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O Povo

Cantigas de Rosa

Publicado em 27 janeiro 2006

Em Uma cantiga de se fechar os olhos - mito e música em Guimarães Rosa, Gabriela Reinaldo vai no encalço do autor de Grande Sertão: Veredas, botando atenção na musicalidade vasta que pontua a obra do escritor mineiro
Eleuda de Carvalho, da Redação
O doutor era um poliglota. Falava bem umas seis línguas ou mais, o que muito lhe foi útil na carreira diplomática e, em particular, na fabulação de seus contos, novelas e em seu romance primordial, além de ajudá-lo no diálogo vivíssimo com seus tradutores. De outro lado, o ouvido de João era uma porta aberta aos sons de sua terra natal, gentes e natureza dos vales e veredas das Minas Gerais, que ele bateu, indo e voltando em lombo de manso burro, na companhia de vaqueiros, tropeiros e demais povo da lida com o gado. Destas várias línguas ouvidas, lidas, faladas, Guimarães Rosa construiu um idioma singular. E tremendamente musical, segundo nos mostra Gabriela Reinaldo em Uma cantiga de se fechar os olhos... mito e música em Guimarães Rosa, tese de doutorado em Comunicação e Semiótica, defendida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e que acaba de virar livro editado em parceria com a Annablume e FAPESP.
E livro que, de tão bonito por dentro e por fora, há de ser lido com gosto e sem susto por quem quer que aprecie uma prosa boa, serena e profunda, lúdica e rica de sentidos, e despida do linguajar hermético ou pedante, recheado de citações pomposas, que se vê com frequência em tantos trabalhos oriundos da academia. Para o leitor ter uma idéia, recorto dois oferecimentos - além daqueles a mestres e colegas, como de praxe - "A Deus, que quer da gente alegria e coragem", e "para os meus filhos, cantigas de olêolá". Gabriela fruiu o texto de Rosa, desde o emblemático Grande Sertão: Veredas (que completa 50 anos), aos contos de Sagarana, Primeiras Estórias, Noites do Sertão... De tudo o que leu, prestou atenção na intrínseca musicalidade, presente nas narrativas, com seus vaqueiros aboiadores, incelenças de defunto, violeiros, a sinfonia das matas, a melodia da voz dos bichos todos. Mas também, para além do que é contado, esta música que ele fez com o preciso das palavras, recriadas, misturadas com outros idiomas, sonidos em expansão sobre as linhas do papel.
Na apresentação, a autora justifica sua mirada, ela que também percorreu os caminhos de João Rosa: "Há música por toda parte, no sertão". Sim, a cantilena da natureza, os cantos das criaturas, das coisas. A música dolente dos carros de boi, o chape-chape dos cascos dos cavalos nas estradinhas, veredas todas, o vento assobiando nas folhas, tantos sons. E, para o que não tem palavras, o João Guimarães inventa: o mato, dizia ele, "aeiouava". E Gabriela sintetiza, escrevendo: "A obra de Rosa ecoa um sem fim de cantos". São quatro capítulos, cada qual tendo por título uma frase de JGR, a modo de mote e glosa para a tese de Gabriela.
No primeiro capítulo, a autora investiga o sentido que a palavra música tem na obra do escritor mineiro, nascido em Cordisburgo. No segundo, Gabriela Reinaldo trata das relações entre música, esquecimento e memória. O outro aborda o sentimento místico, expresso em canto e ritmo. No derradeiro, a glossolalia do canto, do ruído à música dionisíaca. Em diálogo com Rosa, a autora harmonizou a filosofia grega e contemporânea, a obra de Goethe e Plotino e Calvino e Câmara Cascudo, construindo um suporte teórico orquestrado com o propósito de suas investigações.
Em "O que a música diz é a impossibilidade de haver mundo, coisas", Gabriela toma o amor inominável de Riobaldo Tatarana por Diadorim para tratar do uso da palavra encantada e musical de JGR, esta "música subjacente" no texto, como repara a autora. Para compreender e nos fazer entender esta música intrínseca, Gabriela constata: "Dizer e cantar eram, para os antigos, a mesma coisa". E: "Rosa utiliza a metáfora da música enquanto linguagem oblíqua, abstrata, em que o objeto se esfacela e dele só se tem uma idéia muito geral, despregada de toda singularidade". Em contrapartida, há o silêncio eloquente, como se verá em outro conto roseano, Sarapalha. Ou, ainda, na figura do personagem Melim-Meloso, de Tutaméia, mais que personagem, "uma cantiga". Melim-Meloso ecoava a música das esferas. Em "Ouvindo uma violinha tocar, o senhor se lembra dele", o segundo capítulo, Gabriela destaca, entre outras cantorias do universo de João Guimarães, a canção de Siruiz, no Grande Sertão, a cantiga de alforria do menino Grivo, a musiquinha pra esquecer Pingo de Ouro cantada pelo pequeno e míope Miguilim, e mesmo o canto de Laudelim Pulgapé, que cantava para poder ter saudade e fazer Pedro Orósio se lembrar. E há ainda os cantos de guerra dos jagunços, de morte e fim.
No penúltimo capítulo, "Era o que de profundos dizia aquela cantiga memoriã", Gabriela trata do "conhecimento como decifração", tal como se dá com Riobaldo, que canta e conta para dar sentido à vida, para entender-se. Também aborda a figura dos mensageiros, ou "recadeiros", tanto a voz profética dos anjos quanto a viola endiabrada do cão-tinhoso. E há ainda, como a pauta que sustenta as notas, o tema da travessia, que trafega por toda a obra de João Guimarães e foi a inquietude de sua própria vida, assombrosa. Por fim, em "A cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras, o nenhum", há o término da canção, as notas que se evolam, anunciando o mundo que se deteriora. "A morte é algo que canta ou convida ao canto, na obra de Rosa", diz Gabriela. No arremate, que a autora nominou de "Cantigas de olêolá", chega-se transformado desta grande travessia pelas veredas de João, filho de seu Florduardo Rosa: "E quando uma cantiga nos faz fechar os olhos, dilatam-se os outros sentidos". E o leitor não resiste a ler ou ler de novo esta canção.