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Vitória News

Zoológicos brasileiros testam ração seca para tamanduás

Publicado em 18 agosto 2020

Fãs de cupins e formigas, os tamanduás são mamíferos que possuem um focinho típico, alongado e estreito, e que termina em uma boca pequena. Para capturar insetos eles possuem uma língua comprida e pegajosa devido às glândulas salivares desenvolvidas, e levam tempo comendo inseto a inseto. São quatro espécies conhecidas hoje: tamanduá-bandeira, tamanduá-mirim, tamanduaí e o tamanduá-do-norte.

Apenas essa última não estar presente no Brasil. Dentre todas, o tamanduá-bandeira (um animal grande que pode pesar mais de 30 quilos) é classificado como animal vulnerável, ou seja, que corre mais riscos em função da perda e alteração do seu habitat, atropelamentos, caça, queimada, conflitos com cães e uso de agrotóxicos. No estado de São Paulo, infelizmente, já está ameaçado de extinção: ao menos 30% da população foi perdida nos últimos dez anos, segundo pesquisa da bióloga Alessandra Bertassoni, da Universidade Estadual Paulista, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Dieta Difícil em cativeiro

Sendo assim, medidas de proteção estão sendo criadas para evitar a extinção desse animal, e um dos maiores desafios de cuidar dos tamanduás é oferecer uma dieta balanceada sob cuidados humanos, como explica o diretor de Nutrição e Alimentação Animal do Zoológico de Brasília, Lucas Andrade Carneiro. "A manutenção deles em cativeiro sempre foi um desafio devido a uma dieta muito especializada e de difícil replicação nos zoos. Por isso, durante décadas os tamanduás são mantidos a base de uma dieta líquida, pois não conhecíamos outras formas de alimentá-los. Apesar de funcionar e manter os animais nutridos, a papa dos tamanduás (nome que usamos para essa dieta líquida) apresenta uma série de problemas como a instabilidade dos nutrientes, dificuldade em limpeza e higienização, uma logística de preparo e distribuição mais complicada, entre outros".

Já a zootecnista e pesquisadora associada do Instituto Tamanduá e Diretora de Conservação da Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (AZAB), Ana Raquel Gomes, arrisca dizer que tamanduás são das espécies com maior diversidade de itens na dieta, pois a ausência de dentes, a pequena boca e a inabilidade de manipular com as patas levou a esse padrão líquido.

Porém, essa dieta em ambiente controlado faz com que o tamanduá não evacue do mesmo jeito que em vida livre, causando um problema de absorção de nutrientes. Ana tem 20 anos de experiência e destaca que na natureza eles terem uma grande quantidade de sólidos sendo ingeridos. "Eu imaginava como seria a apreensão da ração na longa língua do animal, achava que era possível eles se adaptarem a uma dieta seca, mas a ideia de ter uma ração consumida por eles era um sonho distante".

Ração seca

Essas dificuldades todas dos tamanduazinhos foram tema de conversa durante congresso da Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil, e os zootecnistas da Quimtia Brasil, empresa especializada na fabricação de insumos e alimentação animal, decidiram desenvolver a ideia. Foram meses de trabalho na formulação pelo departamento técnico e de pesquisa, para chegar em uma dieta personalizada, flexível e com o tamanho de pellet compatível com o jeito de eles se alimentarem.

Resultados

Os testes começaram em várias instituições e a solução está funcionando muito bem, eles estão conseguindo perfeitamente aderir os pequenos pellets à língua de 60 centímetros. "Vimos com nossos próprios olhos que eles se adaptam e consomem a Zoo Feed Tamanduá. Já vimos resultados preliminares como formação de fezes e reprodução em um dos criadouros. É claro que ainda precisamos de outros estudos em termos de absorção e composição dessa ração, há muito para pesquisar, mas sem dúvida foi um passo importantíssimo no manejo dessas espécies", afirma Ana Raquel que ressalta ainda a participação do Instituto Tamanduá no projeto também.

Localizado em Campina Grande do Sul (PR), o Criadouro Onça Pintada cuida de tamanduás-mirins e celebra a novidade na vida dos animais. Segundo George Ortmeier Velastin, médico veterinário do local, a papinha produzida por eles foi substituída 100% pela ração em pelets desenvolvida pela Quimtia. "E o melhor é que a adaptação foi super rápida, menos de três semanas. Inclusive uma das fêmeas ficou prenha e deu à luz a um filhote, se alimentando da ração, ", conta animado. Hoje a família com quatro tamanduazinhos, pai, mãe e dois filhotes, que vivem no Criadouro, se alimentam da ração. O Criadouro foi pioneiro na adaptação da dieta desses animais, sendo a primeira Associação de Pesquisa do Brasil a conseguir esse resultado.

Outra instituição que participa do processo de adaptação dos animais é o Zoológico de Brasília.