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Revista Revide

Além da tecnologia

Publicado em 14 fevereiro 2020

Mercado de startups se divide entre o sonho do primeiro bilhão e inovações com propósitos para a sociedade

O Brasil tem hoje, segundo a Associação Brasileira de Startups (Abstartups), 13 mil startups. Muitas delas sonham em alcançar uma meta que se tornou sinônimo de sucesso no mundo dos negócios inovadores: ser um “unicórnio”. O termo, utilizado para definir as startups que possuem valor de mercado de 1 bilhão de dólares, representa um ponto de virada para muitos que fazem parte do ecossistema inovador brasileiro. Hoje, apenas 11 startups estão no seleto grupo de unicórnios nacionais. “Estimativas colocam o Brasil entre os dez países com mais unicórnios no mundo. É um número condizente com o fato de estarmos entre as dez maiores economias do planeta e torna-se até admirável se considerarmos que no Índice Global de Inovação ocupamos apenas a 66ª posição”, avalia Dalton Marques, gerente de Desenvolvimento do Supera Parque, que tem 74 empresas instaladas — sendo 62 delas no Supera Incubadora de Empresas de Base Tecnológica e 12 empreendimentos no Centro de Negócios.

Dalton também avalia o alto potencial para o crescimento das startups nacionais. “Há potencial para que essa lista de unicórnios brasileiros seja ampliada, principalmente ao olharmos para países como Índia, China e Estados Unidos. Tanto China quanto Estados Unidos têm, cada um, mais de 200 unicórnios. Além disso, com a redução da taxa de juros básica da economia em nosso país, investidores têm diversificado investimentos, inclusive, apostando mais em empresas de base tecnológica. Como a valorização de uma empresa está atrelada ao seu crescimento e recebimento de investimentos, a tendência é, portanto, que outras startups atinjam o valor de unicórnio no Brasil”, explica.

Apesar do sonho com a rara figura mitológica ser cada vez mais frequente entre os novos empreendedores, Dalton diz que esse não deve ser o objetivo de uma startup. “Colocar um produto no mercado, conseguir monetizá-lo, bem atender ao cliente e ter uma operação eficiente é que devem ser os objetivos. Não é demérito algum não ser um unicórnio se a empresa conseguiu ser bem-sucedida. Nenhum empreendedor deve carregar a pressão de sê-lo”, diz.

Ricardo Agostinho, CEO da Pluris Aceleradora, que tem 13 startups aceleradas, também destaca que, para atingir qualquer resultado expressivo, é necessário ter foco em resultados. “Além de sempre pensar no mercado global no momento de traçar as estratégias de negócios, é preciso saber identificar oportunidades, ser resiliente, avaliar rodadas de investimento, focar em tecnologia, criar serviços que conquistem o público e resolvam problemas reais”, avalia.

Tratamento Inovador

A In Situ Terapia Celular atua em parceria com Homocento, da USP Ribeirão Preto, para o desenvolvimento dos curativos feitos a partir das células-tronco. “Usamos o banco de células do Hemocentro para desenvolver os curativos e fazer a impressão em 3D. Depois de pronto, são como uma lente de contato, sendo aplicado nas feridas e ajudando no processo de cicatrização”, explica a bióloga Carolina Caliari, fundadora da startup, que, além da área de pesquisa e administração, já tem dois estagiários.

Assim que a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sair, a empresa planeja começar os teste clínicos até o final de 2020 e os curativos já podem estar disponíveis para paciente nos próximos dois anos. “Já temos estrutura para atender a esse mercado”, conta a fundadora. Ela explica que, inicialmente, a tecnologia deve chegar ao mercado por meio de hospitais particulares. “Nosso objetivo é levar o tratamento ao Sistema Único de Saúde (SUS)”, conta.

Hoje, já existem soluções com células-tronco disponíveis, mas desenvolvidas especificamente com as células dos próprios pacientes. O biocurativo da In Situ é feito com células-tronco extraídas de cordões umbilicais de diferentes recém-nascidos, que são misturadas a um gel desenvolvido pela empresa e transformadas em uma biotinta, colocada na impressora 3D, que produz os curativos, semelhantes a lentes de contato, conforme comparou Carolina. Ela acrescenta, ainda, que os curativos liberaram fatores importantes para o crescimento das células da pele. Assim, elas se proliferam e ajudam a cicatrizar a ferida. O tratamento já se mostrou eficaz em animais.

Inovação pela saúde

Fazer a diferença na vida das pessoas e resolver problemas reais é o propósito da startup In Situ. Bem diferente do mundo da fantasia dos unicórnios, o sonho da fundadora e pesquisadora, Carolina Caliari, é que os produtos desenvolvidos pela empresa, que faz parte do ambiente da Supera e é acelerada pela Pluris, favoreçam os usuários. “Se tivermos sucesso no negócio e chegarmos ao primeiro bilhão, ótimo. Contudo, nosso objetivo é levar anos de pesquisa para favorecer as pessoas e colocar em prática todo o estudo e fazer a diferença na vida de quem precisa”, conta.

Na pesquisa, a bióloga Carolina desenvolveu um biocurativo produzido a partir de células-tronco e que é produzido por uma impressora 3D. A tecnologia, que agora aguarda permissão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para testes práticos, é um projeto que começou há 15 anos e objetiva a cicatrização de feridas crônicas ou queimaduras. “Fiz mestrado e doutorado com foco no uso das células-tronco para a cicatrização de feridas. Fui aluna do médico Júlio César Voltarelli [1948 - 2012] e tive a oportunidade de aprender muito com um dos pioneiros em pesquisa com células-tronco no Brasil.

A In Situ nasceu para que eu pudesse transformar o que desenvolvemos no âmbito acadêmico em benefício para as pessoas que precisam”, conta.

Assim, em 2016, nasceu a startup, por meio de um financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Incubada na Supera, a empresa concluiu o laboratório no final de 2018 e adquiriu uma das primeiras impressoras 3D vendidas no Brasil. Recentemente, entrou no programa de aceleração da Pluris. “Captar recursos é um desafio muito grande. Conseguimos evoluir com o apoio da estrutura tecnológica do Supera, o lado operacional do negócio com a Pluris. Essa rede de apoio é fundamental para os empreendedores, principalmente na área da saúde”, conta.

Zebras da inovação

Além da captar recursos, o início de uma startup é sempre um período muito delicado, segundo Ricardo Agostinho, da Pluris. “Exige investir tempo, energia e dinheiro na ideia, promovendo inúmeras validações e correções, e tudo isso em um ambiente de altíssima incerteza. É preciso estar disposto a trabalhar duro no projeto por muitos anos, além de ter resiliência para resistir às adversidades. Superados os desafios da etapa inicial, depois surgem outras dificuldades, como a gestão de pessoas e o processo de expansão do negócio”, descreve.

Tudo isso foi o que aconteceu com Carolina, que, ao lado das pesquisadoras Adriana Manfiolli, Juliana Magro Ribeiro, também teve de começar a pensar no lado operacional. “Essa parte de administração foi bem difícil, porque sou da área médica e não tinha muita noção”, conta. Hoje, a equipe da In Situ também conta com Pedro Massaguer, especialista em gestão estratégica e economia de negócios.

Prosperar em um cenário de tantos desafios faz com que as startups com um propósito, além do sucesso financeiro se tornem verdadeiras “zebras” no mercado, ao conquistar um espaço em um cenário que, por muitas vezes, prioriza a liquidez e o crescimento rápido dos negócios. Com o objeto de enaltecer essas startups, três anos depois dos primeiros unicórnios, nasceu, nos Estados Unidos, o movimento das zebras. O animal foi usado como símbolo, porque ao contrário dos unicórnios, são seres reais e que, na natureza, sobrevivem e prosperam juntas, colaborando e não competindo. O movimento prega a inovação e o desenvolvimento econômicos das startups com propósito e não apenas lucro exponencial no mercado.

Perfil potencial

Dentro desse conceito, destacam-se startups com serviço que esteja alinhado às dores do mercado e tenham a capacidade de facilitar a vida das pessoas, segundo Ricardo, da Pluris. “Além do quesito inovador, é necessário que o mercado potencial seja relevante, ou seja, que muitas pessoas sintam a necessidade do seu produto”, pontua.

Saber lidar com as incertezas do mercado também é um desafio para quem está começando a trajetória, destaca o empresário Maurilio Biagi Filho. “O empreendedor tem de ser uma pessoa autoconfiante e proativa. Quem não gosta de correr riscos não conquistará sucesso no mercado. Não dá para ficar esperando que as oportunidades apareçam, é preciso criar oportunidades. Sem iniciativa não se cresce. O comprometimento também é fundamental. Para isso, é necessário estipular um objetivo a ser alcançado e fazer um plano de negócios para colocar a ideia em prática. Por fim, é preciso muita persistência para não desistir após a primeira dificuldade que aparecer”, aconselha.

Maurilio também destaca que os setores da saúde, biotecnologia, agronegócio e tecnologia da informação são fortes e com grande potencial na região de Ribeirão Preto. Com anos experiência em um mercado tradicional da região, ele diz que uma das principais mudanças no mercado local nas últimas décadas foi o ambiente de incentivo à inovação que possibilita a transformação de conhecimento em tecnologia. “Nesse sentido, o papel da parceria entre USP, Prefeitura e governo do estado na criação do Supera Parque Tecnológico foi fundamental”, conclui.

ENTENDA

Startup: Uma empresa nova, com grande potencial de crescimento que se destaca pela tecnologia e inovação.

A febre dos unicórnios: A primeira pessoa a usar a palavra unicórnio foi a investidora americana Aileen Lee em 2013. Em seu artigo “Bem-vindo ao clube dos unicórnios: aprendendo com as startups de 1 bilhão de dólares”, ela mapeou somente 39 startups bilionárias no mundo naquele ano. A ideia da palavra unicórnio era brincar com o fato de que uma empresa como essa seria rara, assim como a criatura mágica da mitologia.

As zebras do mercado: Liderado por quatro mulheres, Mara Zepeda, Aniyia Williams, Astrid Scholz e Jennifer Brandel, fundadoras de startups nas áreas de moda, comunicação e tecnologia, o movimento das zebras defende que as startups precisam conciliar lucro e propósito e não somente o objetivo de alcançar bilhão no valor de mercado, tendo, em muitos casos, uma operação em prejuízo.

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