Notícia

Blog Henrique Barbosa

Educação sempre em greve (*)

Publicado em 24 junho 2016

(*) Vladimir safatle

 

A Universidade de São Paulo, assim como a Unicamp e a Unesp, está mais uma vez em uma greve longa e de difícil resolução. Isso coloca, necessariamente, questões a respeito da relação entre a sociedade civil e a mais conhecida universidade pública brasileira. Nestas horas, aparece a importância de discutirmos o destino e as dificuldades do sistema público de ensino universitário brasileiro.

 

Alguns aproveitam esses momentos para insistir que a USP seria o maior exemplo de como o dinheiro público é utilizado para garantir privilégios de uma pequena elite que lá estuda. Melhor seria cobrar mensalidades de quem pode pagar e garantir bolsas para os que não podem.

 

No entanto, os números mostram como esse raciocínio é primariamente falso. Em torno de 60% dos alunos da USP vêm de famílias que ganham até dez salários mínimos. Ou seja, sua grande maioria não pode ser considerada proveniente da elite. Mesmo assim, ela poderia se democratizar mais se fossem implementadas políticas efetivas de cotas, o que infelizmente boa parte dos críticos das universidades públicas recusa por razões meramente ideológicas.

 

De fato, vemos atualmente problemas graves de financiamento das universidades paulistas. Costuma-se colocar tais problemas exclusivamente na conta da dita má gestão dos recursos. Mas há de se perguntar como se cria uma má gestão. Um dos maiores rombos produzidos na gestão da USP ocorreu na gestão do sr. Grandino Rodas, da qual o atual reitor participava. Este senhor foi imposto pelo então governador de São Paulo, José Serra, mesmo não tendo sido escolhido pela comunidade acadêmica. Houve alguma responsabilização do governo do Estado pelas suas escolhas? O mesmo Estado que culpa a USP por má gestão nos empurra mal gestores.

 

No entanto, o problema não é apenas de má gestão. Ele é de escassez de dinheiro. As universidades paulistas têm um percentual fixo do ICMS para custear suas despesas. Tal percentual foi negociado em uma época na qual a USP tinha um pouco mais de 30.000 alunos. Atualmente, ela tem 92.000. Qualquer cálculo elementar pode entender a razão pela qual a conta não fecha mais.

 

Mas de onde viria o dinheiro, já que o Estado arrecada menos? Se o Estado de São Paulo tivesse o mínimo de responsabilidade social, ele não estaria pensando em como fechar escolas, cortar merendas de estudantes, asfixiar universidades, sucatear seus hospitais universitários, mas em como garantir educação de qualidade fazendo como quase todo país de referência em educação fez: taxando aqueles que podem contribuir.

 

O Estado tem à mão impostos sobre herança ridiculamente baixos, IPVA que isenta jatos, helicópteros e iates. Ele poderia pressionar o governo federal a enfim aplicar o imposto sobre grandes fortunas, utilizando esses recursos para garantir mais dinheiro para a educação. Mas ele prefere jogar as escolas à deriva e deixar as universidades explodirem em um guerra entre seus setores.

 

Mas alguns poderiam querer colocar uma questão absolutamente legítima: vale a pena dar mais dinheiro à USP? Vamos desdobrar essa questão: vale a pena dar mais dinheiro para uma universidade responsável por 25% de toda a pesquisa feita no país, considerada nos rankings internacionais como a melhor universidade da América Latina e a nona entre os países dos Brics?

 

Antes de responder, lembre-se que comparar a USP com universidades que aparecem em primeiros lugares nos rankings internacionais, como gostam de fazer alguns, não faz sentido. Harvard, por exemplo, tem ao todo 21.000 alunos. Yale tem um pouco mais de 12.000 alunos. Cambridge tem 20.000. Estas são universidades cuja função é formar uma elite de excelência. Muito diferente é uma universidade de massa como a USP que visa formar um enorme contingente de bons pesquisadores e profissionais. Os desafios, as dificuldades e as funções são outros.

 

Há ainda aqueles que afirmam que o problema da USP estaria em sua Faculdade de Humanidades, responsável por inutilidades e irrelevâncias, como deixou transparecer o sr. Alckmin ao criticar a Fapesp por financiar “muitos projetos de sociologia”.

 

Muito haveria a dizer sobre “irrelevância”, mas gostaria de pedir ao leitor que pense em alguma faculdade, no mundo, no sistema solar ou na galáxia cujos professores deram para o seu país, nos últimos 20 anos, um presidente da República, dois ministros da Educação, um ministro da Cultura, um secretário nacional de Direitos Humanos, um prefeito de São Paulo e um porta-voz da presidência, das mais diversas tendências e partidos. Como se vê, alguns usam “irrelevância” de maneira peculiar.

 

(*) É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo).