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Workshop apresenta potencialidades da biodiversidade marinha

Publicado em 17 setembro 2010

Por Flávia Gouveia

São mais de 160 os tipos de tumores chamados de câncer - a segunda doença que mais mata no mundo - que a ciência e suas aplicações buscam combater. Mas nessa busca, o oceano e toda a biodiversidade marinha que ele encerra ainda não foram suficientemente estudados, sobretudo no Brasil. Substâncias capazes de inibir a reprodução de células cancerígenas, assim como algas com alto potencial para a proteção contra a radiação solar ultravioleta foram alguns dos exemplos destacados no "Workshop sobre biodiversidade marinha: avanços recentes em bioprospecção, biogeografia e filogeografia", realizado pelo Programa Biota-FAPESP nos dias 9 e 10 de setembro, na sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Raymond Andersen, professor do Departamento de Química e Ciências da Terra e do Oceano da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, participou do evento apresentando trabalhos realizados por seu grupo a respeito de compostos isolados a partir de esponjas com ação antimitótica, isto é, que detêm a mitose (processo de divisão celular), e assim podem ser usados em células cancerígenas para o tratamento da doença. Um fato interessante ressaltado por Andersen é a variabilidade de composição química entre esponjas recolhidas de diferentes regiões, provavelmente porque as esponjas de cada local têm simbiose com microrganismos diferentes. As esponjas usadas em seus estudos foram coletadas em Papua-Nova Guiné e na costa canadense.

Para além do combate ao câncer

O professor Pio Colepicolo Neto, do Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP), estudou as algas marinhas e descobriu que elas servem para fins que vão muito além da alimentação: na indústria farmacêutica (para a fabricação de antiinflamatórios, antifúngicos, antivirais, bactericidas, antioxidantes), na agricultura (antifúngicos para aumentar o tempo de vida útil de frutas), biocombustíveis (etanol gerado por processos de fermentação), como antioxidante na área de cosmética e como auxiliar no combate ao câncer de pele, pela eficiência de alguns compostos na absorção de raios ultravioleta B (UVB).

Nos estudos do grupo de pesquisas coordenado por Colepicolo, realizou-se o isolamento de microsporinas (MAA), substâncias químicas de baixo peso molecular, com alta capacidade de absorver radiação ultravioleta (UV), a partir de macroalgas da costa brasileira. Verificou-se que a ação antioxidante dessas substâncias protege-as contra os efeitos danosos dos raios UV, assim como protegem outros organismos marinhos que se alimentam de algas. Os testes revelaram que as microsporinas apresentam um espectro de absorção de UV muito próximo ao do mais eficiente produto sintético conhecido no mercado. Para o professor, "o desafio agora é sintetizar essas substâncias e aumentar a produção natural de algas de forma sustentável". Um exemplo dado por ele é o processo long line, em que as algas se fixam em cordas lançadas ao mar, geralmente em cultivo integrado com a produção de camarões em criadouros.

O desenvolvimento de formas sustentáveis de exploração comercial foi também ressaltado pela professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) Letícia Veras Costa Lotufo em sua exposição no workshop. "A obtenção de compostos sem o esforço de coleta é um passo não trivial que ainda estamos buscando", diz. A professora mostrou que há hoje apenas quatro substâncias naturais marinhas para tratamento do câncer exploradas comercialmente (prialt, vidarabine, cytarabine e yondelis). Apenas na universidade onde trabalha, são estudadas e testadas cerca de 10 mil amostras, colocando em evidência os desenvolvimentos do Ceará nesse tipo de pesquisas. Foram apresentados resultados interessantes acerca do desempenho de alguns compostos na destruição das células cancerígenas, e que convidam ao prosseguimento das pesquisas.

(Envolverde/ComCiência)