Notícia

Diário da Tarde

A Fapesp e o genoma

Publicado em 04 março 2000

Já se tomou lugar comum dizer que o século XXI é o século do saber e do conhecimento. Realmente, com o avanço das novas tecnologias, não adianta ter mão-de-obra barata ou mesmo dispor de capital. Se não dispusermos de conhecimento em todos os sentidos, não conseguiremos competir com os países desenvolvidos, que estão a cada dia recebendo maiores rendimentos provenientes dos trabalhos de seus cientistas e técnicos e patenteando mais e mais o resultado de suas pesquisas. Aqui, no Brasil, os projetos da Fundação de Apoio à Pesquisa de São Paulo (Fapesp) mostram a importância de criarmos conhecimentos que possam ser transformados em atividades econômicas. A Folha de S. Paulo divulgou com destaque o trabalho que a Fapesp vem realizando em um dos setores mais importantes da economia agrícola do próprio Estado e do País, a citricultura. Este setor está batido, atualmente, por duas terríveis pragas, o cancro cítrico, produzido por uma bactéria parasita, a Xanthomonas citri, e o amarelinho, ocasionado pela Xylella fastidiosa. O projeto financiado e coordenado pela Fapesp, com a colaboração do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), pode representar, segundo alguns expertos, a entrada do Brasil para o Primeiro Mundo na área da pesquisa e da Biotecnologia. Os pesquisadores paulistas conseguiram o grande feito de decifrar o genoma da praga causadora do amarelinho, que vinha ameaçando disseminar-se por toda a citricultura brasileira. As regiões mais afetadas hoje são o Triângulo Mineiro e o Estado de São Paulo, sendo que o prejuízo nacional ultrapassa os 100 milhões de dólares por ano. O trabalho foi intenso. O genoma desvendado, às. Xylella, é composto de 2.731.358 (dois milhões, setecentos e trinta e um mil, trezentos e cinqüenta e oito) pares de moléculas (bases nitrogenadas), que formam 2.937 genes, que constituem o referido genoma. Mas o que é um genoma? Em poucas palavras e em linguagem não-especializada, genoma é um conjunto de bases nitrogenadas que formam um gen. É como um grupo de letras que forma uma palavra, isto é, a variação da colocação das letras resultará em uma determinada palavra. Assim, a variação das bases nitrogenadas formará um certo gen. Um conjunto de genes forma o cromossoma que existe nas células. Por sua vez, um conjunto de cromossomas constitui o genoma. As pessoas, mesmo aquelas que não estudaram Biologia, já ouviram falar no DNA, capaz de caracterizar se uma pessoa é ou não o pai de outra. Seria mais ou menos isto. Os paulistas, para quem temos que tirar o chapéu, tiveram sucesso porque, entre outros fatores, conseguiram reunir um grupo de pesquisadores de alto nível e financiar o trabalho conjunto de cerca de 35 laboratórios, com um custo aproximado de 15 milhões de dólares. Por isso, fatos como esse merecem ser divulgados aos leitores não-especializados, a fim de que apóiem os esforços dos pesquisadores brasileiros e para que os governos, com o auxílio do setor privado, se sensibilizem e nos ajudem a sair da humilhante condição de dependentes dos países desenvolvidos na geração de conhecimentos. Pelo menos, São Paulo já deu um passo gigantesco na direção da Ciência do Primeiro Mundo. Nossos governantes, ou boa parte deles, pensam somente em estradas e obras e se esquecem de que o grande caminho do desenvolvimento é hoje o conhecimento. Para se ter uma idéia da importância do projeto da Fapesp, com as pesquisas que decifraram o genoma da Xylella fastidiosa, os agricultores poderão estabelecer mecanismos de combate a esta praga, preservando ou ampliando os ganhos da citricultura, atualmente, responsável por 18% do PIB do Estado de São Paulo. Claro, que, depois desse sucesso espetacular, cabe aos cientistas paulistas colocar em prática os conhecimentos adquiridos, levando aos citricultores brasileiros, e quiçá mundiais, os processos para a extinção da praga do amarelinho. Que o restante do País siga o exemplo do Estado de São Paulo. ALUÍSIO PIMENTA MEMBRO DA AML, EX-MINISTRO DA CULTURA, EX-REITOR DA UFMG E DA UEMG