Notícia

Biólogo

A automultilação do escorpião

Publicado em 15 abril 2021

A automultilação do escorpião: Para fugir de predador, escorpião decepa o próprio abdome e perde órgãos vitais, mas consegue sobreviver e até se reproduzir.

A automultilação do escorpião

15/4/2021 :: Por Gilberto Stam

O veneno de Ananteris balzani, assim como o da maioria dos escorpiões, é fraco e pouco eficaz para deter predadores como ratos e corujas.

Mas, quando apanhado pela cauda e prestes a ser devorado, o artrópode, um animal noturno de 2 a 3 centímetros de comprimento que vive em regiões rurais e se esconde na camada de terra e folhas secas sobre o solo (a serrapilheira), consegue escapar com uma estratégia radical: agarra-se ao solo com as pernas e faz movimentos vigorosos até provocar o rompimento de parte da cauda.

Geralmente, o trecho mutilado cai se contorcendo no chão, o que ajuda a distrair o predador enquanto o escorpião foge. As consequências reprodutivas do mecanismo, exclusivo das 16 espécies do gênero Ananteris, foram analisadas em detalhes pela primeira vez em artigo publicado na revista The American Naturalist em 26/1.

“Além do ferrão, eles perdem parte do abdome, que inclui a parte posterior do intestino, do sistema nervoso e do sistema circulatório, estruturas que não se regeneram”, relata a bióloga Solimary García Hernández, que fez o trabalho como parte do doutorado na Universidade de São Paulo (USP), com financiamento FAPESP, e também transformou os achados em história em quadrinhos.

“Sem o ânus, o animal não consegue mais defecar e passa o resto da vida em permanente constipação.” A mutilação diminui a expectativa de vida, que em suas observações caiu de 1 ano para 7 meses entre os machos e de 18 meses para 1 ano entre as fêmeas, e diminuiu o sucesso reprodutivo das fêmeas. Mas salvou a vida dos animais, tanto machos quanto fêmeas, que sobreviveram e se reproduziram.

Mutilação que salva

O mecanismo, chamado de autotomia, é comum entre insetos, aranhas, lagartos, caranguejos, estrelas-do-mar e polvos. Mas nesses animais a parte amputada não contém órgãos vitais e, muitas vezes, é regenerada integralmente. Isso acontece no documentário sul-africano Professor polvo (2020), em que o cinegrafista fica deprimido quando o molusco perde um tentáculo para um tubarão, até vê-lo ressurgir por completo. Mesmo a minhoca, que perde intestino e ânus, regenera-se e continua defecando normalmente.

“Escorpiões de outros gêneros, ainda que também tenham o veneno fraco, não fazem autotomia da cauda”, ressalta o biólogo Glauco Machado, orientador de Solimary, que também assina o artigo. Ao contrário da abelha, que aferroa só uma vez, o escorpião consegue modular a quantidade de veneno de acordo com tipo e tamanho da presa, retirar o aguilhão e continuar ferroando. É uma ferramenta importante de caça e de defesa, e abrir mão dela é uma perda considerável.

Nos experimentos, a autotomia foi induzida com uma pinça, que simulou o predador. Sem o ferrão, os escorpiões passaram mais tempo caçando e só conseguiram capturar presas pequenas – como insetos – usando as garras, ou pedipalpos, que são pinças ao lado da boca. Para caçar mais, tiveram também de se movimentar mais, expondo-se a predadores, segundo artigo da revista Animal Behaviour publicado em abril de 2020.

Autotomia

Novos desafios também apareceram na cópula. O macho com a cauda encurtada, que balança de um lado para o outro para impressionar a fêmea, perdeu parte do poder de atração. Eles compensaram estimulando as fêmeas com movimentos improvisados, como usar as garras para dar leves mordidas nas garras da fêmea ou usar o primeiro par de pernas para massagear, com um ritmo acelerado, a abertura genital da fêmea.

Depois de conquistá-la, o macho a conduz para que passe por cima do esperma, que ele deposita em uma estrutura que parece um pequeno pedestal. Mesmo amputado, ele encosta no chão a ponta do que restou da cauda, servindo como apoio para puxar a fêmea, que tem o dobro do seu peso.

Contornando as limitações, os machos mutilados tiveram sucesso reprodutivo idêntico ao dos intactos, ainda que demorassem um pouco mais para fecundar a parceira. “Em casos raros, esse tempo era até quatro vezes maior, talvez por uma relutância da fêmea ao perceber que o cortejo era diferente”, conjectura Solimary.

Já as fêmeas sofreram mais consequências quando mutiladas. As intactas produziram 35% mais ninfas — os filhotes dos aracnídeos — do que as mutiladas. O excremento acumulado nos intestinos pode ter diminuído o espaço para a gestação, já que os escorpiões são vivíparos: os embriões se desenvolvem dentro da mãe. Além disso, é possível que o excremento produza toxinas que matam alguns filhotes. Talvez isso contribua para que a prole das que não sofreram amputação tenha uma taxa de sobrevivência 54% maior. Mas a perda da cauda não deixa sequelas, e todas as crias que vingaram, no estudo, eram grandes e saudáveis.

Estudos:

GARCÍA-HERNÁNDEZ, S. e MACHADO, G. Fitness implications of nonlethal injuries in scorpions: females, but not males, pay reproductive costs. The American Naturalist. v. 197, n. 3. mar. 2021.
GARCÍA-HERNÁNDEZ, S. e MACHADO, G. “Tail” autotomy and consequent stinger loss decrease predation success in scorpions. Animal Behaviour. v. 169, 157 e 167. 26 set. 2020.
MATTONI, C. L. et al. Scorpion sheds “tail” to escape: Consequences and implications of autotomy in scorpions (Buthidae: Ananteris). PLOS ONE. 28 jan. 2015.

Fonte: Mutilação que salva/Revista FapespCC BY-ND 4.0

Essa notícia também repercutiu nos veículos:
Planeta online Brasil Amazônia Agora