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Envolverde

Escavando história

Publicado em 18 junho 2010

Por André Gravatá*

Há inúmeros sítios arqueológicos espalhados pela Amazônia. Para arqueólogo Eduardo Goes é importante explorá-los tanto pelo valor histórico das possíveis descobertas quanto pela importância de conhecer modelos de vida que eram sustentáveis antes mesmo da palavra sustentabilidade surgir. Mais de duzentos sítios arqueológicos foram identificados na Amazônia central. No entanto, a quantidade de sítios existentes é maior. "Na Amazônia o problema não é achar o sítio arqueológico, é saber o que fazer com ele, porque os sítios estão por toda parte, todo mundo tem um sítio arqueológico no seu quintal, literalmente", explica o arqueólogo Eduardo Goes Neves, presidente da SAB (Sociedade de Arqueologia Brasileira) e autor do livro Arqueologia da Amazônia. Uma vida inteira não daria conta de escavar detalhadamente um único sítio. E enquanto se escava numa localidade, outras centenas continuam sob ameaça. Por isso, nenhum arqueólogo escava um sítio por completo, num trabalho sempre feito por amostragem.

E é uma tarefa muito delicada, que destrói o sítio arqueológico, já que a intervenção o desmonta. Para que as populações no entorno entendam esses cuidados, Goes realiza desde 95 um projeto no qual criou sítios-escola. Neles os amazônidas aprendem a fazer uma escavação arqueológica, encontrar sítios, delimitá-los, entre outras ações que colaboram para a preservação da história da Amazônia antiga. "Essas populações antigas da Amazônia criaram o que eu chamo de paisagens: a natureza modificada pela atividade humana", conta Goes. Há pessoas vivendo na Amazônia há mais de 10 mil anos, prova de que essa região não é apenas uma formação natural, tendo sido bastante ocupada por índios no passado. Línguas escavadas Enquanto na Europa a maioria das línguas, do russo ao polonês, é originada de uma única família linguística, a indo-européia (trata-se de um conjunto de línguas com origem comum); na Amazônia há seis grandes famílias linguísticas, além de outras línguas isoladas e famílias linguísticas menores.

Como na arqueologia a língua é indicador de diversidade cultural, as descobertas referentes às línguas amazônicas confirmam essa diversidade na região. "Se a gente não tem escrita na Amazônia antiga, como podemos escavar uma língua? Trabalhamos com o conceito de cultura arqueológica. A ideia é que essa diversidade cultural manifestada pelas línguas no presente também vai se manifestar no passado por padrões específicos de formação de vestígios arqueológicos", explica Goes. Um arqueólogo norte-americano chamado Donald Lathrap sugeriu que uma região na Amazônia Central teria sido um centro de ocupação humana e inovação cultural, com domesticação de plantas, vida sedentária e até produção de cerâmica. Foram encontrados, por exemplo, objetos de pedra lascada a 25 quilômetros de Manaus, no sítio Dona Stella, sinalizando ocupações por volta de 6500 a 7000 a.C. Só não foram descobertas tantas evidências de ocupações no recorte temporal de 7000 a 3000 a.C., o que suscitou a hipótese de mudanças climáticas terem assolado algumas regiões da Amazônia Central. Em Santarém, no Pará, a herança histórica é muito presente hoje em dia, com estátuas nas ruas que são reproduções de peças de cerâmicas arqueológicas. As faixas de ônibus em Belém, por exemplo, seguem o padrão de desenho de urnas marajoaras e os ônibus levam desenhos de muiraquitãs.

Sobre possibilidades

Um projeto de escavação chega a custar milhões de reais. Goes, que é financiado pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), ressalta a importância de altos investimentos para o arqueólogo voltar ao local mais de uma vez - e poder errar. Ainda assim faltam arqueólogos no Brasil, uma profissão que exige ou um diploma de graduação em arqueologia (só há onze cursos no país) ou cinco anos de experiência. "Acho até que a gente devia pensar na possibilidade de trazer arqueólogos estrangeiros para trabalhar no Brasil de maneira mais sistemática", diz Goes, ressaltando estar preocupado com as grandes oportunidades que estão sendo criadas sem profissionais o suficiente para dar conta da demanda. Com mais ou menos pesquisas, é clara a evidência de que as escalas de intervenção humana antigas e atuais têm diferenças enormes. Estudar a história se justifica pela própria história e não só por isso, porque através das pesquisas arqueológicas se conhece modos de vida que eram mais bem adaptados às suas regiões e provam a possibilidade de conviver com a natureza sem esgotá-la.

*O autor é aluno do curso "Repórter do futuro, descobrir a Amazônia, descobrir-se repórter" realizado pela Oboré - Projetos Especiais em Comunicação e Arte.