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Jornal da Unesp online

Zoologia

Publicado em 01 janeiro 2008

Por Danilo Koga

Anfíbios sob risco na Mata Atlântica


Artigo publicado na revista Science mostra que fragmentação de hábitats afeta reprodução de animais

Um estudo realizado por pesquisadores de diversas universidades mostra como a ação humana prejudica os anfíbios da Mata Atlântica. Realizado entre novembro de 2004 e novembro de 2007, o levantamento constata que fenômenos como desmatamento, fragmentação de ecossistemas e desconexão entre hábitats reduzem populações desses animais e ameaçam várias espécies de extinção. A pesquisa, que tem entre seus co-autores o professor Célio Fernando Baptista Haddad, do Instituto de Biociências (IB), câmpus de Rio Claro, foi publicada na edição de dezembro da revista Science.

De acordo com o trabalho, os principais problemas que afetam os anfíbios são destruição dos ecossistemas naturais, poluição ambiental, redução da camada de ozônio — que provoca o aumento da radiação ultravioleta B —, doenças, comércio ilegal de animais, mudanças climáticas e introdução de espécies exóticas.

Após pesquisar diversas áreas da Mata Atlântica, os especialistas concluíram que a distância da área de floresta até os rios interfere na diversidade de anfíbios. "A maior parte das espécies começa sua vida na água, na forma de girinos", explica Haddad, que coordena o laboratório voltado para o estudo desses animais, no Departamento de Zoologia. "Se houver fragmentação do ambiente, as espécies terão uma grande dificuldade para sobreviver."


Espécies sob ameaça

As poucas florestas que restam estão isoladas em morros ou foram separadas em fragmentos desconectados, enquanto os vales onde correm os rios são dominados por cidades, pastos e plantações. No Estado de São Paulo, 76% da vegetação ciliar — localizada nas margens dos rios — não existe mais. "Esse número é impressionante, pois a vegetação é protegida pelo Código Florestal brasileiro", disse.

Segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), das 5.918 espécies de anfíbios no planeta, cerca de 1.900 estão ameaçadas de extinção. O Brasil, o país com maior diversidade de anfíbios no mundo, com 765 espécies, possui 25 sob risco. Na Mata Atlântica, 15 das 483 espécies podem ser extintas. De acordo com a lista oficial brasileira, nove delas estão em situação crítica: Melanophryniscus macrogranulosus (sapinho-narigudo-de-barriga-vermelha); Hypsiboas cymbalum (perereca); Bokermannohyla izecksohni (perereca); Hylomantis granulosa (perereca-verde); Phyllomedusa ayeaye (perereca-de-folhagem-com-perna-reticulada); Scinax alcatraz (perereca-de-bromélia); Holoaden bradei (sapinho-rugoso); Odontophrynus moratoi (sapinho); e Paratelmatobius luztii (rãzinha).

Para o docente, uma solução para o problema seria a ampliação de reservas protegidas e a recuperação de áreas degradadas, com a recomposição de matas ciliares e ligação dos fragmentos florestais. Além de Haddad, o trabalho teve como autores os professores Carlos Guilherme Becker, da Unicamp; Carlos Roberto Fonseca, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos); Paulo Inácio Prado, da USP; e Rômulo Fernandes Batista (Unicamp).

O trabalho teve o apoio do Programa Biota da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Unisinos.