Notícia

Revide

A arte de cuidar

Publicado em 18 outubro 2021

Por Paulo Apolinário

No dia 18 de outubro é celebrado o Dia do Médico. A pandemia do Covid-19 acendeu um alerta sobre a importância da profissão, as condições de trabalho e a necessidade de valorizar os profissionais

O Dia do Médico, celebrado em 18 de outubro, é uma homenagem a São Lucas, o Evangelista. Nascido em Antioquia, atual Antáquia na Turquia, Lucas exerceu o oficio da medicina, o que lhe concedeu o título de padroeiro dos médicos. Apesar de não ser uma data celebrada em todo o mundo, países de maioria católica comemoram o Dia do Médico no em 18 de outubro como, Itália, Portugal, França e Espanha, além do Brasil.

Desde os sacerdotes da antiguidade até os médicos atuais, zelar pela saúde das pessoas e da sociedade é visto como um trabalho indispensável. A pandemia do coronavírus ressaltou a importância dessa profissão em todo o mundo e acendeu um alerta para a formação, condições de trabalho e valorização dos profissionais de saúde. Em Ribeirão Preto, referência nacional na formação e pesquisa científica em Medicina, não poderia ser diferente. Para falar sobre os desafios e experiências na medicina, a reportagem conversou com quatro médicos, coordenadores de cursos de medicina na cidade.

Educação no consultório

Atender gestantes e puérperas não é um trabalho fácil. Agora imagine atendê-las durante a pandemia do coronavírus. E o pior, com a desinformação atuando contra o trabalho dos médicos e colocando a vida das mães e das crianças em risco. Esse é o contexto em que Carla Campos Petean Silva, médica e coordenadora do curso de Medicina da Estácio - Idomed, enfrenta nos últimos dois anos. "As pacientes que tem comorbidades associadas me impactam muito. Aquelas que já eram hipertensas, diabéticas etc. precisavam de um cuidado a mais. Era uma apreensão muito grande", comenta Carla. Apesar da tensão, nenhuma paciente atendida pela médica teve complicações causadas pela Covid-19. A cada retorno, as futuras mamães tiravam dúvidas e compartilhavam boatos que recebiam pelas redes sociais. "Toda consulta eu empenhava um tempo considerável para dar orientações. Era muito difícil combater as fake news, porque o linguajar delas é mais simples e apelativo do que o da Ciência. Era uma batalha corpo a corpo de traduzir os estudos científicos mais recentes e tranquilizar as mães", descreve Carla.

Toda essa paciência e didatismo não são por acaso. Além do amor pela medicina, Carla encara como uma “missão” de vida auxiliar na formação de novos médicos. Ser professora, dentro e fora da universidade, é algo que já faz parte da sua personalidade. Formada há 23 anos, ela passa para os alunos uma visão abrangente da medicina. “É olhar para um contexto que foca na prevenção e promoção da saúde, além do processo curativo e de reabilitação”, explica. Em relação a essa concepção da saúde que vai além do consultório, Carla avalia que o debate na academia tem avançado nesse sentido nos últimos anos. “Atualmente até gostaria de fazer a faculdade de novo”, brinca. “Hoje um diferencial dos cursos de medicina é o olhar para uma educação médica voltada para atenção primária, o incentivo do trabalho multiprofissional, além do contato com a pesquisa científica. Antes, esses eram assuntos muito pontuais. A pesquisa e extensão atualmente são muito maiores do que eram na minha época", acrescenta.

Trabalho e experiência

Uma reportagem, veiculada no início dos anos 1960, falava sobre a possível eficácia do "pó baiano", extraído da casca do ipê-roxo, no tratamento contra o câncer. Até hoje as propriedades medicinais dessa árvore são estudadas. Mas não é sobre essa descoberta que trataremos aqui, mas sim, como essa reportagem influenciou na descoberta pessoal de Reinaldo Bulgarelli Bestetti, Coordenador do curso de Medicina da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp). Quando viu a matéria, ficou fascinado pelas possibilidades que a área da saúde poderia lhe oferecer.

"Nessa época, a Santa Casa resolvia quase todos os nossos problemas de saúde. Enquanto esperava para ser atendido, ficava eu, criança, olhando os luminosos que indicavam quais médicos estavam presentes, e me perguntava se algum dia meu nome estaria ali. O curioso é que na minha família ninguém era médico. Queria entender como funciona o corpo humano, porque a gente fica doente, o que fazer para preservar a vida", lembra. Bestetti ingressou na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). O médico lembra que as aulas práticas eram ilustradas com riqueza de lâminas, peças anatomopatológicas, culturas microbiológicas e parasitárias, quimógrafos e experimentação animal, que hoje não é mais permitida. Já as aulas teóricas eram no modelo mais tradicional possível. “Atualmente, além das aulas práticas laboratoriais, utilizam-se metodologias ativas para o aprendizado cognitivo, recursos de tecnologia para demonstrações práticas e laboratório de simulação realística, que permite ao aluno treinar um determinado tipo de procedimento antes de executá-lo no cliente”, comenta.

Toda essa bagagem acumulada por anos de pesquisa e atuação médica foi posta à prova durante a pandemia. “A gestão acadêmica do curso de Medicina me consumiu não menos de 12 horas diárias de trabalho desde março de 2020, tamanha as dificuldades para reorganizar o processo ensino-aprendizagem. Tivemos que ler centenas artigos científicos desde o início da pandemia na tentativa de mitigar os efeitos dessa doença em nossos alunos e seus familiares, bem como em colegas docentes e não docentes.” Assim como muitos colegas de profissão, Bestetti utilizou quando necessário a tecnologia da videoconferência para atender de forma mais segura os pacientes. Como lição aprendida nesses dois anos de trabalho intenso, o médico propõe uma reflexão de que a humanidade, a despeito de toda a tecnologia disponível, ainda é frágil. “Devemos repensar imediatamente a nossa determinação de invadir os nichos ecológicos de outros animais. Devemos ter mais solidariedade entre os povos: a pandemia só vai acabar quando toda, toda a humanidade estiver vacinada", conclui.

Defesa da ciência

Ricardo Miranda Lessa, coordenador do curso de Medicina do Centro Universitário Barão de Mauá, é o filho do meio de três irmãos. Filho de um médico, professor titular do Departamento de Otorrinolaringologia da Universidade Federal da Bahia. Durante a infância e adolescência, acompanhou os passos do pai que dividia o tempo entre atender pacientes com a arte de exercer a docência em uma universidade pública. “Sempre admirei o respeito e reconhecimento não só dos seus pacientes como também dos alunos da graduação, residentes e em especial dos seus próprios colegas de trabalho. Isso vez a grande diferença na minha escolha pela medicina”, destaca. Lessa ingressou Federal da Bahia na turma de 1990 e ressalta as diferenças em relação ao ensino atual. A começar pelas metodologias de ensino e acompanhamento da aprendizagem, que hoje seguem uma linha mais ativa e participativa dos alunos se comparado ao método tradicional que era centrado no professor. Outra diferença, diz Lessa, são as tecnologias e inovações no ensino médico, como mesas que permitem o estudo da anatomia humana em 3D, com imagens realísticas e resolução que permitem um verdadeiro passeio dentro do corpo humano.

A pandemia foi um período de muito trabalho, aprendizado e desafios para Lessa. “Tive que aprender a lidar com uma doença até então desconhecida da humanidade. Desde como se paramentar para me proteger e também aos pacientes. Além de acompanhar diariamente os trabalhos e evidencias cientificas que revelavam à comunidade cientifica os mecanismos de agressão do vírus, as formas de abordar e tratar as fases da doença, mas especialmente como evitar a reduzir as suas altas taxas de transmissão”, declara Lessa. Apesar desse esforço diário no combate à pandemia, a Ciência de modo geral sofreu diversos ataques ao longo dos últimos dois anos. O médico saliente que os estudos clínicos e as evidências científicas são os principais recursos que a medicina dispõe para propor tratamentos mais efetivos e com o mínimo de riscos e efeitos adversos aos pacientes. “Uniu-se o desespero das pessoas em achar algo de forma rápida para tratar o Covid-19, com o discurso de personalidades públicas com pouco conhecimento de ciência e saúde. O que gerou uma série de desvios de conduta e duvidosas crenças que ocasionaram todos os desdobramentos que só agora estão chegando ao conhecimento do público e das autoridades”, pondera o médico.

A força da pesquisa

Rui Alberto Ferriani, professor e diretor da FMRP-USP, fala com orgulho da excelência no ensino e na pesquisa da Universidade de São Paulo. E não é à toa. As universidades públicas no estado de São Paulo, em especial a USP de Ribeirão Preto, foram protagonistas no combate ao Covid-19 e na produção de vacinas. “A população de São Paulo pode se orgulhar de ter uma faculdade como a USP, de ter uma Fapesp e um Butantan. Instituições na quais predominou a formação científica. Principalmente nesse momento em que a ciência tem sido atacada de uma maneira muito séria, seja por governos ou por uma minoria de colegas médicos”, declara. Ferriani avalia que a resposta rápida ao vírus só possível graças a uma estrutura de pesquisa já montada, não só no Brasil, mas no mundo. “Tivemos uma vacina em menos de uma no, isso é um recorde. É a força da ciência”, elogia o médico. "Quando o professor Zeferino Vaz, em 1952 fundou a FMRP, ele disse que não queria fazer uma escola como outra qualquer, mas sim uma escola para formar profissionais, pesquisadores e líderes. E foi realmente isso que ele conseguiu", acrescenta.

Todo esse carinho pela medicina e apreço pela ciência vem desde cedo. Ferriani lembra que teve influência da família, mas também, de pessoas próximas que estudavam na FMRP. "Isso me incentivou a procurar a medicina", diz. Hoje, Ferriani se tornou um defensor e propagador da medicina. O médico é muito solicito com os jovens que querem seguir nessa profissão. Segundo ele, quem gosta de pensar na vida e no bem-estar do próximo de uma maneira ampla, está no caminho certo para cursar medicina. "É uma profissão muito bonita, nos ensina a ter um lado humano. Ela não é só uma carreira na área biológica, mas também das ciências humanas. Precisamos ter o conhecimento do ser humano para entender que não somos só órgãos e sistemas, mas pessoas com algum tipo de doença e nós precisamos cuidar do indivíduo como um todo", ressalta.

Perfil demográfico

Segundo o estudo Demografia Médica Brasileira 2020, o Brasil possui 500 mil médicos. Número 109% maior do que se comparado a 2000. No mesmo período, a população brasileira cresceu 23%. Só no Estado de São Paulo, são 146 mil registros médicos, cerca de três médicos para cada mil habitantes. Segundo o estudo, 53,5% dos médicos são homens e 46,5% são mulheres, média muito próxima da nacional. Já em relação à idade, o estudo mostra que nos grupos mais jovens, as mulheres já são maioria: representam 58% entre os médicos de até 29 anos. De 30 a 34 anos, as médicas são 55%. O que aponta para um perfil cada vez mais jovem e feminino da profissão.

Apesar da paridade entre homens e mulheres, há, ainda, uma defasagem quando o assunto são médicos negros. Entre 2009 e 2019, o número de matriculados autodeclarados negros nos cursos de medicina aumentou 620%, porém, mesmo com o crescimento por conta da política de cotas, esses estudantes correspondem apenas a 25% dos inscritos nessa graduação. Segundo dados do Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), foram matriculados 114 mil estudantes brancos e 47 mil negros em 2019 no país. O estudo Demografia Médica Brasileira também revelou que a maioria dos médicos (61%) possuem ao menos um título de especialização. As especialidades mais comuns são, Clínica Médica, Pediatria, Cirurgia Geral, Ginecologia e Anestesiologia. Com base nesses dados, o estudo indica para uma medicina cada vez mais igualitária e especializada.