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Zika trata cães com câncer no sistema nervoso central

Publicado em 11 março 2020

Estudo, inédito no Brasil, avaliou a segurança e eficácia do vírus zika em combater tumores cerebrais

Depois de concluído o estudo, Raquel procurou o grupo da Mayana e relatou ter três pacientes com câncer em estágio avançado. Carolini, decidiu, então, iniciar um ensaio veterinário com esses animais. “A ideia inicial era saber se era seguro fazer um tratamento viral nesses animais”, explica Carolini.

Pirata, um pitbull de 13 anos e 26 quilos (kg), foi o primeiro a receber uma dose da injeção intratecal na altura do pescoço. O vírus foi inserido no líquido cefalorraquidiano, também conhecido como líquor. 

De vilão a aliado

Antes do tratamento, o animal estava bastante debilitado. “Ele chegou até nós praticamente em coma”, relata Raquel. “Dias depois de iniciado o tratamento, ele voltou a andar com ajuda, a comer e a beber água”. Pirata não apresentou nenhum sintoma típico de uma infecção generalizada, como diarreia e febre, e permaneceu vivo por 14 dias. Os cientistas comprovaram, então, que o tratamento era seguro.

O segundo caso foi o do Matheus, um boxer de 9 anos e 32 kg, com histórico de convulsões. Ele recuperou a habilidade de pular, subir escadas, jogar bola e interagir com seus donos. O tumor regrediu em torno de 35%. Já Nina, uma dachshund com 12 anos e 6,4 kg, foi a terceira a participar do estudo. Ela era incapaz de reconhecer os donos e de comer e, após a terapia, a redução da massa tumoral foi de 38%. Nina permaneceu viva por 150 dias; Matheus, por 80 dias.

Diagnóstico comprometido

Estudar cachorros é desafiador, segundo os cientistas. Quando o diagnóstico é feito, geralmente a doença está em fase avançada. “A localização e o tamanho do tumor são avaliados por imagem de ressonância, mas não se sabe de antemão qual é o tipo do tumor, porque não se faz biópsia”, explica Mayana. “E tem mais um agravante: são raças diferentes, tumores diferentes, idades diferentes e donos diferentes.”Por isso, os cientistas só conseguiram identificar qual tipo de câncer acometeu os cães pela análise histológica dos tecidos cerebrais post-mortem. Matheus tinha um oligodendroglioma, e Nina, um meningioma intracranial. No pitbull não foram encontradas células do tumor, sugerindo que ele pode ter sido eliminado.

As análises também mostraram intensa necrose, principalmente na borda do tumor, além da presença de linfócitos T, macrófagos e monócitos. “Os resultados mostraram que o vírus tem um duplo efeito: além de destruir as células cancerosas, ele ativa o sistema imunológico”, relata Carolini. “Quando você tem um tumor, o sistema imunológico não reconhece como algo a ser destruído”, relata Mayana.

“O vírus da zika mostrou ter potencial de ativar o sistema imunológico para que ele reconheça o tumor como um inimigo a ser destruído.” “Apesar de termos só três animais, já conseguimos ter uma ideia de como um adulto humano responderia a esse tratamento, que é muito semelhante às imunoterapias.” Carolini diz, ainda, que pretende seguir com os estudos veterinários.

Mais informações: e-mail carolini.kaid@usp.br, com Carolini Kaid Davila

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