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Biólogo

A fragilidade do mangue

Publicado em 25 novembro 2020

Por Carlos Fioravanti

A fragilidade do mangue: Estudos recentes detalham vulnerabilidade e diversidade desses ambientes litorâneos no Brasil.

A fragilidade do mangue

25/11/2020 ::  Por Carlos Fioravanti

Especialistas do Rio de Janeiro, do Pará e do Amapá construíram uma metodologia de análise de vulnerabilidade dos manguezais a eventuais vazamentos de petróleo no mar e detalharam a diversidade desses ambientes litorâneos na costa norte, entre o Amapá e o Maranhão, que constitui uma das mais novas áreas de exploração de gás e petróleo do país.

Por meio de simulações, que podem ser feitas no site do projeto, o método indica as trajetórias mais prováveis do óleo ao longo do litoral da costa norte e detalha a vulnerabilidade no interior dos estuários, rios e manguezais em quatro áreas-piloto.

Toda a faixa de manguezais do Amapá ao Pará é muito sensível aos impactos de vazamentos de óleo, por causa de variações de até 10 metros [de altura] entre a maré baixa e a alta, que faz com que a água do mar penetre dezenas de quilômetros”, diz o oceanógrafo Mário Soares, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e um dos coordenadores do Projeto Costa Norte.

Defesa ambiental

“Ao conhecerem as prováveis trajetórias de vazamento de óleo, os gestores das unidades de conservação da costa norte poderiam identificar as áreas com maior risco de serem atingidas, caso ocorra algum vazamento no mar, e se necessário acionar as medidas preventivas de defesa ambiental”, diz o oceanógrafo Júlio Pellegrini, diretor-geral da ProOceano, empresa coordenadora do projeto que participou do desenvolvimento do método de análise da vulnerabilidade de manguezais à contaminação por petróleo, apresentado parcialmente em um artigo publicado em maio na revista científica Journal of Coastal Research.

O trabalho foi financiado pela Enauta, empresa petrolífera brasileira que adquiriu os direitos de exploração de três das 38 áreas da região leiloadas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) em 2013, em cumprimento à lei que determina o investimento em pesquisas ou o repasse ao governo de 1% do faturamento. 

Alta diversidade

As informações que alimentam o programa de simulações do Projeto Costa Norte resultam de um ano de coletas mensais sobre a variação das correntes marinhas. “Cobrimos uma área de até 5 mil metros de profundidade, com 1.138 possíveis pontos de vazamento de petróleo”, diz Pellegrini. 

O levantamento incluiu sobrevoos, análises de imagens de satélite e o equivalente a 150 dias de caminhadas de reconhecimento em meio ao lamaçal e às árvores que caracterizam o ambiente. Na região entre o Amapá e o Maranhão, que abriga a maior faixa contínua de manguezais no mundo, emergiram variações que os próprios pesquisadores desconheciam. 

No Maranhão, os manguezais variam desde florestas altamente desenvolvidas até florestas com vegetação arbustiva e uma salinidade três vezes maior do que a do mar, por causa da evaporação contínua, enquanto no Amapá e no Pará, inversamente, predominam manguezais com vegetação vicejante e baixas salinidades, em razão das chuvas contínuas. 

“Para chegar a uma região de estudo no Amapá, demoramos quatro dias”, conta Soares. “No norte da Ilha de Marajó, tivemos de dormir em fazendas e esperar horas até chegar o momento exato de seguir viagem, de acordo com a variação das marés.”

Espécies de mangue

Há também variações dentro de uma mesma área. Depois de examinarem a vegetação de 1.186  quilômetros quadrados [km2] dos manguezais dos municípios de São Caetano de Odivelas e Soure, no Pará, Sucuriju, no Amapá, e Turiaçu, no Maranhão, pesquisadores da Uerj, das universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Pará (UFPA) e do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa) propuseram uma classificação baseada na composição das três espécies de mangue.

São elas: mangue-preto ou siriúba (Avicennia spp.), mangue-vermelho (Rhizophora spp.) e mangue-branco ou tinteiro (Laguncularia racemosa) e no desenvolvimento das florestas (árvores altas, médias e baixas), como detalhado em um artigo publicado também em maio na Journal of Coastal Research. Nas quatro áreas estudadas, eles identificaram 51 tipos de florestas, também chamados de fitofisionomias. 

As frágeis faces dos manguezais

 

Já em Fernando de Noronha se formou um bosque com uma única espécie, o mangue-branco (Laguncularia racemosa), com 4 metros de altura e flores pequenas brancas, encontradas também ao longo de todo o litoral brasileiro. Os pesquisadores ainda tentam entender como o mangue-branco poderia ter colonizado o arquipélago.

“As correntes marinhas vão de Fernando de Noronha para o continente e os propágulos [estruturas reprodutivas análogas a sementes] dessa espécie vivem por até um mês. Em teoria, os propágulos deveriam ter vindo da África, mas o tempo que levaria para chegar ao arquipélago seria muito maior do que 30 dias”, comenta a oceanógrafa Yara Schaeffer-Novelli, professora aposentada do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), que nessa investigação colabora com o biólogo Clemente Coelho Junior, da Universidade de Pernambuco (UPE). 

Uma das maiores especialistas brasileiras em manguezais (ver Pesquisa FAPESP no 244), Novelli apresentou em junho de 1990 na revista científica Estuaries uma classificação dos manguezais brasileiros, dividindo-os em oito grandes áreas ao longo do litoral brasileiro, desde a foz do rio Oiapoque, no Amapá, até Laguna, em Santa Catarina, de acordo com as variações de maré, radiação solar, temperatura e umidade. “A mesma espécie de Rhizophora pode chegar a 40 metros [m] de altura em uma região de chuva abundante no Amapá e não passar de 1,5 m em Santa Catarina, onde o inverno é mais frio, expressando uma grande capacidade de adaptação a condições ambientais diferentes”, diz ela. “Em comum”, acrescenta, “as espécies típicas de manguezal, embora vivam em ambientes lavados duas vezes por dia por maré, se comportam como plantas de deserto, com mecanismos que evitam a perda de água doce”.

Artigos científicos:

CARVALHO, G. V. et al. 2020. Methodology to evaluate the coastal susceptibility to oil spills originated in large marine areasJournal of Coastal Research. v. 95, p. 1-5. 20 mai. 2020.
ALMEIDA, P. M. M. et alMangrove typology: A proposal for mapping based on high spatial resolution orbital remote sensingJournal of Coastal Research. v. 95, p. 1-5. 26 mai. 2020.
SCHAEFFER-NOVELLI, Y. et alVariability of mangrove ecosystems along the Brazilian coastEstuaries. v. 13, n. 2, p. 204-18. jun. 1990.
ROVAI, A. S. et al. Ecosystem-level carbon stocks and sequestration rates in mangroves in the Cananeia-Iguape lagoon estuarine system, southeastern BrazilForest Ecology and Management. v. 479, 118553. 9 set. 2020.

Fonte: As frágeis faces dos manguezais /Revista Fapesp  CC BY-ND 4.0