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Correio Popular

Xylella Fastiosa também ataca cultura do café

Publicado em 13 janeiro 2001

Por Maria Teresa Costa - Do Correio Popular - teresa@cpopular.com.br
A bactéria Xylella fastidiosa, que provoca a doença do amarelinho em citros, ataca também o café. A descoberta é de pesquisadores do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) que agora, junto com pesquisadores do Centro Experimental do Instituto Biológico de Campinas, buscam conhecer o tamanho do estrago que essa bactéria, o primeiro ser vivo geneticamente seqüenciado por cientistas brasileiros, pode estar provocando nas culturas de café no Estado de São Paulo. Nos citros, a bactéria provoca a Clorose Variegada dos Citros (CVC), ou amarelinho, doença que leva a queda na produção de frutas. Elas ficar duras e amadurecem precocemente. A praga do amarelinho afeta 34% dos pomares de laranja no Estado de São Paulo. No café os sintomas encontrados pelo pesquisador Osvaldo Paradela Filho, do IAC, são encurtamento de internódio (a distância entre as folhas, onde nasce o fruto), redução da quantidade de frutos em ramos infectados, morte de ramos laterais com aparecimento das varetas, sintoma de deficiência de zinco. "São sintomas genéricos, que dificultam o trabalho", observa o biólogo Luís Otávio, Saggion Beriam, pesquisador científico do Laboratório de Bacteriologia Vegetal do Instituto Biológico. Ao conjunto de sintomas, pesquisadores têm dado o nome de amarelinho, clorose variegada do café, requeima do cafeeiro, mas o nome da doença que se aproxima dos sintomas e que está sendo adotado pelo Instituto Agronômico e Instituto Biológico é "atrofia dos ramos do cafeeiro". Há fortes indícios, mas os elementos disponíveis ainda não permitem fechar um diagnóstico, de que a bactéria provoca queda na produção dos cafeeiros. Beriam está isolando linhagens da Xylella e inoculando plantas com a bactéria, em ambiente controlado, para acompanhar as alterações que devem aparecer nas plantas, para ver se ela é a responsável pelo quadro de sintomas verificado em campo. O pesquisador mede freqüentemente o distanciamento entre as folhas e observa mudanças que são esperadas. Todas as regiões da cafeicultura paulista têm a presença da Xylella fastidiosa, afirma Beriam. Mas se desconhece, ainda, se ela provoca danos na planta que interfiram na produção de frutos. Nos citros, o efeito é bastante conhecido. No Laboratório de Bacteriologia Vegetal, Berim trabalha no diagnóstico e isolamento de linhagem de Xylella, para a formação de um banco de cultura para determinar o que a bactéria provoca no cafeeiro. "Buscamos saber se é a Xylella ou a interação com alguma outra situação, que pode ser estresse térmico, líquido, nematóide, enfim, que pode provocar os sintomas. Por isso, os testes de patogenicidade são fundamentais", diz. Ele acredita que dentro de três ou quatro meses já poderá ter os primeiros resultados. Pesquisadores do Laboratório de Entomologia do Centro Experimental também estão estudando o vetor dessa bactéria, para identificar se, assim como nos citros, ela chega pela cigarrinha. Onze espécies de cigarrinhas são comprovadamente capazes de transmitir a bactéria Xylella fastidiosa e, portanto, são responsáveis pela disseminação do amarelinho em todas as regiões citrícolas do País. Ao se alimentarem no xilema (os vasos que levam a seiva para a planta) de árvores contaminadas, as cigarrinhas adquirem a bactéria e passam a transplantas com a bactéria. Bactéria é transgênica natural A bactéria Xylella fastidiosa, que causa a praga do amarelinho e primeiro patógeno, em todo o mundo, que teve seu genoma seqüenciado por cientistas brasileiros, é uma bactéria naturalmente transgênica, conforme observaram os pesquisadores do Projeto Genoma, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Ou seja, a natureza se encarregou de mudá-la geneticamente. O resultado desse projeto, no ano passado, foi publicado, na britânica Nature, a mais conceituada revista científica. Foi a primeira vez que a ciência produzida no Brasil é tema de capa da Nature nos 130 anos de existência da revista. Os pesquisadores descobriram no genoma da Xylella a mesma família de moléculas existente em bactérias que infectam seres humanos. Uma descoberta que surpreendeu, conforme o coordenador do projeto, Andrew Simpson. "Um dos requisitos de uma infecção é a existência de uma ligação da bactéria com o hospedeiro, de forma que haja um mecanismo que ajude a bactéria a grudar em algo sólido e iniciar o processo de infecção. Encontramos na Xylella a mesma família de moléculas de bactérias que infectam pessoas", explicou. O que poderia ter levado os genes de uma bactéria a outra são vírus, na hipótese levantada pela equipe do Projeto Genoma. "Na Xylella descobrimos que 7% são genes de vírus que infectaram a bactéria, o que a torna naturalmente transgênica", afirmou Simpson na época.