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Revista Amazônia

Amazônia, agora, é fonte de CO2

Publicado em 15 abril 2020

Por Marcos Pivetta | Revista Pesquisa FAPESP

A Amazônia está perdendo sua capacidade de retirar da atmosfera dióxido de carbono (CO2), principal gás responsável pelo aumento do efeito estufa, e de atuar como um freio ao processo de aquecimento global. Entre 2010 e 2017, a maior floresta tropical do planeta liberou anualmente, em média, algumas centenas de milhões de toneladas a mais de carbono do que retirou do ar e estocou em sua vegetação e solo. Nesse período, o saldo do chamado balanço de carbono da Amazônia, a soma das emissões e das absorções de dióxido de carbono ocorridas no bioma, favoreceu a coluna das liberações. O resultado faz parte de um amplo estudo internacional coordenado por brasileiros cujos resultados preliminares, ainda sem margem de erro calculada, foram apresentados no encontro da Sociedade Geofísica Americana (AGU) realizado entre 9 e 13 de dezembro em São Francisco, na Califórnia.

Com cerca de 5 milhões de quilômetros quadrados de floresta preservada, a Amazônia sul-americana era considerada, até pouco tempo atrás, um sumidouro de carbono, denominação dada aos lugares, atividades ou processos em que as absorções de CO2 são maiores do que as emissões. Quando ocorre o contrário e as emissões superam as absorções, os pesquisadores dizem que há uma fonte de carbono para a atmosfera. Se a liberação de CO2 é igual à retirada, o balanço de carbono é neutro. “No período analisado, a Amazônia se comportou como uma fonte consistente de carbono”, diz a química Luciana Gatti, coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), principal responsável pelas medições atmosféricas que embasam os resultados do trabalho. “Se excluirmos do balanço os dados dos anos de grandes secas, como 2010, 2015 e 2016, o bioma se torna quase neutro, mas as emissões ainda superam ligeiramente as absorções de carbono.” Os anos de fortes estiagens sabidamente diminuem a capacidade de a floresta retirar dióxido de carbono da atmosfera e favorecem um aumento significativo nas emissões desse gás.

O avanço das queimadas, que liberam diretamente para a atmosfera amazônica o carbono estocado na vegetação, e uma maior mortalidade de árvores decorrente de secas mais severas e prolongadas são apontados como os principais fatores que levaram a Amazônia a se tornar uma fonte de carbono nos oito anos analisados. Com menos vegetação por causa do desflorestamento ou com plantas menos saudáveis em razão da degradação florestal e das mudanças climáticas, as árvores fazem menos fotossíntese. Esse processo converte luz e dióxido de carbono em energia para as plantas, cuja biomassa é formada por compostos orgânicos à base de carbono, e libera oxigênio para a atmosfera. Do ponto de vista das mudanças climáticas, o efeito da fotossíntese é diminuir a quantidade de CO2 presente na atmosfera e direcionar o carbono desse gás de efeito estufa para o interior das plantas. Esse elemento químico permanece aprisionado na biomassa até que a vegetação seja queimada ou morra e se decomponha. Quando isso ocorre, o carbono volta para o ar na forma de CO2.

O balanço de carbono da Amazônia foi calculado a partir de medidas realizadas em 513 perfis verticais da atmosfera da região. Nos últimos oito anos, em média a cada duas semanas, um pequeno avião alça voo de um dos quatro pontos em que são sistematicamente coletadas as amostras de ar: dois mais no leste da Amazônia (Santarém e Alta Floresta), setor mais impactado pelo desmatamento, sobretudo em seu trecho sul; e dois na porção oeste (Rio Branco e Tabatinga), área mais bem preservada. As aeronaves captam amostras do ar ao longo de um perfil descendente, entre 4,4 quilômetros de altitude e 150 metros do solo. Cada perfil atmosférico é enviado para o laboratório de Gatti no Inpe onde são quantificados gases de efeito estufa, como monóxido de carbono (CO), metano (CH4) e CO2. Cada amostra não representa apenas a atmosfera do ponto imediatamente abaixo onde foi recolhido, mas o de todo o percurso percorrido pelo ar até chegar àquela região. Como os fluxos de ar na Amazônia fluem do leste, a partir do oceano Atlântico, para o oeste, os perfis atmosféricos da parte ocidental carregam, além das emissões locais, os compostos produzidos no setor oriental da floresta tropical.

Os resultados do trabalho, que ainda serão detalhados em um artigo a ser submetido a uma revista científica, são preocupantes porque a Amazônia se comportou como fonte de carbono nos quatro pontos onde foram coletadas amostras de ar. “No lado leste, a Amazônia se comporta como uma fonte significativa de carbono”, explica Gatti. “No oeste, é quase neutra, quase todo carbono emitido é compensado pelo que é absorvido.” A diferença de comportamento se deve basicamente ao status diverso de conservação dessas duas metades da floresta tropical. “A maior emissão de carbono no leste da Amazônia está fortemente relacionada com a quantidade de queimadas”, comenta o químico John B. Miller, do Laboratório de Pesquisa do Sistema Terrestre da Agência Nacional da Atmosfera e Oceano (Noaa) dos Estados Unidos, parceiro internacional do estudo e encarregado da apresentação dos resultados preliminares no evento da AGU em São Francisco.

Não é a primeira vez que um trabalho científico aponta que a Amazônia deixou de ser um sumidouro de carbono e virou uma fonte. Em artigo publicado na revista Nature em fevereiro de 2014, Gatti, Miller e seus parceiros mostraram que em um ano seco, 2010, a região tinha liberado mais carbono do que absorvido e em um ano úmido, 2011, as emissões eram praticamente iguais às absorções. O estudo usava a mesma metodologia do trabalho atual, mas abrangia um pequeno período de tempo. “Nossos resultados são consistentes com um paper de R. J. W. Brienen, publicado alguns anos atrás na Nature, que, baseado em dados de um censo florestal, indicava que o papel da floresta como sumidouro de carbono estava diminuindo com o passar do tempo”, diz o biogeoquímico Emanuel Gloor, da Escola de Geografia da Universidade de Leeds, no Reino Unido.

Naquele estudo, liderado por colegas de Leeds e com participação de pesquisadores de países amazônicos, os pesquisadores coletaram em campo dados da evolução da biomassa em 321 trechos da floresta ao longo de três décadas. Constataram que, durante a década de 1970 e parte dos anos 1980, a Amazônia se comportara como um sumidouro de carbono. Sua vegetação crescia e retirava grandes quantidades de CO2 da atmosfera, impulsionada possivelmente pelo chamado efeito de fertilização promovido pela alta concentração de dióxido de carbono na atmosfera (o excesso desse gás estimularia um maior crescimento de vegetação). Mas, com o aumento da mortalidade de árvores, possivelmente em razão de mudanças climáticas, que torna a Amazônia mais quente e com um período de seca mais prolongado, o peso desse efeito foi diminuindo. Na década passada, a capacidade de a floresta tropical retirar carbono da atmosfera era um terço menor do que nos anos 1990, segundo o estudo.

Para o climatologista Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), os resultados do trabalho de sua colega do Inpe, onde ele fez toda sua carreira, sinalizavam que as mudanças ambientais na Amazônia ocorrem a um ritmo mais acelerado que o previsto. “Projetávamos que a região pudesse virar uma fonte de carbono somente daqui a 30 anos”, explica Nobre, que não participou do estudo feito por Gatti e seus colaboradores. “Mas a parte sul da Amazônia já parece realmente comprometida, a caminho da savanização.” Este termo é usado para designar o processo que leva à substituição de áreas originalmente compostas de florestas densas, típicas de climas tropicais úmidos, por uma vegetação mais esparsa, como a do Cerrado, característica de zonas quentes e secas. Essa alteração influencia o balanço de carbono. Florestas retiram mais carbono que as savanas.

Na avaliação de Nobre, os novos dados indicam que não se trata de um cenário de exceção, que reflete apenas um ano muito seco ou uma parte pequena da região, mas de uma tendência de longo prazo. “Antes, as grandes secas ocorriam na Amazônia a cada 25 anos. Agora chegamos a ter três em 15 anos e os efeitos desse fenômeno se prolongam por anos”, comenta o climatologista. Nos períodos de forte estiagem, a mortalidade natural de árvores cresce e a fixação de carbono pela fotossíntese cai. Portanto, a vegetação retira menos dióxido de carbono da atmosfera. Para piorar o cenário, as queimadas e o desmatamento causados pelo homem, que apresentaram forte elevação em 2019, reduziram em quase 20% o tamanho original da Amazônia. Entre os compromissos assumidos no Acordo de Paris sobre o clima, o Brasil se comprometeu a eliminar o desmatamento ilegal na região Norte até 2030.

Fonte: Pesquisa FAPESP

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Biólogo Central das Notícias Ciência e Clima