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Envolverde

Diálogo com as artes

Publicado em 18 junho 2010

Por Alex Sander Alcântara, da Agência FAPESP

O português Manoel de Oliveira, nascido em 1908, é um dos cineastas mais premiados na Europa e um dos mais importantes diretores da história do cinema no século 20. Oliveira também é, aos 102 anos, o mais velho cineasta do mundo em atividade. Autor de 55 filmes (entre curtas, médias e longas-metragens), produzidos em Portugal, França, Itália, Suíça, Espanha e Brasil, sua produção cinematográfica é conhecida por aqui entre cinéfilos, mas tem tido pouco destaque entre estudiosos e pesquisadores brasileiros.

O livro Manoel de Oliveira: uma presença , que será lançado no dia 24 de junho, faz uma homenagem ao cineasta, promove uma revisão crítica de sua obra e preenche um vazio editorial sobre o autor que lançou seu primeiro filme em 1931. De acordo com Renata Soares Junqueira, professora do Departamento de Literatura da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara, e organizadora do obra, uma das principais características da produção cinematográfica de Oliveira é o diálogo sistemático entre artes. "Um dos mais interessantes aspectos de sua cinematografia é a ligação visceral com outras artes, como a pintura, a escultura e, principalmente, a literatura e o teatro. Esse diálogo do cinema com o teatro e a literatura me despertou particular interesse", disse Renata à Agência FAPESP .

O livro teve apoio da FAPESP por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa - Publicações. A pesquisadora cita como exemplos os diálogos cinematográficos com a pintura - presentes nos filmes O Pintor e a Cidade (1956) e As Pinturas do meu Irmão Júlio (1967) -, com a música - em Os Canibais (1988) - e com a escultura, em Estátuas de Lisboa (1932). Entretanto, quase todos os principais trabalhos de Oliveira, segundo Renata, derivaram da adaptação cinematográfica da literatura e do teatro. "Grande parte dos seus filmes, pelo menos desde Acto da Primavera, de 1963, é ostensivamente teatral", analisa.

O livro traz 18 estudos críticos, envolvendo a participação de 19 colaboradores, que estão reunidos em cinco capítulos, ou melhor, em planos. "Um dos principais objetivos ao reunir os textos em planos foi distinguir os principais temas de sua obra cinematográfica, analisados e, de certa forma, consagrados pela crítica", explicou. No primeiro plano (Uma poética para o cinema) estão reunidos os estudos desenvolvidos a partir de uma reflexão sobre as relações do cineasta com a literatura. "Não só com a ficção romanesca e com o teatro, mas também com os elementos e recursos recorrentes que constituem a sua poética para o cinema, presentes na poesia, no ritmo, na duração das cenas e no seu potencial de concisão imagética", indicou.

Em Os amores frustrados, o segundo plano, os textos exploram a complexidade das relações amorosas. Segundo a docente da Unesp, nessa parte estão agrupados os estudos que tratam dos filmes constitutivos da célebre "tetralogia dos amores frustrados", com destaque para O passado e o presente, Benilde ou a Virgem-Mãe, Amor de perdição e Francisca. "Já o terceiro plano, Portugal e o projeto expansionista, apresenta um teor mais político, um esforço de Manoel de Oliveira de reinterpretar a história de Portugal", disse Renata.

Os dois últimos planos - A dialética do bem e do mal e Em busca do tempo perdido - tratam de aspectos mais relacionados à condição humana. "São filmes que exploram a complexidade da alma humana, a questão das perversões, da maldade gratuita, da dificuldade de comunicação, entre outros aspectos", disse. No dia do lançamento haverá um debate com os professores Jorge Valentim, Samuel Paiva e Wiliam Pianco dos Santos, todos da Universidade Federal de São Carlos. O debate será às 19h30 no anfiteatro B da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, em Araraquara.

* Título: Manoel de Oliveira: uma presença Organizadora: Renata Soares Junqueira Páginas: 312 Preço: R$ 42 Mais informações: www.editoraperspectiva.com.br