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Degradação do Cerrado

Publicado em 24 novembro 2021

Degradação do Cerrado: Com 45,6% de sua vegetação original alterada, o bioma está se tornando mais quente, seco e propenso a grandes queimadas.

Degradação do Cerrado

Por Ricardo Zorzetto/Fapesp

O Cerrado, o segundo bioma brasileiro mais extenso e um dos mais ricos em diversidade de plantas e animais, encontra-se ameaçado.

A rápida eliminação da vegetação nativa – que neste século ocorre ao ritmo de 0,5% de sua área ao ano, duas vezes superior ao observado na Amazônia – e a posterior conversão dessas terras em vastas pastagens e plantações de soja, milho, algodão e cana estão alterando a ecologia e o clima desse ecossistema de maneira que pode se tornar irreversível em algumas regiões.

O Cerrado está hoje, nos meses de estiagem, até 4 graus Celsius (oC) mais quente do que nos anos 1960, além de mais seco. Em algumas regiões, também vem sofrendo queimadas mais intensas, duradouras e frequentes do que algumas décadas antes.

Essas mudanças, que começam a ser registradas em medições sistemáticas e observações em campo feitas por pesquisadores brasileiros, têm o potencial de afetar a sobrevivência da fauna e da flora do Cerrado, levando a extinções locais, e de reduzir a disponibilidade de água, prejudicando os 20 milhões de pessoas que vivem no bioma e o agronegócio, que prosperou em suas terras nas últimas décadas.

“O Cerrado já sofre hoje as consequências de mudanças que estão ocorrendo em escala local, regional e global”, afirma a ecóloga Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília (UnB), especialista em conservação e uso sustentável desse ecossistema.

Perda de Cerrado

Nos últimos 36 anos, o Cerrado perdeu quase 20% do que restava de sua vegetação original.

De 1985 a 2020, cerca de 26,5 milhões de hectares contendo os três principais tipos de formação nativa (campos, savanas e florestas) deram lugar a novas áreas de criação de gado e produção em larga escala das principais commodities agrícolas brasileiras, segundo o mais recente relatório do Projeto de Mapeamento Anual do Uso e Cobertura da Terra no Brasil, o MapBiomas, divulgado em setembro deste ano.

A área de campos, savanas e florestas perdida nesse período equivale quase ao território do Equador e é maior do que a de outros 120 países.

Com 2 milhões de quilômetros quadrados (km2), o correspondente a um quarto do território nacional, o Cerrado originalmente ocupava toda a região central do Brasil, do sul do Piauí e do Maranhão, no Nordeste, ao norte do Paraná, na região Sul. Hoje, no entanto, apenas 54,4% dessa área continua coberta por vegetação nativa – e uma proporção bem menor (em torno de 20%) permanece inalterada.

Efeitos

Com 45,6% de sua área convertida em plantações, pastagens, estradas, hidrelétricas e cidades, o Cerrado é o segundo bioma brasileiro mais alterado pela ação humana. Perde apenas para a Mata Atlântica, suprimida de quase 90% do território que ocupava.

Alguns efeitos associados a essa transformação radical na paisagem e no uso do solo estão cada vez mais evidentes: o Cerrado está se tornando mais quente, seco e, consequentemente, propenso a sofrer incêndios devastadores. Indícios da perda de umidade, do aquecimento e do crescimento do número de queimadas de grandes proporções foram apresentados nos últimos meses em estudos conduzidos por equipes de pesquisadores de diferentes regiões do país.

 

Em um artigo publicado em maio na revista Global Change Biology, o geógrafo Gabriel Hofmann, atualmente em seu segundo doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), quantificou o aumento da temperatura no Cerrado nos últimos 60 anos.

Cerrado ameaçado

Com colaboradores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Hoffmann avaliou os dados de temperatura e umidade coletados de 1961 a 2019 por 45 estações meteorológicas espalhadas pelo bioma e os confrontou com medições por satélites. Conclusão: na estação seca, a temperatura média no Cerrado subiu de 2,2 oC a 4 oC e a umidade relativa do ar caiu 15%.

Uma possível explicação para o ressecamento é a conversão da vegetação nativa em plantações e pastagens. Em experimentos realizados em uma área de Cerrado na região de Itirapina, interior de São Paulo, a equipe do engenheiro especialista em recursos hídricos Edson Wendland, da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos, verificou que em um ano uma área com arbustos e árvores típicos da formação savânica lança 30% mais umidade na atmosfera do que outra com as mesmas dimensões coberta por cana ou pasto.

“A substituição da vegetação de grande porte por uma de menor estatura altera a circulação de água nos diferentes compartimentos do ambiente. Mais água penetra no solo e chega ao lençol freático, deixando a atmosfera menos úmida por causa da menor transpiração das plantas. Ainda não sabemos se esse efeito é local ou se pode gerar impacto em todo o ecossistema”, diz Wendland.

Mudanças na paisagem

Nas seis décadas analisadas por Hofmann e colaboradores, houve mudanças importantes na paisagem e no padrão de uso do solo em boa parte do Cerrado. “O desmatamento, que inicialmente ocorria em áreas pequenas, para extração de carvão ou o estabelecimento de pastagens para pecuária de subsistência, foi substituído pela derrubada de extensos trechos de vegetação nativa, que deram lugar a amplos pastos e grandes áreas de monocultura”, lembra o geógrafo gaúcho.

Nesse período, o incremento maior ocorreu na temperatura máxima, registrada no início da tarde, embora a mínima, aferida à noite, também tenha apresentado um aumento importante.

Aquecimento

O aquecimento foi mais evidente no mês de outubro, no fim da estação seca e início da chuvosa. Com temperaturas da ordem de 33 oC, os dias de outubro de 2019 foram, em média, 4 graus mais quentes do que os do mesmo mês em 1961. À noite, a temperatura média ficou em torno dos 22 oC, até 2,8 graus superior à de 60 anos antes. Projeções realizadas pelo grupo sugerem que o fenômeno deve se agravar, com as temperaturas diurna e noturna subindo mais 2 graus até 2050.

O aquecimento observado no Cerrado é bem superior ao incremento de 0,2 oC por década indicado há poucos anos pelas projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para o hemisfério Sul. E segue um padrão que, na avaliação dos autores do estudo, aponta para a mudança na cobertura e no uso do solo como causadora principal desse aquecimento. O tal padrão é marcado por incrementos na temperatura diurna (máxima) maiores do que na noturna (mínima).

Em 60 anos, a temperatura média do Cerrado subiu de 2,2 oC a 4 oC na estação seca e a umidade relativa do ar diminuiu 15%

Para entender como os pesquisadores concluíram que as mudanças climáticas não são o fator principal, é preciso lembrar como os ecossistemas do planeta consomem grande parte da energia luminosa que recebem do Sol nos processos de fotossíntese e evapotranspiração. Ao longo do dia, a radiação solar atravessa a atmosfera quase sem aquecê-la e banha a vegetação.

Uma parte importante dessa energia (25%) é usada pelas plantas para sintetizar carboidratos (glicose) por fotossíntese e liberar grande quantidade de vapor-d’água na atmosfera por evapotranspiração. Quando a vegetação nativa é substituída por culturas que deixam a terra nua ou coberta de palha durante parte do ano (em geral na estação seca), a energia antes usada na fotossíntese e na evapotranspiração vai direto para o solo, que aquece mais ao longo do dia e aumenta a temperatura do ar perto da superfície.

“Se o efeito fosse decorrente exclusivamente das mudanças climáticas, provocadas pelo aumento de gases de efeito estufa na atmosfera, seria esperada uma elevação maior na temperatura noturna”, explica Hofmann. É que esses gases aprisionam o calor que foi armazenado na superfície terrestre de dia e liberado para atmosfera no fim da tarde, reduzindo o resfriamento noturno.

Orvalho

No período analisado, os autores também notaram a tendência de a formação de orvalho se tornar mais difícil. Resultado da condensação do vapor-d’água da atmosfera sobre superfície mais fria, o orvalho serve como fonte de água, em especial nos meses de seca, para plantas de raízes curtas ou que crescem sobre pedras (por exemplo, as do gênero Vellozia) ou apoiadas em outras (bromélias, orquídeas e lianas). Essa água que se condensa sobre a vegetação e o solo também é importante para insetos e outros animais de pequeno porte que se deslocam por distâncias muito curtas.

“Muitas plantas do Cerrado parecem depender do orvalho. Se essa dificuldade de condensação da água se consolidar, o efeito pode ser desastroso para parte da flora”, comenta o botânico Rafael Oliveira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que investiga a influência do fogo e da disponibilidade de água sobre certas formações do bioma.

O impacto da redução do orvalho, segundo Hofmann, poderia afetar a biodiversidade em diferentes escalas. “Ele pode prejudicar o crescimento e a reprodução dos indivíduos, eliminar certas populações e alterar a relação ecológica entre diferentes espécies”, conta o pesquisador da UFRGS.

Alteração no padrão de queimadas

Em paralelo ao aumento da temperatura e à diminuição da umidade, o Cerrado enfrenta uma alteração no padrão de queimadas. Nas duas últimas décadas, as de pequeno porte diminuíram em número e frequência e aumentaram os incêndios, que atingem áreas maiores, de modo mais intenso.

A partir de dados coletados por satélite, o grupo coordenado pela meteorologista Renata Libonati, da UFRJ, avaliou a frequência, intensidade, duração, sazonalidade e extensão das queimadas no Cerrado de 2001 a 2019 e sobrepôs essas informações ao mapa das 19 regiões com características ecológicas distintas (ecorregiões) em que se divide o bioma.

Dois terços das áreas queimadas a cada ano estão em apenas cinco das 19 ecorregiões, indicam os pesquisadores em artigo publicado em outubro no Journal of Environmental Management. As queimadas de maior intensidade, extensão e frequência ocorrem na metade norte do Cerrado. Lá estão quase 90% da vegetação nativa remanescente do bioma e, desde meados dos anos 1980, as principais frentes de expansão agrícola.

Artigos científicos

Mapbiomas. Mapeamento anual da cobertura e uso da terra no Brasil (1985 – 2020): destaque Cerrado. Set. 2021.
ALENCAR, A. et al. Mapping three decades of changes in the Brazilian savanna native vegetation using Landsat data processed in the Google Earth Engine platform. Remote Sensing. 13 mar. 2020.
HOFMANN, G. S. et al. The Brazilian Cerrado is becoming hotter and drier. Global Change Biology. 21 de mai. 2021.
SILVA, P. S. et al. Putting fire on the map of Brazilian savanna ecoregions. Journal of Environmental Management. 15 out. 2021.
SANTOS, F.L.M. et al. Prescribed burning reduces large, high-intensity wildfires and emissions in the Brazilian savanna. Fire. 2 de set. 2021.
ZILLI, M. et al. The impact of climate change on Brazil’s agriculture. Science of the Total Environment. 20 out. 2020.
PILON, N. A. L. et al. Quantifying the short-term flowering after fire in some plant communities of a Cerrado grassland. Plant Ecology & Diversity. 2 out. 2018.

Fonte: Cerrado ameaçado/Revista Pesquisa Fapesp CC BY-ND 4.0

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