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Arqueologia conceitual

Publicado em 21 junho 2010

Por Fábio de Castro, Agência FAPESP

O patrimônio arquitetônico e artístico de Minas Gerais no século 18 está entre os mais importantes do país. Mas a tarefa de compreender e analisar esse acervo não é nada fácil, já que ele foi formado a partir de concepções de mundo, preceitos e doutrinas que se transformaram ou se perderam ao longo dos séculos seguintes. A partir da reconstituição histórica dos conceitos que orientaram as práticas artísticas e arquitetônicas setecentistas na cidade de Ouro Preto (MG), um estudo realizado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP) renovou o método de análise histórica da arte e da arquitetura coloniais, oferecendo uma compreensão alternativa daquele patrimônio. A pesquisa correspondeu à tese de doutorado de Rodrigo Almeida Bastos, defendida em 2009 na FAU-USP, com Bolsa da FAPESP.

Graças à contribuição inédita dada à historiografia da arquitetura brasileira, o trabalho venceu a segunda edição do Prêmio Marta Rossetti Batista de História da Arte e da Arquitetura, organizado pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. A premiação reconhece, a cada dois anos, a melhor pesquisa inédita sobre arte e arquitetura escrita no Brasil. A segunda edição incluía trabalhos produzidos desde 2005. O estudo de Bastos, intitulado A maravilhosa fábrica de virtudes: o decoro na arquitetura religiosa de Vila Rica, Minas Gerais (1711-1822), foi orientado por Mário Henrique Simão D"Agostino, da FAU-USP.

De acordo com Bastos, que é professor do Departamento de Análise Crítica e Histórica da Arquitetura e do Urbanismo da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o estudo propõe um método inédito para pesquisar a arquitetura do século 18, ao mesmo tempo em que apresenta os primeiros resultados da aplicação do método em análises de alguns dos exemplares mais paradigmáticos da arquitetura colonial mineira, como a Igreja matriz de Nossa Senhora do Pilar e as igrejas das ordens terceiras de São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Carmo, em Ouro Preto.

"A tese já apresenta resultados que são significativos para a renovação da compreensão das práticas artísticas e arquitetônicas daquele tempo. Além de levantar muita documentação primária e secundária, o trabalho reconstituiu historicamente dezenas de termos - como decoro, engenho, elegância, asseio, formosura, maravilha e perfeição - que perderam o sentido com a mentalidade romântica e moderna, mas puderam ser recuperados pela pesquisa", disse Bastos à Agência FAPESP.

O decoro era a doutrina central das artes no século 18. Preceito que estabelecia a adequação de conveniências das partes de uma obra, era a noção responsável por efetivar uma beleza que pudesse ser considerada adequada. O decoro, no entanto, foi esquecido há pelo menos um século. "Hoje, seria muito anacrônico falar nisso. No século 18, o conceito de beleza remetia a uma ideia de proveito e utilidade, isto é, a forma era a função da obra. Atualmente, a forma pode até seguir a função, mas são coisas separadas.

Reconstituir a noção de decoro que norteava a produção daquelas obras, no entanto, foi fundamental para compreendê-las e para fazer uma análise consistente", explicou. Segundo Bastos, o modo de compreender e fazer a arte e a arquitetura se transformou de forma decisiva nos últimos 200 anos, com o surgimento do romantismo, do positivismo, da psicanálise, da fotografia e de acontecimentos como a revolução francesa, a revolução industrial. Isso gera pontos de vista anacrônicos nas análises sobre a arquitetura setecentista, como, por exemplo, a visão dos modernistas que elegeram o barroco mineiro como o primeiro momento de síntese da arte genuinamente brasileira.

"Outro anacronismo perigoso é a ideia da originalidade, bastante recorrente na historiografia. Não se pode falar em originalidade no século 18, já que naquele tempo o preceito vigente era a imitação. Não existia a ideia moderna de plágio, nem de autoria, como as conhecemos hoje. A ideia do gênio romântico que cria a obra original ao entrar em contato com os padrões sublimes da natureza é do século 19. O homem do século 18 falaria em engenhosidade, mas nunca em originalidade", disse.

Sutileza de engenho O preceito dominante da imitação, segundo Bastos, ajuda a entender até mesmo as semelhanças na aparência de arquiteturas e cidades luso-brasileiras da época colonial. "Se o artista fosse bastante "engenhoso", ele poderia imitar causando variações sutis na obra produzida. O efeito desse artifício virtuoso causava o maravilhamento na sociedade daquele tempo, que reconhecia que o artista havia imitado, mas com certa novidade na operação. A esse artifício, se dava o nome de sutileza ou agudeza de engenho", destacou.

O trabalho de pesquisa teve início há dez anos, quando Bastos fez seu mestrado na UFMG. "A proposta era compreender a implantação de povoações em Minas Gerais à luz dos conceitos do século 18. A pesquisa mostrou uma grande proficuidade porque, ao compreendermos a implantação dessas povoações com os conceitos de época, pudemos renovar muitas das compreensões consagradas na historiografia, como as ideias de espontaneidade, irregularidade e desordem, por exemplo", disse.

Durante o doutorado, em 2007, Bastos já havia recebido outra premiação nacional: o 8º Prêmio Jovens Arquitetos, com um texto publicado na Revista IEB. No artigo, intitulado Regularidade e ordem das povoações mineiras no século 18, o autor demonstrou que, ao contrário do que se pensava, as povoações históricas de Minas Gerais, como Ouro Preto, Sabará e Mariana, não se desenvolveram espontaneamente, de forma irregular. "Aquelas povoações evidenciam a observação de preceitos de ordem, adequação e decoro relativos àquele tempo. Mas o conhecimento dessas práticas se perdeu nos séculos 18 e 19 e foi preciso também reconstituir aquelas noções", disse.