Notícia

O Liberal (PA)

Água pede socorro

Publicado em 27 agosto 2008

Depois de percorrer oito quilômetros nas águas da Represa do Salto Grande, em meio às ilhas de aguapés e materiais como garrafas pet, tambor e galhos de árvores, chega-se a um ‘gargalo’ no final da Praia Azul. A passagem do pequeno barco só foi possível graças à agilidade de Nilvaldo Cucati, membro da diretoria da ONG (Organização Não-Governamental) Barco Escola da Natureza. Os bancos de areia têm diminuído gradativamente a profundidade do rio. Segundo João Carlos Pinto, idealizador do projeto Barco Escola, na década passada a profundidade chegava a 12 metros; hoje, há trechos que chegam a menos de um metro de altura.

É possível saber o momento exato quando se deixam as águas da Represa Salto Grande e começa a navegar no Rio Atibaia. As águas verdes pela presença das algas na represa dão lugar a um tom marrom que toma todo o leito do Atibaia. A presença de várias espécies de pássaros ao longo das margens do rio em Paulínia é outro diferencial entre os dois mananciais. A proximidade das construções em disputa com a vegetação ribeirinha dá um tom ainda mais ameaçador do que o cenário da represa de Americana.

Um estudo feito pela estudante de geologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Joyce Rodrigues da Cruz, apontou a ocupação urbana como uma ameaça ao minipantanal que há ali, ao mesmo tempo em que a falta de políticas para conter os impactos sócio-ambientais contribui para as irregularidades.

A pesquisa intitulada “Mapeamento dos Impactos Socioambientais no Entorno da Represa de Salto Grande no município de Americana” foi fomentada pela Fapesp (Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo) teve como foco buscar entender os processos ocasionados na área decorrentes da expansão urbana.

De acordo com o estudo, as formas de uso e ocupação da terra no entorno da represa, destinadas ao uso urbano, vêm se intensificando nos últimos anos, ocasionando diversos tipos de impactos no manancial, entre eles o uso e ocupação irregular da terra, aumento dos processos erosivos, soterramento de nascentes, entre outros.

Joyce classificou a área em torno do minipantanal como sem nenhum planejamento e com uma quantidade de areia sedimentada muito grande para o leito do rio. Para rever parte dos da nos causados ao meio ambiente e evitar mais impacto na área de preservação, o estudo sugere políticas de planejamento adequadas para a ocupação irregular. “É preciso delimitar o tipo de ocupação, acionar os órgãos ambientais e promover o replantio”, acrescentou a estudante.

O projeto de pesquisa mapeou os impactos socioambientais existentes na área delimitada de 250 metros do entorno da Represa de Salto Grande, usando técnicas de geoprocessamento, processamento e interpretação de imagens do satélite, e fotografias aéreas em meio digital, bem como de verificações em campo com suporte de receptor de navegação GPS, para mapeamento dos impactos socioambientais.

Os mapas temáticos produzidos (impactos socioambientais, uso e ocupação da terra) corroboram para constatação que, nas últimas décadas, um processo de urbanização crescente vem ocorrendo no entorno da represa.

Em razão dessas mudanças, observou-se uma degradação crescente no entorno da represa, vide a ocupação irregular das áreas de preservação, presença de processos erosivos, soterramento de nascentes, desmatamento; as sim como no próprio manancial, onde vem ocorrendo aumento no despejo de resíduos, da carga de sedimentos, a proliferação de vegetação aquática decorrente da poluição e diminuição da fauna local.

A pesquisa demonstrou a forte relação que existe entre as formas de uso da terra no entorno e a contribuição para os impactos socioambientaís, sendo necessária, portanto, uma política de planejamento e gestão mais eficiente por parte do poder público no sentido de disciplinar o uso sus tentável da represa.