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A volta do mutum-de-alagoas

Publicado em 06 fevereiro 2020

Por Marcos Pivetta | Revista Pesquisa FAPESP

No dia 25 de setembro, três machos e três fêmeas do mutum-de-alagoas, ave considerada extinta na natureza há 40 anos, foram reintroduzidos em seu hábitat, a Mata Atlântica alagoana. Os três jovens casais são descendentes de animais criados em cativeiro em um programa de pesquisa e conservação que, a partir de apenas três exemplares da espécie Pauxi mitu, evitou o desaparecimento completo desse galináceo.

Eles foram soltos dentro de uma reserva privada com quase mil hectares de mata contínua em Rio Largo, município distante pouco mais de 20 quilômetros de Maceió. A reserva tem um viveiro de 400 metros quadrados, mas as aves, todas com idade entre 1 e 2 anos, não ficam presas. Podem se locomover por toda a propriedade, que se conecta às áreas vizinhas, tomadas por canaviais.

Mata Atlântica e os ciclos da vida

Os machos são monitorados por meio de um transmissor de VHF acoplado em seu dorso, que permite saber a posição em tempo real e registra os deslocamentos ao longo do dia. As fêmeas não carregam o dispositivo. Devido a sua localização no corpo do animal, o transmissor seria um empecilho para o ritual de acasalamento.

Uma semana depois da soltura das aves, a Polícia Ambiental encontrou um dos machos sem vida durante uma de suas rotineiras rondas pela região. O biólogo Thiago Dias, que se mudou para um alojamento construído dentro da reserva para monitorar de perto os mutuns como parte de seu trabalho de doutorado em curso no Programa de Pós-graduação em Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), recebeu a notícia da perda.

De volta para a Mata Atlântica

Embora triste, a morte não chega a ser muito preocupante devido às circunstâncias em que ocorreu. Não há indícios de que o macho tenha sido alvo de caçadores, cuja ação no passado levou a espécie a desaparecer das matas alagoanas.

“A morte está relacionada a causas naturais”, explica Dias. “As condições da ave indicam que foi alvo de algum predador, provavelmente um cachorro selvagem.” Uma das funções do biólogo é entrar na mata periodicamente para, com o auxílio de um receptor, receber os dados que indicam a posição das aves.

“Faz parte do trabalho de reintrodução de uma espécie na natureza a ocorrência de perdas”, diz Luís Fábio Silveira, curador da Seção de Ornitologia do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP).

Luiz Fábio é um dos pesquisadores envolvidos nos trabalhos que levaram ao renascimento do mutum, primeiro em cativeiro e agora na natureza. “Se houver mais mortes por causas naturais, podemos antecipar a soltura de novos exemplares em Alagoas.”

O plano inicial prevê a reintrodução de 15 casais de mutum até 2021. Atualmente, existem cerca de uma centena de exemplares puros da espécie mantidos pela Crax Brasil – Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre, um criadouro de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. As aves reintroduzidas em Alagoas saíram de lá.

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