Notícia

Jornal da USP

Zona leste tem novo perfil

Publicado em 03 setembro 2000

A abertura de shopping centers e hipermercados, a instalação de universidades, as mudanças no sistema viário e os lançamentos imobiliários vêm dinamizando a economia, a cultura e a estrutura urbana da zona leste. Essa transformação no contexto da própria cidade foi avaliada através do estudo que o Instituto Pólis acaba de desenvolver com o apoio da Fapesp. O trabalho, coordenado pela pesquisadora e arquiteta Raquel Rolnik, com graduação e mestrado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, está sendo apresentado no CD-ROM São Paulo Leste/Sudeste. Mostra a evolução dos bairros nas três últimas décadas e, ao mesmo tempo, faz uma retrospectiva da história e do crescimento de São Paulo. "Quando iniciei essa pesquisa, há um ano, imaginei uma realidade na zona leste muito diferente", admite Raquel. "A minha meta era observar o impacto da desindustrialização, já que os bairros da região eram caracterizados por fábricas que foram desativadas no decorrer dos anos 90." Para surpresa da urbanista, muitos dos galpões vazios foram remodelados para uma nova ocupação em comércio e serviços. "Detectei um cenário diverso do que existe na zona industrial do eixo Tamanduateí. A Mooca, por exemplo, manteve várias fábricas em atividade e o caso mais curioso é o prédio onde funcionava a indústria têxtil Alpargatas, próximo à Radial Leste, que foi todo remodelado para sediar a Universidade Anhembi-Morumbi." Em vez da desindustrialização, Raquel observou, como ela própria define, um amplo processo de reconversão industrial. "Ao longo dos bairros, há a concentração de empresas de potencial inovador, a exportação das plantas menos dinâmicas e uma grande dispersão de pequenas e micros novas indústrias." Outra característica importante é o comércio especializado em algumas áreas que não tem concorrência nos shopping centers. A rua do Gasômetro é uma das mais movimentadas por oferecer madeiras, ferramentas e ferragens. Nas ruas Maria Marcolina, Silva Telles e Oriente estão as confecções e artigos têxteis. A rua Piratininga vende máquinas, a Celso Garcia oferece fogões e carrinhos e a Valtier, plásticos e papelaria. "Essa superespecialização garante um papel estratégico da região no contexto metropolitano", garante Raquel. Além dos shopping centers, hipermercados e franquias, ao longo de toda a zona leste, destacam-se os investimentos imobiliários. "As pessoas optam por continuar morando na região, mesmo quando ascendem economicamente. Preferem bairros próximos do local onde nasceram e cresceram. O mais concorrido de todos é o Tatuapé, por ter moradias de alto padrão." MAIS CONSUMO E CULTURA As mudanças no consumo e serviços da zona leste vêm modificando o cotidiano e também o perfil da população. Os jovens que antes tinham de atravessar a cidade para trabalhar e estudar, agora encontram novas opções de trabalho, lazer e cultura na própria região. Na última década, o bairro abriu espaço para a oferta privada no ensino superior, que também segue os mesmos princípios da racionalidade empresarial característica do comércio. "A Universidade Cruzeiro do Sul, em São Miguel Paulista exemplifica nitidamente essa constatação", acentua Raquel. "Com 40 mil metros quadrados de área construída e 11.500 alunos divididos entre os cursos superiores e os dois colégios de primeiro e segundo graus, afere um faturamento de R$ 30 milhões por ano." Na entrada desse edifício foi projetada uma praça de alimentação, inspirada nas que existem nos shopping centers, onde os alunos passam horas em plena atividade de consumo. "Com a inauguração de um campus-filial no Jardim Anália Franco, essa universidade acena com a perspectiva concreta de aumentar ainda mais o seu faturamento." Também para incrementar a cultura, o Sesc abriu duas novas unidades em Itaquera e Belenzinho e suas programações sempre atraem um grande público. A pesquisadora esclarece que entre os projetos de serviços aprovados nota-se um número considerável de escritórios para serem implantados principalmente no Tatuapé, Penha e próximo ao eixo do Tamanduateí. "Esses escritórios não repetem o mesmo padrão de edifícios que surgiram nas últimas décadas junto à avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini. Possivelmente, são parecidos com os que apareceram na zona norte no início da década de 90." Outros investimentos, até então inusitados na região, indicam a instalação de hotéis. Com exceção do hotel de 250 apartamentos e centro de convenções planejado para o complexo do Shopping Aricanduva e os flats Meliá Confort Tatuapé e o Caesar Towers Anália Franco, a maioria dos projetos aprovados é mais popular, utilizada para pernoite. Apesar do fluxo de capitais que reposiciona a zona leste no conjunto da região metropolitana de São Paulo, a pesquisa do Instituto Pólis analisa também a precariedade de áreas no extremo da periferia como Cidade Tiradentes e José Bonifácio, que tiveram os maiores crescimentos populacionais dentre os 96 distritos do município, onde a oferta de emprego é zero. "O novo perfil da zona leste não significa que se esteja produzindo uma cidade melhor ou mesmo mais homogênea", salienta Raquel. "Importante lembrar que mesmo megainvestimentos em regiões de urbanização incompleta não repercutem em melhora alguma. Pelo contrário. Sua forma de inserção é recortar e fragmentar o tecido circundante, não estabelecendo qualquer relação com o entorno." Entende-se por zona leste do Município de São Paulo o território formado pelo conjunto de distritos situados a leste do centro histórico e do eixo Tamanduateí: Pari, Brás, Belém, Mooca, Tatuapé, Água Rasa, Vila Prudente, Penha, Cangaíba, Ermelino Matarazzo, Ponte Rasa, Vila Jacuí, São Miguel Paulista, Jardim Helena, Vila Curuça, Itaim Paulista, Lajeado, Guaianazes, Carrão, Vila Matilde, Artur Alvim, Vila Formosa, São Lucas, Aricanduva, Sapopemba, Itaquera, Cidade Líder, São Mateus, Parque do Carmo, José Bonifácio, Cidade Tiradentes, Iguatemi e São Rafael. O CD "São Paulo Leste/Sudeste" pode ser encontrado no Instituto Pólis, rua Cônego Eugênio Leite 433, Pinheiros. Preço: R$ 20,00. Maiores informações pelo fone (0xx11) 853 6877. No ritmo dos shopping centers Os armazéns, as vendinhas onde é possível encontrar um pouco de tudo, as lojas que passam de pai para filho ainda fazem parte do cenário da maioria dos bairros da zona leste. Mas sobrevivem a duras penas. A pesquisa do Instituto Polis mostrou como o comércio local vem se mobilizando para se harmonizar com os diversos shopping centers e os hipermercados inaugurados em pontos estratégicos. "O capital comercial local pode acompanhar o padrão de distribuição de mercadorias estabelecido pelo grande capital e com isso elevar o seu desempenho mercadológico", afirma a urbanista Raquel Rolnik. "Muitos lojistas tradicionais tentam encaixar suas lojas nos nichos dos grandes mercados e shoppings." A acomodação entre o conjunto de capitais que chega e o capital comercial local, no entanto, nem sempre consegue ser articulada. "É o que ocorreu com vários supermercados de bairro do distrito de Itaquera que fecharam suas portas frente à pressão exercida pela implantação do complexo Aricanduva e do hipermercado Carrefour." A pesquisa aponta, no entanto, um exemplo positivo. A rede local de hipermercados D'Avó, criada há 15 anos, tem conseguido enfrentar a concorrência. Com lojas na Cohab Itaquera, São Miguel Paulista, Vila Industrial, Itaim Paulista e Guaianazes, reformulou a sua estrutura de comercialização, registrando, em 1997, um faturamento bruto de R$ 157 milhões. Durante um ano, a equipe do Instituto Polis acompanhou a atuação dos shopping centers e o comportamento dos consumidores, conseguindo traçar um paralelo curioso entre o popular Aricanduva, inaugurado em 1991, e o sofisticado Anália Franco, aberto no ano passado. O primeiro tem 11 mil vagas de estacionamento e uma rede diversificada de lojas de pequeno porte. TATUAPÉ: BAIRRO EM ASCENSÃO O Tatuapé é um capítulo à parte na história da cidade. De uma região com um índice alto de poluição, o bairro, nas duas últimas décadas, muda de rumo. E emerge, na avaliação das pesquisas do Instituto Polis, como um foco de alto padrão e um pólo de dinamismo econômico de qualidade única. Sua população chega a ter uma média de renda familiar de R$ 2.570 mensais, ou seja, 63% acima da média da Grande São Paulo. Segundo os urbanistas, a região apresentou historicamente uma ocupação de padrão mais elevado do que o restante da zona leste. A região alta e não inundável foi determinando um bairro de padrão mais alto. Outro motivo da valorização da área foi a existência nas cercanias de uma grande área verde - o Ceret, um dos poucos parques da região. Também 1986, o Tatuapé deixa de ser o ponto final do ramal leste do Metro, o que livra o bairro - especialmente a Praça Sílvio Romero - de um intenso tráfego de ônibus e do comércio ambulante que se instala nos entroncamentos de transporte coletivo que o congestionavam desde 1981, quando recebera a estação então terminal da Linha Leste. "Estavam dadas as pré-condições para a transformação do bairro", afirma a pesquisadora Raquel Rolnik. "Havia uma demanda reprimida composta, por exemplo, pelos grandes empresários, que atuavam na Trabalhadores, na Dutra, que queriam morar bem, mas não tinham interesse de se mudar para a Zona Sul. Os empreendimentos com apartamentos de até 500 metros quadrados passaram a atender essa clientela. Passaram a ser um grande sucesso de vendas. Com esses empreendimentos, surgem também os serviços e um comércio sofisticado. Na área do Jardim Anália Franco, uma das ilhas da Zona Leste, instala-se também a classe média alta. "O nome Anália Franco significa símbolo de status, fato reforçado com a abertura no bairro do primeiro shopping de alto padrão da região, em 1999", conta Raquel. Com a ocupação de alto e médio padrão, chegam os serviços e o comércio sofisticado.