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Zika, febre amarela e desprezo pela verdade ameaçam o Brasil

Publicado em 23 janeiro 2017

O Brasil não é para amadores, já disseram. Cabe como uma luva para o país a expressão usada pelo escritor Martin Walser para qualificar a Alemanha pós-nazismo, ainda partida em duas: uma pátria difícil.

A morte do ministro Teori Zavascki, relator do Supremo Tribunal Federal da Lava Jato, disseminou um abatimento compreensível pelo território nacional. Mais que o juiz Sergio Moro, ele de certo modo simbolizava a busca laboriosa e serena para estabelecer a verdade, numa terra que tem tradição de voltar as costas para ela – a começar pela pesquisa científica.

Não se trata de dizer que os autos dos processos ou as publicações científicas sejam capazes de produzir verdades definitivas, indiscutíveis.

Tanto o Judiciário como a ciência se limitam a produzir, quando funcionam direito, a melhor conclusão ou explicação possível sobre os fatos. Algo similar ao que move o trabalho jornalístico, de resto.

No Brasil, como nos Estados Unidos do recém-empossado Donald Trump, chegaram os tempos da pós-verdade. Perde valor o que se baseia em fatos e evidências e ganha audiência – cliques nas redes sociais – qualquer coisa que confirme as convicções prévias do interlocutor, falsa ou verdadeira.

Aqui como lá, a esfera pública se rende ao prisma ideológico que degrada qualquer tipo de luz em duas cores primárias, o vermelho-petralha e o azul-tucano. Fatos e dados que se danem.

O governador Geraldo Alckmin (PSDB), por exemplo, deve estar convencido de que seja coisa de petistas a defesa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). É uma das instituições brasileiras que mais se aproxima do ideal de transparência e mérito que norteia a atividade científica.

Pois a Assembleia Legislativa paulista garfou R$ 120 milhões do orçamento da Fapesp para 2017. E é difícil crer que a jogada não tenha sido combinada com Alckmin.

Viola-se abertamente o preceito da Constituição estadual que manda destinar 1% da arrecadação paulista à fundação. Mas o governador manda dizer que não teve nada a ver com isso e que, contra todas as evidências, o valor definido pela Assembleia respeita aquele percentual.

A Fapesp figura entre os setores da administração pública que mais rapidamente reagiram à emergência da zika. Destinou fundos emergenciais para estudos sobre vírus, mosquitos, vacinas e exames laboratoriais.

Lançou-se sem pestanejar na produção de dados e conhecimento para enfrentar a doença, da mesma maneira que já fez com o genoma humano, os biocombustíveis, a biodiversidade e a mudança climática.

Enquanto isso, o governo federal se lambuzava nas promessas descumpridas. Iria obter uma vacina contra a zika dentro de um ano, em parceria com os EUA. Distribuiria repelentes para mulheres grávidas pobres. Providenciaria transporte para o tratamento de bebês microcéfalos no interior do Nordeste.

Nada. Espera-se agora uma nova saraivada de planos e compromissos vazios com o surto de febre amarela em Minas Gerais e no Espírito Santo.

Teori, com seu jeitão tranquilo, parecia o oposto desse pessoal: trabalhava quieto por alguma verdade e, nessa medida, pelo bem do país. Há outros como ele no aparelho de Estado, mas poucos. Sua morte torna o Brasil um pouco mais difícil.

Autor: Marcelo Leite – Referência: Folha de São Paulo