome à coletânea, escrito de forma precisa e elegante, sem excessos, é um dos que dá início à moderna prosa fantástica russa. Ele pode ter sido publicado pela primeira vez em 1834, mas continua com ritmo contagiante. Narra a história de um engenheiro alemão “russificado”, Hermann, que fica obcecado com a ideia de fazer fortuna numa jogatina ao conhecer três cartas que dariam a mão da vitória e eram guardadas em segredo por uma velha condessa, avó de um amigo. Assim, o engenheiro, com “perfil de Napoleão e alma de Mefistófeles”, tenta se aproximar da Lisavieta Ivánovna, a simpática e infeliz dama de companhia da grand’maman. Sem sucesso, o jovem resolve coagir a condessa, que morre de susto, caindo de costas. Fui obrigada a adiantar um pouco a história para que esse apanhado fizesse sentido, mas o que ocorre depois não vou contar, apenas mencionar a situação triangular fáustica que se formou: Hermann, Lisa e a condessa — ou um jovem com uma ideia atuando-lhe “fortemente sobre a imaginação”, uma moça órfã e inocente e uma velha morta em São Petersburgo. O jogo de cartas em Púchkin opõe o elemento casual e “aleatório” da vida ao destino, ao mundo “ordenado e compreensível”, como observou Iúri Lotman em um ensaio sobre a obra quase tão consagrado quanto ela própria.

Crime e castigo

Fiódor Dostoiévski (Trad. Paulo Bezerra, Editora 34, 2020)

“Um jogador”, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), seria a primeira aposta para entrar nesse rol de obsessivos, mas a roleta hoje vai parar em Rodion Raskólnikov, o jovem estudante que protagoniza “Crime e castigo” (1866). É escusado dizer que o romance russo mais festejado atualmente no mundo tem camadas e camadas de leitura, mas uma delas é a relação que ele estabelece com os conceitos e a trama de “A dama de espadas”, que “era entre os contos escritos por Púchkin um dos favoritos de Dostoiévski”, lembrou outro dia um editor do polka.academy, Lev Obórin. Raskólnikov, movido por um ímpeto napoleônico, mata a machadadas uma velha usurária, que cai de costas. A partir daí, nas andanças pelas ruas de São Petersburgo ou no seu cubículo claustrofóbico, o jovem passa a ser assaltado por pensamentos obstinados. Provavelmente você já leu “Crime e castigo” ou conhece por alto essa história labiríntica, mas talvez ainda não tenha parado para pensar na situação de triângulo estilizada por Raskólnikov, a prostituta Sonia e a velha agiota, e nas outras pegadas que Dostoiévski deixou para homenagear seu poeta tão adorado, que, assim como ele próprio, era chegado a jogos de azar.

O diabo mesquinho

Fiódor Sologub (Trad. Moissei Mountian, Kalinka, 2008)

Escrito durante dez anos por Fiódor Sologub (1863-1927), expoente do simbolismo russo, “O diabo mesquinho” (1902) descreve os acontecimentos rocambolescos da vida de Ardalion Peredónov, um professor de ginásio de uma província russa do fim do século 19 que está à procura de uma esposa para alcançar o posto de inspetor escolar. Enredado nas intrigas alimentadas pelos habitantes incorrigíveis da cidade, o maldoso Peredónov é invadido por estranhas alucinações, que culminam num processo de enlouquecimento. O professor Ardalion, como o engenheiro Hermann, sofre de delírios e de mania de perseguição; cartas de baralho desenham-se em sua imaginação e misturam-se à imagem de uma velha princesa (nossa dama de espadas) para quem a amante dele fazia pequenos reparos de costura (agora um triângulo paródico). A narração, por meio de citações recorrentes, volta e meia conduz à história de Púchkin, mas não estranhe se no meio da mascarada você topar com Cervantes, Lérmontov, Gógol, Dostoiévski, Tchékhov...

A velha

Daniil Kharms (Trad. Moissei e Daniela Mountian, Kalinka, 2019)

O jovem excêntrico Daniil Kharms (1905-1942) foi precursor do absurdismo russo e fundador de um coletivo de vanguarda chamado Oberiu (1928). Ele é autor de poemas, peças de teatro e textos em prosa curtíssimos e hilariantes que, após anos desconhecidos dos russos, caíram no gosto de artistas e jovens alternativos. A novela “A velha” (1939) retrata um escritor em crise criativa que vive em Petersburgo e de repente se vê diante de uma velha que cai dura no meio de seu quarto. Como um bom modernista, o narrador (em primeira pessoa) não questiona o fato de ser responsável ou não por essa morte: só tem a certeza de que será culpado por ela e passa a arquitetar obsessivamente uma forma de se livrar do corpo, enquanto seus pensamentos, fechando o triângulo, criam estratagemas para reencontrar a mocinha simpática e curiosa com quem ele havia topado na fila da padaria. Além da realidade brutal em que vivia na Rússia soviética do fim dos anos 1930, Kharms integrou à sua obra a tradição literária russa ao imprimir no autor-narrador seu alter ego, marcas visíveis do “fenômeno Hermann” e do “fenômeno Raskólnikov”. Nosso olhar é atraído para as imagens e os gestos das personagens, que trocam de lugar entre si e viajam pelo tempo.

O diabo

Marina Tsvetáieva (Trad. Aurora Fornoni Bernardini, Kalinka, 2020)

Marina Tsvetáieva (1892-1941), célebre poeta russa, deixou alguns textos autobiográficos em prosa. Um dele é “O diabo” (1935), que, com uma maneira peculiar de expressar o mundo, vai reconstruindo a infância dela, até seus sete anos, permeando-a com a figura dele, do diabo, ou com a adoração obstinada, poética, tátil e ambígua que sentia por ele. Ao longo do texto somos envolvidos pelas formas que o diabo vai assumindo, até que, a certa altura, ele se torna carta de baralho para a adivinhação e depois para a jogatina. Aí juntos, o carteado e o diabo, a vida e a morte, a entrega e o erotismo, eles nos levam de volta para o jogo entre acaso e destino que Púchkin iniciou cem anos antes. Para quem gosta de pensar literatura pela lógica psicanalítica, vai quebrar a cabeça nesse triângulo invertido.

Daniela Mountian é editora e tradutora. Concluiu mestrado sobre Fiódor Sologub e doutorado sobre Daniil Kharms no Programa de Literatura e Cultura Russa da USP (Universidade de São Paulo). Atualmente faz pós-doutorado sobre literatura russa infantil no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada (USP), com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).